Economia

Província está bem pior do que
em análise que completa 16 anos

  DANIEL LIMA - 30/05/2016

Quem diria que, 16 anos depois de produzir uma entre centenas de textos sobre o esquartejamento econômico, social e institucional da Província do Grande ABC, este jornalista chegaria à conclusão que foi até generoso nas abordagens tão combatidas pelos bandidos sociais que já à época mostravam as garras? E também por gente do bem, que não queria enxergar onde estávamos e para onde íamos.

Pois para matar a cobra da realidade pretérita e mostrar o pau da realidade presente republico abaixo uma análise que publiquei em forma impressa na revista LivreMercado, a qual conduzi na área de Redação durante quase duas décadas. Tão minha era a linha editorial de LivreMercado que esta revista digital vem absorvendo gradualmente boa parte dos textos originais.  Um legado imensurável daquela que foi a melhor publicação regional do País.

Vasculhando no final de semana prolongado a memória de CapitalSocial, eis que dou de cara (ou seria de olhos?) com o texto abaixo, sob o título “Como se preparar para não repetir os erros do Grande ABC”.

A análise foi destaque da edição de julho de 2000 de LivreMercado. Acho que vale a pena reproduzir o trabalho aos leitores. Acrescento, entretanto, uma ponderação que justifica a medida: vou fazer breve ancoragem critica sobre o que redigi há 16 anos. Não é mesmo uma boa ideia? Será que houve mudanças conceituais e práticas nesse período?

Vou adicionar “Meus comentários” na sequência de enunciados do passado. Acho que vale a pena os leitores conferirem. Esse é um documento histórico, com perdão da imodéstia. A conclusão a que chego está no título deste texto: fui generoso demais com a Província quando observei a linha do horizonte.

Vamos então conferir o que escrevi no passado de mais de uma década e meia e o que tenho a dizer agora?

Texto de julho de 2000 -- O que empreendedores privados, administradores públicos e a comunidade do Interior do Estado podem aprender com o histórico de desenvolvimento econômico do Grande ABC, conjunto de sete municípios na Região Metropolitana de São Paulo que se consagrou como a área geográfica industrial mais influente do País? Talvez a melhor resposta seja tão cruel quanto providencial: não caiam no ufanismo doméstico de quem precisa de permanente autoelogio para inflar o ego. Nem se deixem enganar pelo lambe-lambe dos chamados forasteiros, especialistas em propagar o lado róseo das regiões que pretendem seduzir exatamente porque precisam parecer simpáticos para seus projetos pessoais ou profissionais.

Meus comentários – Acho que essa advertência talvez seja desnecessária nestas alturas do campeonato porque há tantos mecanismos tecnológicos de informação a reduzir o grau de risco de investimentos privados que basta um pouco de atenção para não cair nessa esparrela. Pobres das comunidades que se deixarem levar pelos mentirosos e enganadores de plantão. O Complexo de Gata Borralheira da Província do Grande ABC (sobre o qual só escreveria, em formato de livro, dois anos depois do texto original) muito contribuiu para o autoengano generalizado.

Texto de julho de 2000 -- O Grande ABC viveu ao longo de meio século fascinante etapa de crescimento econômico, mas longe esteve e ainda está de qualquer amarração política, institucional e social que possa ser catalogada como solidamente regeneradora, embora tenha registrado sinais de evidentes avanços nos últimos cinco anos.

Meus comentários – A institucionalidade sobre a qual me referi nos citados cinco últimos anos foi para a cucuia há muito tempo. Mais que ir para a cucuia, deu vazão ao que há de mais sórdido em compadrismos, protecionismos e sem-vergonhices. Vivemos neste 2016 uma quadra de penúria à espera de uma Lava Jato regional que promova uma senhora faxina em todas as esferas locais, dominadas pelo banditismo despudorado.

Texto de julho de 2000 -- Foi embalado pela compulsoriedade do desenvolvimento econômico que o Grande ABC se cristalizou como centro de atratividade empresarial e de mobilidade social. Empreendimentos industriais não faltaram ao longo de décadas sobretudo a partir da chegada das montadoras de veículos. Caudais de marginalizados econômicos também acorreram às suas fronteiras em busca de um oásis de ascensão social. Entretanto, o Grande ABC acabou torpedeado pelas transformações macroeconômicas nacionais e internacionais e se viu tingido de vermelho em vitais indicadores de prosperidade. Responsável por perto de 10% do Produto Industrial paulista, o Grande ABC está longe de desmantelamento econômico. Dono de pelo menos 15% do Produto Industrial há 20 anos, o Grande ABC está próximo do limite de esvaziamento econômico suportável.

Meus comentários – Como o Grande ABC do passado, transformado em Província do Grande ABC, é capaz de tudo, inclusive de ultrapassar todos os limites de negligência coletiva à recuperação econômica, a projeção de que estaríamos próximos ao limite de esvaziamento econômico suportável virou sucata. Estamos avançando celeremente a novas profundezas nos mais diferentes indicadores sociais e econômicos.

Texto de julho de 2000 -- Exatamente porque se apercebeu do processo de contração econômica, a sociedade do Grande ABC resolveu reagir. É verdade que até hoje há grotescos gladiadores locais dispostos a tudo para negar o inegável rompimento da linha de crescimento dos sete municípios, quanto mais para admitir que há profundas fissuras que recomendam intervenções urgentes. Na verdade, são alguns paspalhos teóricos que não se dão ao mínimo trabalho de ir a campo e constatar com os próprios olhos os claros sinais de empobrecimento regional, em contraponto com a fluidez de investimentos produtivos em direção a outras áreas do Estado que se instrumentalizaram especificamente para atrair negócios.

Meus comentários – Viram os leitores como há 16 anos este jornalista, embora pessimista e derrotista para uma minoria organizada e deletéria, estava completamente enganado ao estabelecer uma linha de horizonte de melhoria do nosso comportamento como sociedade? Há tão pouca gente hoje comprometida publicamente com novos valores regionais, de mudanças profundas, que o quadro pintado em 2000 era um oásis de representatividade, embora pífio ante outros territórios que nos levaram muitos investimentos.

Texto de julho de 2000 -- Entre outras evidências de que o Grande ABC já viveu dias melhores está o assustador desfile multicolorido de tabuletas de aluga-se ou vende-se em residências e estabelecimentos comerciais e de serviços. Ou de um cordão assustador de fábricas de todos os portes que faliram ou resolveram respirar outros ares deixando para trás galpões à espera de substitutos cada vez mais raros. Sem contar a nordestinação de pequenos negócios — garagens de residências cujos veículos perderam espaço para pequenos estabelecimentos de subsistência, casos de mercearias, quitandas, açougues, quinquilharias, botecos, pizzarias, coisas assim.

Meus comentários – A situação atual não difere do que vimos há 16 anos. Estamos fritos. A diferença é que já não são tantas as fábricas que se evadem em busca de outros endereços no Estado, embora o fluxo de desistência não tenha virado passado. Já não perdemos tantas empresas como antes porque a degola é contínua e há natural desaquecimento da debandada por conta da redução dos sobreviventes. A nordestinação continua a passos céleres. Onde falta emprego de qualidade emerge empreendedorismo de necessidade.

Texto de julho de 2000 -- Os micronegócios informais já estão tão institucionalizados que o prefeito Celso Daniel, de Santo André, mandou para a Câmara Municipal proposta de adequação da legislação a esses empreendimentos. Nada mais natural porque, entre outros motivos, não vale mais a pena tentar impor a camisa-de-força do legalismo formal a negócios que só sobrevivem física e estruturalmente com a pantalona da informalidade. Falaram mais alto para a administração do PT de Santo André as dificuldades operacionais de fiscalização e a compreensão das debilidades sociais decorrentes de mudanças socioeconômicas ditadas principalmente pelo desemprego compulsório da mão-de-obra de origem industrial. A expectativa é de que outros administradores municipais sigam o exemplo. O fenômeno da proletarização empresarial não é exclusividade de Santo André, mas regra geral no Grande ABC.

Meus comentários – Nestes temos bravios de esquartejamento da economia nacional, com fundas implicações numa região tangida pela Doença Holandesa automotiva, esperar que a degringolada de empreendedores do ano 2000 fosse diferente chega ao surrealismo da ignorância ou do otimismo imbecil. Estamos bem piores agora do que naquele início de século. O crescimento dos microempreendedores individuais é uma prova provada da erosão econômica.

Texto de julho de 2000 -- Quando se afirma que a sociedade resolveu reagir, é preciso entender o sentido específico do termo. Sociedade no caso são algumas lideranças públicas, empresariais e sociais que decidiram sair do casulo do comodismo. Dessa forma, romperam o amedrontamento latente de ser interpretadas como agentes de lesa-região ao proclamarem as dificuldades já explicitadas nos mais diferentes indicadores econômicos e sociais. Também se viram camadas de formadores de opinião que encontraram a oportunidade de expressar preocupação com o rumo dos acontecimentos, estimuladas por outras lideranças que finalmente colocaram o dedo na ferida do esvaziamento industrial e de suas consequências. Por isso foram criados o Consórcio dos Prefeitos, a Câmara Regional e o Fórum da Cidadania. Primeira e mais antiga instância, o Consórcio Intermunicipal reúne exclusivamente os prefeitos dos sete municípios. De uma etapa inicial voltada apenas para bacias hídricas, seguida de endêmico desinteresse, reagiu com os atuais prefeitos e incorporou novas e amplas pautas de estudos, planejamento e ações. A segunda instância, a Câmara Regional, é tripartite: reúne representações do governo do Estado, do Poder Público regional e também de organizações econômicas e sociais. A terceira, o Fórum da Cidadania, é exclusivamente integrada pela sociedade, com mais de 100 organizações filiadas. Seu surgimento é responsável pela reativação do Consórcio e pela criação da Câmara Regional. O Poder Público não tem espaço no Fórum da Cidadania, mas as hostilidades já fazem parte do passado.

Meus comentários – Todo esse arcabouço institucional não passou de enganação. Nem o Clube dos Prefeitos, então chamado por todos de Consórcio de Prefeitos, se salva. Juntamente com a Agência de Desenvolvimento Econômico que veio na sequência, o Clube dos Prefeitos se tornou inapetente às respostas econômicas de que precisamos. A Câmara Regional sucumbiu no meio do caminho sem deixar vazio algum porque na prática não existiu. Os indicadores econômicos, como o PIB (Produto Interno Bruto) e o Potencial de Consumo, resumem essa ópera-bufa. Já o Fórum da Cidadania morreu de morte morrida e sobrevive apenas na formalidade documental sem expressividade prática.

Texto de julho de 2000 -- Enfim, cantado em prosa e verso como fino referencial de cidadania e politização, imagem construída de forma enviesada por causa do movimento sindical liderado por Lula e cujos rescaldos confundiram corporativismo e partidarismo com sentimento de regionalidade e coletivismo, o Grande ABC descobriu-se há pouco mais de cinco anos submerso em grau de esfacelamento institucional semelhante ao de qualquer outra região do País igualmente à espera de soluções do Estado em suas três esferas — municipal, estadual e federal. Trata-se de deformação típica de país colonizado que não consegue se desgarrar do passado histórico de dependência do Estado provedor cada vez mais debilitado.

Meus comentários – Nem a chegada do PT ao governo federal, a partir de 2003, deu novo fôlego à Província da região, apesar do aquecimento da indústria automotiva movida a financiamentos a perder de vista. Pior que isso: a partidarização regional do PT, que passou a embalar os planos de gigantismo eleitoral do prefeito Luiz Marinho, de São Bernardo, entornou de vez o caldo de regionalidade. Trocou-se a integração entre os municípios, já sem vitalidade, pelo quase absolutismo político-partidário, a dividir ainda mais a geografia regional em municípios estanques na economia, embora ambiciosamente complementares às pretensões eleitorais.

Texto de julho de 2000 -- A vantagem do Interior paulista em relação ao Grande ABC está na possibilidade de aprender com erros alheios. Poderá ser fatal para cada uma das macrorregiões do Estado incorrer nas mesmas falhas estratégicas do Grande ABC. Na realidade, desprezar os solavancos do Grande ABC será imperdoável numa quadra da história em que a informação é o bem mais importante das relações entre pessoas e entre empresas. Repetir os equívocos dos sete municípios que formam territorialmente um megamunicípio de 2,3 milhões de habitantes, tanta é a profundidade da conurbação de seus limites geográficos, caracterizaria avançado estágio de alheamento das lideranças responsáveis pela condução dos negócios privados, da gestão pública e do fortalecimento da comunidade. As cabeças pensantes do segundo mercado consumidor mais poderoso do País certamente não permitirão que se repitam velhos erros de uma área que responde por quase 50% da riqueza do Estado mais dinâmico da Federação — a Região Metropolitana de São Paulo.

Meus comentários – Os desvios proporcionados pelas chamadas lideranças da região nos últimos 16 anos se somam às barbeiragens do passado retratadas no texto de 2000 como novo alerta aos interioranos que não pretendem repetir as agruras de uma região outrora símbolo de prosperidade.

Texto de julho de 2000 -- Por isso, quem não quiser correr atrás do prejuízo deve espelhar ações no Grande ABC do presente e estudar detidamente o Grande ABC do passado. O melhor conselho para não incorrer nas falhas do Grande ABC do passado é exorcizar o que paradoxalmente é também interpretado como a própria razão do desenvolvimentismo da região — a estruturação econômica respaldada por uma atividade de ponta, no caso o setor automobilístico e as empresas satélites.

Meus comentários – Ficar de olho na Província do Grande ABC do passado anterior a 2000 e abominar o que veio após aquela marca do tempo são as melhores medidas sugeridas às comunidades interioranas para não pisarem no tomate de degringolada semelhante.

Texto de julho de 2000 -- A hegemonia industrial das montadoras de veículos é um deslize do qual não se deram conta administradores públicos que se revezaram nos postos-chave das prefeituras da região nas últimas cinco décadas. A matriz automobilística de produção tornou o Grande ABC refém da ascensão e da queda cíclicas da atividade, vista pelo governo federal muito mais como inesgotável filão de tributos do que como veia de desenvolvimento sustentado. Uma das vacas-sagradas de receitas tributárias que tornam o Brasil campeão de impostos na América Latina, a indústria automotiva recebe do governo federal o sobrepeso de encargos que nem Estados Unidos, Europa e Ásia ousaram infligir. Veículos viraram fonte de auxílio ao financiamento da dívida pública. Poucas atividades produtivas são tão fortemente taxadas no Brasil: metade de um veículo corresponde a impostos. O consolo é que a situação já foi mais grave, embora continue onerando demais a competitividade do setor que recorre, entre outras estratégias, ao estrangulamento dos custos de produção, apertando fornecedores e trabalhadores.

Meus comentários – Depender fortemente da indústria automotiva é um grande erro regional. Há ações cíclicas de apoio à atividade, com redução de impostos e incentivos fiscais, mas tudo isso ficará cada vez mais no passado porque as condições fiscais do Estado brasileiro não permitem tanta generosidade. Por isso, o desenvolvimento regional pautado pelo incentivo ao consumo de veículos que lubrificou os cofres da região durante o período presidencial de Lula da Silva parece pouco provável. Quem sofre de qualquer modalidade da chamada Doença Holandesa está condenado a sobressaltos. As distorções de tratamento preferencial à cadeia automotiva, sobretudo às montadoras, penalizam os demais setores produtivos locais e corrompem critérios de meritocracia e competitividade.

Texto de julho de 2000 -- A farta visibilidade político-institucional das montadoras fez emergir um sindicalismo vigoroso, exigente e combativo. Ao mesmo tempo em que instalou relações mais modernas no chão de fábrica, onde trabalhadores deixaram de ser avaliados como custo operacional, o chamado Novo Sindicalismo provocou natural contrafluxo de investimentos devido à capacidade de espalhar conquistas para todos os setores industriais. Traduzindo: salários e benefícios sociais dos metalúrgicos foram automaticamente parametrizados por outras categorias. Não é preciso estender-se sobre os efeitos colaterais dessa conjunção. A realidade individual das empresas e também dos demais setores econômicos não poderia jamais ser coletivizada no tratamento sindical. Uma fabriqueta qualquer de autopeças cuja planilha de custos com trabalhadores era quatro ou cinco vezes proporcionalmente superior a de uma montadora ainda continua sendo submetida a acordos trabalhistas padronizados.

Meus comentários – O quadro se agravou na última década e meia porque o sindicalismo, agora aliado do governo federal petista, exagerou na dose de reivindicações, sobretudo no setor automotivo. Seus representantes tornaram-se agentes político-partidários em proporção muito maior do que nos anos 1990. As relações entre capital e trabalho nas fábricas tornaram-se mais insidiosas, embora discretas, por conta dos chamados comitês de fábricas. As pequenas indústrias sentiram novos golpes de custos, baixando ainda mais o poder de negociação com as empresas de maior porte.

Texto de julho de 2000 -- Uma das explicações para o mergulho de perdas do setor moveleiro de São Bernardo, que chegou a ser o mais importante do País, está na proximidade física com as montadoras de veículos. A evasão de artesãos para as linhas de produção das montadoras e o arranque salarial pela vizinhança com o chamado primo rico da industrialização, como sempre foi conhecida a atividade automobilística, ajudam a explicar a atrofia dos moveleiros.

Meus comentários – Esse é apenas um dos subprodutos socioeconômicos do predomínio de uma atividade industrial numa área geográfica específica. Daí a expressão “Doença Holandesa” que adaptei à realidade histórica da Província do Grande ABC desde a chegada das montadoras e autopeças.

Texto de julho de 2000 -- Quando a Região Metropolitana de São Paulo começou a invadir a linha da improdutividade sistêmica em consequência da exaustão viária, entre outros passivos estruturais detectados pelos investidores por meio de consultorias especializadas, e também quando a guerra fiscal passou a integrar o kit de sedução do Interior que incluía a certeza de que qualidade de vida não seria uma metáfora, alcançou-se o ponto de largada da descentralização produtiva. Se antes da chegada da globalização o Grande ABC já acumulava perdas econômicas por causa da gradual transferência de unidades industriais para outras regiões do Estado e também para Minas Gerais, o que se viu depois que o ex-presidente Fernando Collor resolveu abrir as porteiras do País foi uma disparada de negócios rumo a outros endereços. Nos últimos 25 anos Santo André perdeu dois terços da arrecadação do ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), que representava igualmente dois terços do orçamento anual. Outros municípios do Grande ABC foram atingidos, mesmo que em menor escala, pela redistribuição do ICMS. As cidades que aparentemente perderam menos, casos de São Bernardo e de Diadema, na verdade perderam muito porque no período analisado passaram a abrigar milhares de novos moradores, principalmente por causa do fluxo migratório. A redistribuição de ICMS por morador apresenta saldo cada vez menor em todo o Grande ABC.

Meus comentários – Lamentavelmente, a sangria segue adiante, com breves interrupções ditadas, no governo Lula da Silva, pela febre consumista automotiva. Seguimos ladeira abaixo nos indicadores econômicos. As prefeituras recebem cada vez menos recursos financeiros do Estado e da União porque geram cada vez menos riqueza em relação a outros territórios. Perdemos o viço. Envelhecemos precocemente. Entretanto, poucos ousam mirar o espelho da realidade. Preferem a imagem esmaecida de Narciso.

Texto de julho de 2000 -- Qualquer indicador tratado sem manipulação aponta perdas econômicas do Grande ABC. Não só de ICMS, mas também de consumo industrial de energia elétrica (menos 9,5% nos últimos 10 anos, sem considerar o crescimento do PIB no período) e de potencial de consumo (menos 21,5% nos últimos 10 anos). Há mandraquismos estatísticos que contra-argumentam em defesa de suposta estabilidade econômica do Grande ABC. Desfraldam números comparativos entre indústrias instaladas no início e no final da década. Alguns chegam a identificar universo mais robusto em 1999. Tudo não passa de prestidigitação explícita. Primeiro, houve queda em números absolutos. E mesmo que houvesse crescimento, tudo não teria passado dos efeitos da desverticalização de produção. Empresas que enxugaram estruturas e quadros funcionais passaram a recorrer a ex-empregados que montaram pequenos negócios. A Cofap já chegou a contar com mais de 13 mil trabalhadores na região, contra pouco mais de quatro mil atualmente. A Rhodia Química passou de cinco mil para menos de 300 agora. A base metalúrgica já somou 220 mil trabalhadores, reduzida à metade hoje, entre dezenas de outros exemplos que poderiam ser citados.

Meus comentários – Esses e outros casos se tornaram uma narrativa cansativa nos últimos 16 anos. São raríssimas as notícias positivas que ganham espaço na região, embora não faltem candidatos a instrumentalizá-las como regra, não exceção. Se nos anos 1990, devido à reestruturação industrial que abarcou inclusive centenas de deserções, houve aumento relativo no número de empresas por causa da miniaturização das unidades, neste novo século não há praticamente mais espaço para mágicas numéricas. Perde-se vitalidade industrial tanto em números absolutos quanto em números relativos.

Texto de julho de 2000 -- A dependência do setor automotivo é uma sobrecarga de preocupações para a sociedade do Grande ABC. Principalmente porque as montadoras de veículos e satélites resolveram procurar outros endereços em que a logística de produção e de distribuição e a estratégia de relacionamento com os funcionários não comprometem o distanciamento da Grande São Paulo, maior centro de consumo do País. Sem contar que a internacionalização dos negócios e o fim da espiral inflacionária, que durante mais de três décadas construíram mar de ineficiências no País, determinaram novos procedimentos de gestão. Investimentos tecnológicos em processos e produtos passaram a ser decisivos e proporcionalmente decepadores de mão-de-obra intensiva. A equação mais-investimentos-menos-emprego não foi de imediato percebida pela grandiloquência regional. Os incorrigíveis narcisistas preferiram enaltecer o fluxo de capital, que, contrariamente ao que ocorreu em grande parte do Interior paulista, não gera emprego. Enfim, subestimaram o outro lado da moeda — o desemprego — e desqualificaram a evidência de que o parque produtivo estava sucateado por anos e anos de reserva de mercado, sofrível sequela de um regime de capitalismo de Estado.

Meus comentários – O território da Província do Grande ABC está fora de qualquer iniciativa de investimento produtivo que, exceto em situação muito particular, tenha que passar pelo corredor polonês de competitividade sistêmica. Já se foi o tempo em que o discurso fácil da localização da Província na Região Metropolitana de São Paulo, avidamente consumista, quebrava o galho regional de convencimento. Há pelo menos 300 vetores complementares que são analisados por especialistas em localização ou recolocação de empreendimentos, os quais são desabonadores aos municípios da região.

Texto de julho de 2000 -- É evidente que chegaria o dia em que alguém teria de pagar pelo almoço da competitividade internacional e pelo jantar da estabilidade monetária. O problema é que por má fé ou desconhecimento macroeconômico preferiu-se tratar a conta a ser paga como bonificação. Uma idiotice sem tamanho que, só mais tarde, com o anúncio do quadro estatístico de desemprego -- desnecessário diante do cotidiano flagrantemente embrutecido pelo desgarramento desmedido dos índices de criminalidade e também pelo obituário empresarial cada vez mais ativo -- qualquer observador minimamente atento e sério constataria.

Meus comentários – As cadeias de produção que ditam as regras no mundo dos negócios internacionais estão deixando a Província do Grande ABC cada vez mais no acostamento.

Texto de julho de 2000 -- Fortemente mono-industrial em estrutura empregatícia, com consequente repercussão na massa salarial disponível para consumo, o Grande ABC fez da atividade automotiva corda bamba de malabarista ensandecido. Por isso, qualquer outra região do Estado que não queira sofrer de congestão social deve evitar o prevalecimento de uma determinada atividade. É algo parecido como uma empresa que tem um ou dois clientes ou fornecedores apenas. O risco é imenso.

Meus comentários – Fujam da Doença Holandesa não pela expulsão dos agentes econômicos que a representam, mas pela multiplicidade de atividades produtivas. A Província do Grande ABC não se apercebeu que essa bomba relógio lhe infligiria duros reveses.

Texto de julho de 2000 -- Outra lição que o Grande ABC enseja é a necessidade de planejamento macrorregional. O que se viu na história de industrialização e de forte migração foram ações individuais. Os sete municípios comportaram-se como remadores malucos de um mesmo barco. Cada um idealizava um horizonte e para lá arremetiam suas forças. As instituições extra Município formatadas nos últimos anos — Consórcio de Prefeitos, Câmara Regional e Fórum da Cidadania — são uma tentativa de corrigir a rota. A dificuldade encontrada é que a velocidade do barco não acompanha as ondas das transformações macroeconômicas.

Meus comentários – O barco foi a pique há muito tempo, embora ainda não faltem mensageiros desastrados a sugerir que a rota de recuperação está sendo rigorosamente seguida.

Texto de julho de 2000 -- A participação de empreendedores privados nas instâncias do Grande ABC ainda é rarefeita. Está distante do ideal. Prevalecem os representantes públicos e de entidades não governamentais. A melhor explicação é que o empreendedor do Grande ABC vive às voltas com tantas dificuldades no dia-a-dia dos negócios que não consegue achar espaço para engrossar as fileiras institucionais. Um péssimo negócio. Há cadáveres legislativos que precisam ser exumados porque se originam de período de fastio econômico, quando a região se dava ao luxo de maltratar investidores com restrições muitas vezes permeadas por ideologias hoje completamente fora de moda. Um exemplo: mais de 50% do território de 840 quilômetros quadrados do Grande ABC está submetido à Lei de Proteção dos Mananciais. A situação implicou em proibição ou extremas exigências ambientais à implantação ou ampliação de unidades industriais. Entretanto, a ocupação desordenada por hordas de excluídos chegou a contar com patrocínio de políticos ávidos por votos. O resultado é a dificuldade de identificar no cinturão de aberrações se o mais constrangedor é a pobreza dos moradores ou o desrespeito ao meio ambiente. Consumou-se através dos anos uma acintosa apropriação ocupacional da área. Vista do alto, a Represa Billings, responsável pelo abastecimento do Grande ABC e parte da Capital, é espécie de tanque aquático cercado de barracos que produzem o mais puro dos esgotos. Todo o desenrolar desses acontecimentos, que levaram anos a fio para se consumar, não teve qualquer acompanhamento de inquietação da comunidade. Os oportunistas de plantão — e estes não faltam em qualquer região — pintaram o sete ao sabor da voracidade financeira ou eleitoral.

Meus comentários – A situação não se apresenta igual a de uma década e meia atrás apenas porque se agravou.

Texto de julho de 2000 -- Monopólio industrial, indiferença dos administradores públicos, desinteresse da comunidade social pelas implicações sistêmicas provocadas pelas ações econômicas e alheamento dos empreendedores às nuances públicas e sociais formaram, resumidamente, o caldeirão de deficiências de um Grande ABC que, em contrapartida a todo esse conjunto de déficits organizacionais, mobiliza-se de forma pioneira para combater seus demônios. Os municípios do Interior paulista que tiverem um mínimo de juízo saberão agir a tempo de evitar que o filme do passado do Grande ABC se transforme em campeão de bilheteria.

Meus comentários – A degringolada regional, inclusive na mobilização de agentes públicos, privados e sociais como a morte de Celso Daniel dois anos depois, em 2002, sepultou de vez qualquer perspectiva de reação.

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