Entrevista Especial

Mercado imobiliário precisa de
ética e transparência, diz Cura

  DANIEL LIMA - 11/07/2016

Esta não é uma entrevista qualquer. É uma entrevista histórica. Finalmente um dirigente – e construtor de pequeno porte – decidiu dizer publicamente o que todos falam e comprovam intramuros: o mercado imobiliário da região (e do Brasil como um todo) precisa de mecanismos que valorizem a ética e a transparência tanto nas relações corporativas quanto com a sociedade.

Quem defende essas duas faces da mesma moeda de responsabilidade social é Silvio Cura, secretário-geral e um dos fundadores do Clube dos Pequenos Construtores de Santo André (oficialmente Associação dos Construtores e Incorporadores de Santo André). Ele contribuiu muito para a vitória do engenheiro Marcus Santaguita, eleito no final do ano passado presidente do Clube dos Construtores (Incorporadores, Imobiliárias e Administradoras) do Grande ABC, entidade que, entre tantas omissões até então, jamais se preocupou com a categoria de Santo André.

Nesta Entrevista Especial, revelamos as declarações de Silvio Cura que, provavelmente, ajudarão a produzir nova configuração do setor de construção civil da região. Silvio Cura é um ativista corporativo que representa oficialmente quase cinco centenas de empreendedores, dos quais 250 associados do setor em Santo André. O Clube dos Pequenos Construtores de Santo André é único no gênero e só está constituído e atua porque a legislação de uso e ocupação do solo assim permite. Mas só existe porque os dirigentes e associados reagiram às tentativas de inviabilização econômica e financeira recentemente pretendida em Santo André. Eles foram à luta contra medidas que os colocariam fora do jogo de construção civil que atende principalmente a classe média baixa com a construção dos chamados predinhos sem condomínio. Os pequenos construtores de Santo André dão um banho de competitividade no programa Minha Casa Minha Vida do governo federal.

Silvio Cura concedeu esta Entrevista Especial a CapitalSocial depois de ouvir vários dos demais dirigentes do Clube dos Pequenos Construtores. Eles sabem que estão colocando o dedo em muitas feridas da atividade na região.  Mas entendem que não poderiam fugir à responsabilidade. A sociedade precisa saber.

Silvio Cura faz críticas à gestão de um quarto de século do empresário Milton Bigucci à frente do Clube dos Construtores do Grande ABC, uma entidade que, até então, apesar do porte, perdia de goleada para a representatividade do Clube dos Pequenos entre outros motivos porque, afirma, não tinha representatividade.

Reproduzimos na íntegra a Entrevista Especial com Silvio Cura. Uma análise completa do que disse o dirigente do Clube dos Pequenos Construtores de Santo André será publicada até quarta-feira nesta revista digital. Não poderia perder a oportunidade de ouro para dar ênfase a uma série de verdades inconvenientes que marcam a trajetória do Clube dos Construtores do Grande ABC, somente agora em sintonia com alguns dos pressupostos de responsabilidade social que tanto defendemos.

Quem imaginou que o empresariado da construção civil ficaria eternamente em silêncio caiu do cavalo. Sempre é possível acreditar que alguém surja na multidão de silenciosos para dar um novo fôlego e um novo empurrão em busca de uma regionalidade que insiste em negar fogo. Silvio Cura é um dos maiores incentivadores da nova etapa do Clube dos Construtores do Grande ABC, mas se diz cauteloso. O passado da entidade recomenda muita atenção.

Como o senhor avalia a nova posição do Clube dos Construtores, que pretende criar um código de ética para o setor?

Silvio Cura – Maravilhoso, Vai ao encontro ao que conversamos em entrevista há quase um ano na TV Diário, quando o senhor nos sugeriu isso. Com credibilidade e seriedade conseguiremos moralizar e depurar a classe.

O senhor acredita que um Código de ética levado adiante com a nova diretoria do Clube dos Construtores seria mais respeitável em relação ao passado?

Silvio Cura – Claro que sim. Hoje a credibilidade da entidade está no auge com o presidente Marcus Santaguita.

O senhor acredita que esse Código de Ética deva contemplar medidas punitivas, sobretudo de exclusão do quadro diretivo ou de associado, de empresários do setor que não tiveram conduta ética e moral defendida pela entidade?

Silvio Cura -- Na minha opinião sim, para que haja depuração nos quadros da classe. Mas isso deve ser debatido pelas diretorias da entidade.

O senhor entende que, fosse outra a realidade diretiva do Clube dos Construtores do Grande ABC, alguns escândalos imobiliários na região, casos por exemplo do Barão de Mauá e do Residencial Ventura, deveriam mobilizar a diretoria para um posicionamento em defesa da moralidade e da ética?

Silvio Cura -- Acredito que o passado não se conserta, mas podemos aprender com ele, e a diretoria do Clube dos Construtores com certeza terá uma linha de conduta correta.

Se fosse possível citar a principal preocupação dos construtores da região com a ética dos negócios, quais seria?

Silvio Cura – Temos um problema muito grande, causado pela crise no País, que são os distratos e devoluções de imóveis por compradores que perdem fonte de renda. Nesse momento precisamos ter cuidado. Estamos lidando com o fim de um sonho para os clientes que, antes de tudo, são pessoas. Precisamos ter muito sentimento de humanidade e ética para tentar minimizar o impacto emocional de quem se vê em situação econômica difícil.

O senhor entende que dirigentes de classe que lidam com um produto como o mercado imobiliário devem ter cuidados redobrados para não venderem a ilusão de valorização excessiva do produto quando o quadro macroeconômico já indica problemas a serem enfrentados?

Silvio Cura -- Sempre devemos ter em vista que é a compra de um sonho!  É muito melhor focar a publicidade no conforto, na qualidade de vida e beleza do empreendimento e não em lucratividade! Uma construtora da região, a Patriani, está fazendo um grande sucesso ao modificar esse conceito e “vendendo" conforto, qualidade de vida e beleza interna do imóvel, ao invés de promessa de lucro imobiliário. A grande maioria dos clientes compra imóvel para moradia, não como investimento.

Tivemos recentemente a comprovação de uma denúncia deste jornalista sobre o crime ambiental cometido no terreno que sediou durante 70 anos uma indústria química em Santo André, área sobre a qual se construíram 320 apartamentos de classe média alta. Finalmente o Ministério Público de Santo André apurou as irregularidades e denunciou os autores do crime ambiental. Não lhe parece que o Clube dos Construtores falhou ao não acompanhar o caso denunciado em 2010? Em situação eventualmente análoga que venha a ocorrer e levando-se em conta a proposta de criar um código de ética do setor, o Clube dos Construtores deverá intervir em nome da classe para não deixar dúvida quanto à importância da saúde pública?

Silvio Cura – O caso mostrou que as denúncias desta revista sempre devem ser levadas a sério. Afinal, o senhor foi enfático à época ao denunciar todas as manobras para ocultar a contaminação do solo. Eu, particularmente, defendo a tese da participação das entidades de classe como moderadores da categoria. Acredito que, acompanhando e apoiando a punição a contraventores e criminosos, cortando da própria carne, a credibilidade dos representantes de uma categoria se torna indelével e conquista o respeito do Poder Público e da sociedade. E nos casos de injustiças, devemos defender os associados com proporcional força e determinação, usando a credibilidade consolidada.

Recentemente o senhor lamentou que apenas Santo André tivesse dispositivos legais para produzir habitações verticais de pequeno porte, como é a característica do Clube dos Pequenos Construtores. Com a nova direção do Clube dos Construtores o senhor acredita que poderá ser ampliada a outros municípios da região essa característica que é chamada de democratização empreendedora?

Silvio Cura – Nossa meta é expandir a tipologia para toda a região. As habitações que se enquadram no programa Minha Casa Minha Vida na modalidade “financiamento", contam com recursos privados e apenas se utilizam da linha de financiamento do programa depois da obra concluída.  Somos viabilizadores do programa habitacional social sem o uso de verba pública. Auxiliamos o sonho da casa própria onde o braço curto do governo não alcança, mas essa luta de atingir outros municípios é jurídica. As leis devem ser modificadas para conseguir esse objetivo.

O Clube dos Pequenos Construtores chegou a ter oportunidade de apresentar ao ex-presidente do Clube dos Construtores algo que estendesse a legislação de Santo André a outros municípios da região?

Silvio Cura -- Infelizmente não. Havia isolamento completo. Caso fôssemos representados, não haveria necessidade de criar outra Associação, como a que criamos com amplo sucesso.

O senhor pretende, agora que está próximo do Clube dos Construtores, levar esse projeto adiante? Há incompatibilidade concorrencial entre pequenos, médios e grandes construtoras e o segmento que o senhor representa?

Silvio Cura -- Já ficou claro que não somos concorrentes. Trata-se de mercados diferentes, direcionados a públicos distintos. As tipologias não competem entre si. Quem procura um imóvel com todas as facilidades e conforto e pode pagar um condomínio não procura nossos imóveis, os quais atendem na verdade o público que procura um imóvel funcional e confortável internamente, e tem o benefício de pagar apenas as prestações sem ônus de um condomínio do qual não desfrutará do conforto até mesmo por falta de tempo.

O senhor é favorável a total transparência da relação de áreas públicas que possam ser colocadas à disposição do mercado em forma de leilões? Acredita que o novo Clube dos Construtores deverá se mobilizar diretivamente nesse sentido de forma a definir método de conduta que possibilite a participação dos associados interessados?

Silvio Cura – Não só acredito como luto contra a venda de áreas públicas em Santo André, justamente pela pouca transparência do processo e pela maneira extemporânea com que foi apresentado o projeto, em final de mandato. Embora seja contra a venda em qualquer circunstância, a associação deveria sim moderar a participação livre e democrática dos associados e lutar contra conchavos que denigram sua imagem.

Quando se trata de leilão de terreno público o senhor defende a tese de que o mais inteligente é não dar espaço a manobras do Poder Público?

Silvio Cura -- Luto energicamente contra esse tipo de “negócio”. Acredito que não se deva vender qualquer área pública. Afinal, não pertencem a uma gestão, partido ou prefeito, mas ao Município e a seu povo. Mais que isso: devem ser preservadas para a expansão dos serviços públicos. Existe uma modalidade de cessão por tempo determinado com outorga financeira e sem garantia de renovação do contrato. A área é cedida a uma organização, entidade ou empresa que paga pelo uso e ao final do período da cessão é julgada a viabilidade do uso da área pelo Poder Público. Com isso, pode-se renovar ou não o contrato, mas sempre com outorga financeira aos cofres da municipalidade e destinação de recursos financeiros à melhoria dos serviços públicos de saúde e educação. O Poder Público nunca deve fazer empréstimos filantrópicos de áreas a entidades que visam lucro.

O senhor acredita que o Clube dos Construtores do Grande ABC poderá incluir esse conceito no Código de Ética que está em fase de preparação?

Silvio Cura -- Não só acredito como incentivarei e apoiarei o presidente Marcus Santaguita, caso esse seja seu posicionamento. A Associação deve seguir esse caminho para que seja cada vez mais respeitada e representativa.

Se tivesse de classificar a saída de Milton Bigucci da presidência do Clube dos Construtores do Grande ABC o senhor diria que se tratou de uma troca diplomática que não poderia ser mais adiada por causa dos antecedentes de gestão do dirigente ou ele tomou a iniciativa por livre e espontânea vontade depois de supostamente, segundo a versão dele, ter se consagrado como uma grande liderança setorial após 25 anos de grandes serviços prestados? Tradução: havia clima à reestruturação do setor imobiliário da região com a continuidade de Milton Bigucci na presidência do Clube dos Construtores?

Silvio Cura -- Acredito sempre no processo democrático de renovação e no rodízio de poder. Não considero salutar uma presidência de mais de 25 anos. A reestruturação mostrava-se emergencial; porém a ausência completa de representatividade das entidades do setor imobiliário da região colocava na linha do horizonte algo que não se sustentaria, não fosse a intervenção do grupo em torno do empresário Marcus Santaguita. E a situação já está diferente. A gente sente uma atmosfera favorável. O próprio filho do ex-presidente, o Bigucci Júnior, parece mais entusiasmado, segundo aqueles que o conhecem há mais tempo do que eu.

Seis meses depois da posse da nova diretoria do Clube dos Construtores do Grande ABC, mudança da qual o senhor participou ativamente, já é possível definir diferenciais que sinalizem novos tempos?

Silvio Cura – Sinto maior participação dos associados. O engajamento do presidente Marcus Santaguita e da diretoria busca programar palestras e cursos interessantes que atraem cada vez mais associados. Hoje, todos se sentem membros de algo maior. Participei do processo de mudanças justamente para cobrar essas atitudes da entidade.

A categoria de pequenos construtores que o senhor representa contou em algum momento com o apoio do Clube dos Construtores do Grande ABC antes da constituição de nova diretoria?

Silvio Cura – Infelizmente não.  Tivemos um jogo de xadrez que durou mais de 18 meses contra o Poder Público Municipal de Santo André em defesa de nossa categoria e ficamos isolados.  Em algumas ocasiões esse jogo de xadrez mais pareceu uma batalha campal. Não tivemos apoio de qualquer entidade da construção civil, embora lutássemos por todo o segmento.

A sua empresa e as demais de pequeno porte se sentiam representadas pelo Clube dos Construtores nas tratativas com os poderes públicos sobre o uso e ocupação do solo, entre outras questões?

Silvio Cura – De forma alguma.  Nós, do "Clube dos Pequenos”, tivemos que enfrentar o Poder Público sozinhos, embora defendêssemos toda a categoria. Graças a nossa luta conquistamos também cadeira no CMPU (Conselho Municipal de Politicas Urbanas), de onde podemos defender os interesses de toda a cadeia produtiva da construção civil.

O Clube dos Construtores do Grande ABC tem representação oficial nesse organismo municipal, já teve ou jamais teve?

Silvio Cura -- Não tem, nem teve, pois as entidades que formam o CMPU devem obrigatoriamente ter sede no município.

E hoje, em que estágio está o relacionamento entre esse enorme contingente de empreendedores da construção civil de Santo André e o Clube dos Construtores?

Silvio Cura – Estamos nos conhecendo. Demos um voto de confiança ao presidente Marcus Santaguita. Trabalhamos pelo bem da categoria e oferecemos participação ao Clube dos Construtores. No futuro poderemos de fato representar a entidade em Santo André.

Qual sua relação hoje com o Clube dos Construtores?

Silvio Cura – Participo ativamente das reuniões e procuro colaborar ao máximo levando essa experiência conquistada na batalha da LUOPS (Lei de Uso, Ocupação e Parcelamento do Solo). Aliás, essa batalha ainda não terminou, porque a legislação ainda não foi aprovada pela Câmara de Vereadores. Mas, o texto final foi elaborado com nossa participação.

O que o senhor fez efetivamente para contribuir com a vitória da nova diretoria do Clube dos Construtores?

Silvio Cura – Apoiei a nova diretoria incondicionalmente. Busquei apoio e prometi colaboração total para o sucesso da entidade, inclusive com o compromisso cumprido de filiação como associado comum, dando um voto de confiança ao presidente Marcus Santaguita. Também me comprometi a defender a entidade no CMPU de Santo André.

O senhor tinha pessoalmente ou corporativamente alguma relação com os dirigentes do Clube dos Construtores sob a presidência de Milton Bigucci? Chegou a participar de alguma reunião ou evento da entidade antes da chegada dos novos dirigentes?

Silvio Cura -- Participei sim de um evento chamado "Construindo o Grande ABC”, em 2014, mas não me senti parte daquele grupo, apesar de ser do segmento. Por isso me retirei bem antes do final.

Há outros dirigentes do Clube dos Pequenos Construtores que também estão se aproximando do Clube dos Construtores?

Silvio Cura -- Até esse momento somos dois diretores filiados ao Clube dos Construtores. Como disse, estamos nos conhecendo.

Por que um número tão restrito se as perspectivas melhoraram acentuadamente?

Silvio Cura -- Os membros e associados de nossa entidade estão muito cuidadosos com quaisquer tratativas com outras entidades e mesmo com o Poder Público. Afinal, por pouco não fomos extintos como classe e não tivemos apoio algum. Agora olhamos com desconfiança qualquer mão que se estende.

A associação de pequenos construtores da qual o senhor é representante se sentiu ofendida por ter sido chamada em várias edições por esta revista digital de Clube dos Pequenos Construtores de Santo André?

Silvio Cura – Jamais. Muito pelo contrário. Sentimo-nos honrados por ser assim denominados. Tanto que adotamos extraoficialmente o nome.

O senhor entende que denominações como Clube dos Construtores, Clube dos Prefeitos, Clube das Montadoras, Clube dos Comerciantes ou assemelhadas significam lesões morais e éticas às instituições ou se trata de um tratamento jornalístico que facilita o entendimento dos leitores?

Silvio Cura – Não acredito que ofenda a moral de qualquer categoria. Muito pelo contrário. Afinal, qualquer “associação” ou agrupamento de entidades pode ser considerado um clube, sem demérito algum.

O quadro associativo do Clube dos Construtores vem contando com novos integrantes. Houve, segundo o presidente Marcus Santaguita, um salto mais que duplo. Sinceramente, o senhor acha que um quadro associativo de não mais que 30 estabelecimentos, como num passado ainda recente, emprestava representatividade ao setor? Quantos associados tem o Clube dos Pequenos Construtores?

Silvio Cura -- Na gestão do presidente Marcus Santaguita a participação cresce a olhos vistos. A cada reunião são mais e mais participantes. Uma associação só é respeitada quando tem participação maciça da categoria que representa. Nosso Clube dos Pequenos Construtores conta hoje com mais de 250 associados atuantes e participativos porque sentem a representatividade de nossa Associação.

Sempre contestamos as estatísticas anunciados pelo Clube dos Construtores Imobiliários durante a gestão de Milton Bigucci por entender que não reunia metodologia e transparência. Trata-se, na nossa interpretação, de falseamento contínuo do mercado imobiliário. Como o senhor avaliaria a possibilidade de uma empresa sem qualquer ligação com a entidade produzir esses dados, aposentando-se, pois a estrutura herdada pelo atual presidente, de utilização de funcionários da própria instituição, negando-se, inclusive, participar do pool que atende ao Secovi e praticamente todas as entidades do gênero no Estado de São Paulo?

Silvio Cura – Um avanço enorme na transparência e credibilidade da entidade. O mercado imobiliário está nas obras, imobiliárias, plantões de vendas e nas mídias eletrônicas, não em salões de reunião e convenções. Portanto, os dados devem ser os mais realistas possíveis para que o setor se direcione corretamente. Uma entidade de classe que produz dados incorretos conduz seus filiados ao abismo.

Leia mais matérias desta seção: