Caso Celso Daniel

Perdoa-lhes senhor, eles
não sabem o que fazem

  DANIEL LIMA - 28/09/2016

Sugeri na semana passada, informado de que Sérgio Gomes da Silva estava à beira da morte, abatido por um câncer hepático, que integrantes da força-tarefa do Ministério Público Estadual lhe enviassem algum documento com pedidos de desculpas por tornar vilão um inocente de uma história de remendos estapafúrdios.

Sérgio Gomes era “Sombra” para uns poucos que pretenderam estigmatizar e criminalizar o homem que acompanhava o então prefeito de Santo André na noite do sequestro na área dos Três Tombos, na Capital. Aquele 18 de janeiro de 2002 numa Região Metropolitana infestada de sequestradores mudou a trajetória do primeiro amigo de Celso Daniel. O futuro imaginado de assessor direto do reverenciado gestor que coordenaria o programa de governo do candidato Lula da Silva à presidência da República virou de ponta cabeça.

O petista que comandava a Prefeitura de Santo André pela terceira vez foi santificado a partir do momento em que seu corpo, em 20 de janeiro, foi encontrado numa estrada vicinal em Juquitiba, na Grande São Paulo. Sergio Gomes entrou para a galeria dos delinquentes pouco tempo depois. Um submundo do qual jamais se desvencilhou.   

Realidade desprezada

Não adiantaram as minuciosas investigações policiais que colocaram Sérgio Gomes da Silva como vítima do abalroamento da Pajero que dirigia após retornar de um jantar na Capital com Celso Daniel. Um jantar em que trataram do futuro próximo. Sequestradores fortemente armados levaram Celso Daniel depois de saraivada de balas. Relatos dos próprios sequestradores, presos poucos dias depois, asseguraram que Celso Daniel abrira a porta com a calma de sempre na tentativa de controlar a situação.  Logo os promotores criminais colocaram Sérgio Gomes como algoz do próprio amigo, atribuindo-lhe chutes e pontapés para expulsar Celso Daniel do veículo.

As muitas versões rocambolescas dos promotores criminais, marteladas durante quase quatro anos, transformaram Sérgio Gomes da Silva em culpado irreversível. Ele teria sido mandante do sequestro. Uma bobagem sem tamanho, conforme definiram policiais experientes. Sérgio Gomes da Silva jamais foi a julgamento formal, beneficiado por recurso no Supremo Tribunal Federal. Mas o julgamento informal da opinião pública perpetuou-se.

Quando recebi ao meio dia de ontem a informação de que Sérgio Gomes falecera por volta das 6h30 da manhã imaginei a repercussão na mídia. Ao iniciar este texto, por volta das 16h, as notícias já saltavam nos sites. Todas, invariavelmente, no mesmo tom incriminador de sempre.

A preguiça do jornalismo fastfoodiano destes tempos e os vieses denunciatórios pós-operação da força-tarefa do Ministério Público eternizarão uma barbaridade negada exaustivamente pelas investigações e também pelos desdobramentos das gestões do Partido dos Trabalhadores. A Administração de Celso Daniel não era o que tanto alardeara ao início das investigações o Ministério Público Estadual.

Destruição pessoal

Já escrevi muito sobre o caso Celso Daniel, mas ainda tenho muito a escrever nos próximos tempos. Hoje me limitarei a alguns aspectos da vida de Sérgio Gomes. Um dos quais é a certeza de que se foi abatido duramente por uma doença, antes o fora com o estraçalhamento da imagem pessoal. Arrancaram-lhe o direito de uma vida normal, se fosse possível viver uma vida normal após a perda do amigo de tantas horas e situações.

Sérgio Gomes morreu aos poucos desde o assassinato de Celso Daniel. Virou pária social. O rosto público carrancudo de vilão de telenovela em contraste com a simpatia do mocinho Celso Daniel colocava-o compulsoriamente como homem mau da história. Prevaleceu a idiotice coletiva de desprezar a prisão de sete sequestradores, exaustivamente ouvidos por forças policiais. Mesmo pressionados, eles jamais incluíram Sérgio Gomes no enredo do crime de forma objetiva, não especulativa.

Não esqueço as declarações de um dos policiais federais que investigou o crime. Ele estava decepcionado. Por mais que tentasse, não encontrou um fio condutor que relacionasse o assassinado ao Paço Municipal. Ou um caminho inverso.

A criminalização pública de Sérgio Gomes da Silva obedeceu a um ritual ao qual nenhum candidato à santificação resistiria. Afinal, quando se calam as autoridades policiais e se dão ampla liberdade e incentivo às declarações de mão única de promotores criminais, não se deve esperar outro desfecho senão a massificação de inverdades, de meias verdades e de fantasias.

Transparência e cooperação

Não custa lembrar que, diferentemente da Operação Lava Jato, cuja força-tarefa é composto de promotores e procuradores de Justiça e delegados federais, o assassinato de Celso Daniel foi dividido nas investigações entre promotores e delegados, os quais sempre se mantiveram distantes entre si. O mal-estar causado pelas investigações paralelas do MP, sempre em colisão com as ações da Polícia Civil e da Polícia Federal, demarcou um terreno de hostilidades mútuas. Principalmente após os policiais ganharem liberdade para revelar todos os detalhes do caso. Mas aí a opinião pública já havia sido doutrinada à tese de crime politico-administrativo.

Portanto, a tática de retirar a morte do prefeito da bitola de crime comum, conforme constataram três investigações policiais diferentes, tornou-se um sucesso. Com a versão única e exclusiva dos promotores criminais na relação com a mídia, Sérgio Gomes virou o bode expiatório pretendido em gabinetes do governo do Estado.

Essa foi a resposta política à investida inicial do PT que, Celso Daniel ainda sequestrado, mobilizou-se no Paço Municipal de Santo André para responsabilizar a política de Segurança Pública do governo Geraldo Alckmin como amálgama da tragédia que se anunciava. O publicitário Washington Olivetto fora libertado poucos dias antes, após longo cativeiro.

De crime comum lastimado pelos grandes jornais brasileiros, que abriram editoriais para condenar as fragilidades das áreas de Segurança Pública, o assassinato de Celso Daniel ganhou as manchetes como assassinato de cunho politico-administrativo. Celso Daniel, o puro, fora abatido por ordem de Sérgio Gomes da Silva – eis o mantra totalitário que dominou o mercado da informação. A primeira versão das forças do Ministério Público Estadual caiu no ridículo muito antes do Mensalão mostrar uma das faces da gestão petista em redutos federais depois de vicejar nos municípios sob seu comando.

Celso Daniel -- afirmaram os promotores criminais -- fora assassinado porque teria se rebelado ao descobrir esquema de corrupção na Prefeitura de Santo André. Mais tarde, diante de evidências, reformulou-se o discurso supostamente explicativo: Celso Daniel tinha conhecimento do esquema de corrupção no setor de transportes públicos, mas tolerava em nome dos projetos do PT. Em seguida, nova reformulação, após a descoberta de que sacos de dinheiro decoravam o apartamento do então prefeito: Celso Daniel participava do esquema de corrupção, mas foi assassinado por descobrir desvios de recursos a bolsos particulares.

A cada remendo informativo do MP, mais os buracos investigativos apareciam. E mais a inocência de Sérgio Gomes da Silva se consolidava. Mas isso já não valia mais nada. Sérgio Gomes virou peça de descarte em qualquer ambiente social. Frequentar shopping seria uma loucura, quase um suicídio. Quem não partiria em sua direção se alguém gritasse que o assassino de Celso Daniel estava ali?

Talvez o único consolo que confortou Sérgio Gomes nos últimos tempos foi ter assistido de camarote a derrocada da tese da força-tarefa do MP de Santo André que o colocou como criminoso formulador do sequestro e morte do prefeito Celso Daniel.

Verdade demorada

Os fatos desbaratados pela Operação Lava Jato, essa sim uma força-tarefa que atua com transparência, o consagraram como vítima das apurações do MP em Santo André. Sem jamais ter aceitado dizer o que poderia dizer – até então, naquele 2002, a virgindade ética e moral do PT era um bem preciosíssimo – para acabar de vez com a patética junção de um caso (o assassinato) e outro (a corrupção na administração de Celso Daniel), a Lava Jato tratou de esclarecer tudo mais de uma década depois.

Os homens que comandaram a força-tarefa em Santo André ainda podem, nesta manhã de quarta-feira, amenizar os estragos que causaram a Sérgio Gomes da Silva. Antes que ele vire pó no Cemitério da Colina, em São Bernardo. Uma coroa de flores serviria como pedido de desculpas por tantos erros cometidos.

Quanto à opinião pública em geral, fragorosamente hostil à imagem de Sérgio Gomes da Silva, sobretudo nestes tempos de embates ideológicos que ultrapassam todos os limites de racionalidade, nada se pode fazer senão recorrer a uma frase bíblica: “Perdoa-lhes senhor, eles não sabem o que fazem”.

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