Política

Paulinho Serra já ganhou em
Santo André, mas fala demais

  DANIEL LIMA - 19/10/2016

Fui o primeiro jornalista da praça a ter a coragem, a visão ou qualquer coisa com o mesmo sentido, a prognosticar a vitória do ex-vereador e ex-secretário petista Paulinho Serra nas eleições desta temporada. E o fiz há mais de um ano, precisamente em 21 de setembro do ano passado, quando escrevi uma análise (cujos trechos principais reproduzo em seguida) sobre o que poderia ocorrer com o comportamento do eleitorado. 

Agora que a vitória é mais que certa, e por diferença abissal, nada melhor que dar uma sugestão ao tucano: fale menos, fale menos, prometa menos, prometa menos, porque o que está à espreita é uma senhora encrenca. E digo mais: se conseguir em quatro anos fugir da raia miúda de mediocridade dos antecessores, tirando uma lasquinha que seja do legado de Celso Daniel, estará bom demais.

Paulinho Serra precisa entender que a mecânica eleitoral que o coloca praticamente no Paço Municipal se deve muito mais às circunstâncias político-econômicas de uma Santo André há muito tempo desgovernada e de um País de recessão espantosa do que propriamente às eventuais qualidades que tenha a mostrar durante pelo menos quatro anos. 

Traduzindo: por enquanto, e tomara que esse “por enquanto” seja o mais breve possível a partir do início de seu mandato, o nível de credibilidade de seu projeto de governo está muito aquém da barragem de dúvidas do eleitorado. Os votos sucateados do primeiro turno em Santo André são a prova mais bem acabada disso. 

Construção de uma história 

Em suma, Paulinho Serra precisa construir uma história política que o colocaria alguns passos adiante dos antecessores que nadaram, nadaram e morreram na praia da insolvência administrativa entre outros motivos porque Santo André é um Município inviável como fonte de protagonismo econômico e social que se rivalize com o passado industrial. 

Escrevo a propósito da entrevista de Paulinho Serra ao jornal Repórter Diário, mais precisamente à versão televisiva daquela publicação. A entrevista foi reproduzida em forma impressa, o que acho ótimo porque permite leitura mais confortável, quando não intermitente. Tão intermitente que escrevo estas linhas quando nem um quarto das respostas de Paulinho Serra passou pelo meu crivo. O restante vou ler durante o dia. Tive uma manhã cheia de anormalidades que, por serem anormalidades, romperam a rotina do período matutino de minhas atividades profissionais. 

Mas, voltando ao que interessa, fiquei impressionado com as declarações iniciais do prefeito, sim, do prefeito Paulinho Serra. Alguém precisa lhe dar uns beliscões para que caia na realidade do que vai encontrar a partir de primeiro de janeiro do ano que vem. Se acham que estou a exagerar, leiam então a primeira resposta do tucano sobre a diferença que estabeleceria em relação ao ainda prefeito Carlos Grana. 

 A principal diferença é que a gente quer construir um modelo de gestão voltada para as pessoas, a cidade. A administração pública tem como principal característica melhorar a vida das pessoas. E o projeto atual infelizmente acabou sendo montado apenas para servir a um partido. Quando falamos do novo, para mudar o modelo de gestão é porque nós temos hoje, além da capacidade, da equipe e a vontade de fazer, temos a condição política de alterar todo modelo de gestão. O modelo que aparelhou a máquina, que desperdiça recurso público, modelo de administração inchada com muitos cargos políticos que não traz nenhuma contrapartida para ao cidadão. A capacidade de investimento da cidade está próxima de zero para não dizer que está negativa, então foi um modelo de gestão que faliu a cidade de Santo André. Temos que rever a despesa da cidade, enxugar gastos, acabar com o desperdício. Transparência, gestão, eficiência, nossa cidade passa a ter índices para o poder público cumprir. Pras pessoas voltarem a acreditar que o poder público e o serviço público podem sim ter qualidade e ao mesmo tempo a cidade voltar a plantar. Voltar a ter emprego e renda, arrecadar gerando emprego e renda para as famílias. Porque a família quando tem renda pode consumir, consumindo ela gera atividade econômica, que gera impostos e aumenta a arrecadação da cidade. Então é esse ciclo que precisamos retomar, e o início de tudo isso é a geração de emprego e renda que infelizmente o PT não se preocupou. Fechou o centro público de emprego e renda, temos 70 mil desempregados na cidade, 12 milhões no país, 70 mil apenas na cidade de Santo André. Então essa é a grande diferença do nosso modelo. A cidade voltará a ser das pessoas e não pertencer apenas a um projeto político. 

Separando as bolas 

Qualquer pessoa razoavelmente sensata vai separar as declarações do prefeito Paulinho Serra em dois pedaços distintos. O primeiro, saudável, de crítica à gestão de Carlos Grana -- embora com exageros. O segundo, bichado, de triunfalismo econômico. O modelo econômico de Santo André não é responsabilidade única do PT de agora nem do PT de antes. É o resultado de uma combinação de fatores locais, metropolitanos e nacionais. Como, aliás, é a situação da Província do Grande ABC como um todo. 

Não será Paulinho Serra ou qualquer outro prefeito da região, individualmente ou em conjunto, que reverterá o quadro sem muito, mas muito empenho, clarividência e determinação. 

Poderia discorrer longamente sobre o equívoco autofágico de Paulinho Serra arvorar-se salvador da pátria andreense. Ao vender a ideia de que será fácil recolocar Santo André economicamente debilitada nos trilhos, Paulinho Serra corre seríssimo risco de, como os antecessores, ser atropelado. E o será, certamente, caso não reveja os conceitos de facilidade que expôs ao jornal Repórter Diário. 

Como a eleição já está mais que ganha, não haveria necessidade de lançar-se tão entusiasticamente a uma projeção contaminada pela paixão dos votos que pretende somar.

Deixo para outro dia novas considerações sobre a entrevista de Paulinho Serra. Inclusive sobre a proposta de acrescentar ao organograma da Prefeitura de Santo André o cargo de Controlador-Geral que, pela exposição inicial do novo prefeito, estaria longe de alcançar os requisitos desejados por quem quer mesmo transparência na gestão pública. 

O artigo do ano passado 

Agora, reproduzimos os principais trechos do artigo que escrevi em 21 de setembro do ano passado sob o título “Paulinho Serra põe mais lenha na fogueira eleitoral em Santo André”. Àquela altura do campeonato, ninguém apostava no sucesso do tucano. Eu apostei. Só errei na definição do seu adversário no segundo turno. Acreditava que fosse Aidan Ravin. E só errei porque um fato novo se deu a atrapalhar a votação do ex-prefeito: a entrada do ex-vereador Ailton Lima na disputa e os mais de 14% de votos válidos, ocupando principalmente áreas geográficas potencialmente mais favoráveis a Aidan Ravin. 

Não fosse Ailton Lima, Carlos Grana, assim como Tarcísio Secoli em São Bernardo, não iria nem para o segundo turno. Uma obrigação formal que antecede a derrota iminente. Até o próprio prefeito Grana sabe disso.

Agora, portanto, vamos aos trechos do artigo de mais de um ano atrás como nova prova de que esta revista digital está muito adiante da mídia regional preocupadíssima apenas com a tentativa de expor o momento. É o futuro que nos move. 

 O agora de novo tucano Paulinho Serra aquece motores logísticos para chegar ao Paço Municipal de Santo André. Paulinho Serra não tem currículo que o faça engatar uma quinta marcha rumo ao gabinete ocupado pelo petista Carlos Grana. Quase nada em sua atividade pública de vereador e secretário de mobilidade urbana recomenda o destaque que supostamente teria na corrida eleitoral. Mas Paulinho Serra pode virar o grande favorito da competição, agora com o suporte do governador Geraldo Alckmin. O peso de seus vácuos é menor que o potencial dos passivos dos adversários. Paulinho Serra coloca mais lenha na fogueira de dúvidas eleitorais em Santo André. Tudo indica que Paulinho Serra entrará na disputa para valer com três adversários densos de votos: o desgastadíssimo prefeito Carlos Grana, o ameaçadíssimo ex-prefeito Aidan Ravin e o gelatinoso advogado Raimundo Salles. Só a adjetivação que reservei a cada um dos concorrentes explica a possibilidade de Paulinho Serra chegar à vitória em outubro do ano que vem. Imaginem então se sua biografia política fosse indicativo de que projetaria, sem risco, uma Santo André maltratada em uma Santo André recuperável. 

Carlos Grana está desgastadíssimo por conta dos efeitos do Petrolão e de todas as lambanças do PT em nível federal. (...) Por fatores internos, de gestão municipal propriamente dita, Carlos Grana não fica nada a dever aos antecessores -- depois de Celso Daniel, é claro. Santo André dispõe cada vez mais de escassas possibilidades de governança e governabilidade. Há infiltrações de todos os tipos no mundo político e o dinheiro escasseia num orçamento abatidíssimo ao longo dos anos pelo enfraquecimento industrial. (...) Aidan Ravin talvez ainda não se tenha dado conta de que seu capital político perdeu a viscosidade dos primeiros tempos de prefeito de Santo André. Exatamente à medida que acreditou que um bom trabalho em uma ou duas secretarias seria suficiente para salvar a pátria municipal. Encerrou a gestão de forma patética e acabou encabeçando a Máfia do Semasa, delatada pelo advogado Calixto Antônio Júnior, o qual escalou àquela autarquia para um refinado esquema de pilantragens denunciado pelo Ministério Público apenas pela metade. O promotor criminal Roberto Wider Filho perdeu a mão e deixou os bandidos engravatados do lado de fora dos rigores da lei. Raimundo Salles pulou de galho em galho de agremiações políticas, inclusive como secretário de Cultura da gestão de Carlos Grana, a ponto de não despertar confiança do eleitorado. (...) Paulinho Serra se diz seguidor de Celso Daniel, mas já parece ter passado da hora de justificar o discurso. Seguidor de verdade dá provas de que aprendeu com o suposto mestre. Não é o que tem ocorrido nos anos em que Paulinho Serra meteu-se no jogo político. Há vácuo imenso entre o discurso e a prática. Entretanto, como é jovem, é provável que o eleitorado majoritariamente alheio às suas atividades -- porque seu nicho concentra-se no centro expandido de classe média -- o veja como novidade que não é mas nem por isso pode deixar de ser, caso resolva surpreender. A corrida eleitoral em Santo André é um enorme ponto de interrogação para quem está suficientemente informado e não tem rabo preso com nenhum dos candidatos. Tudo pode acontecer, mas o pouco provável, nestas alturas do campeonato, é que Carlos Grana, apesar da empatia popular, cruze a reta final. Há objeção cáustica ao petismo que dificilmente se diluirá até outubro do ano que vem. (...) 

Faltando mais de um ano às eleições municipais em Santo André, diria provisoriamente que Paulinho Serra tem menos votos que todos os demais individualmente, mas que numa projeção que leve em conta aspectos macropolíticos e micropolíticos, reúne maior probabilidade de chegar em primeiro lugar. Mesmo sendo um concorrente aquém do que se espera à recuperação de uma Santo André praticamente insolúvel porque a roda da história girou e a Província não se deu conta de que passou a comer poeira.

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