Política

Quem ganhou o debate? Alex
Morando ou Orlando Manente?

  DANIEL LIMA - 21/10/2016

Não, não me enganei nos nomes e nos sobrenomes dos dois finalistas eleitorais em São Bernardo que, terça-feira, realizaram debate na Record News. O embaralhamento nominativo foi proposital, porque é essencialmente explicativo. Assisti à disputa no aparelho smartphone ao meio dia de ontem, enquanto pedalava fortemente a bicicleta ergométrica. A ideia de Alex Morando e Orlando Manente é coisa de maluco, mas vocês vão entender. Respondendo ao título, numa análise crítica minuciosa, que envolve conteúdo e aparência, deu Morando. Quando só a aparência entra em campo, deu empate.

Normalmente assisto a algum programa gravado. Geralmente o Jornal da Globo da noite anterior, porque durmo cedo, ou alguma das muitas opções da Globonews. Não perco um Manhattan Connection e um Globo News Painel, entre outros. Só acompanho noticiário ao vivo, enquanto pedalo, se houver alguma coisa pegando fogo na Operação Lava Jato. De vez em quando acompanho o Globo Esporte. Pedalo sempre entre meio dia e meia e uma e meia.

Fiz todo esse trololó para dizer que o título aí em cima responde à própria indagação num dos muitos sentidos em que um confronto político de ideias deve ser observado. Orlando Morando e Alex Manente são muito parecidos como produtos televisivos porque também o são como embalagens de produtos eleitorais.

Os dois finalistas só se diferenciam quando a força do olhar e da audição é deslocada levemente e cede espaço à força do conjunto cognitivo, no qual o enfileiramento de vetores acaba por dar formato interpretativo mais amplo.

Morando melhor

Nesse caso, de abordagem mais estrutural do que pontual, Orlando Morando pareceu melhor. Mas acredito que poucos se deram conta disso. Política levada à telinha em forma de confrontos verbais é muito mais emocional do que rigorosamente avaliativa. Ou seja: Morando foi melhor que Manente ante-exposições minuciosa, mas poucos mensuram sob esse ponto de vista.

Debate tête-à-tête é sempre melhor do que um ajuntamento de todos os candidatos, como se dá nos primeiros turnos. Mas mesmo assim não é o ideal para se tomar o pulso do que se espera quando um dos dois contendores assumir o cargo em disputa.

No caso de Manente e de Morando, o que tivemos foi um confronto de temática essencialmente municipalizada. Somente sub-repticiamente Orlando Morando e Alex Manente federalizaram as estocadas. Morando insistiu idiossincraticamente no abraço fraterno entre Manente e os petistas. Um senhor cruzado de esquerda. Manente reagiu ironicamente com um cruzado de direita menos potente ao lembrar aos telespectadores que o PCdoB parceiro dos petistas alinhou-se ao grupo de partidos que estão a reforçar a corrida de Morando no segundo turno.

Tanto Morando quanto Manente já haviam utilizado essas armas nos jornais impressos e digitais. Entretanto, quando há exposição direta e reta, cara a cara, tudo pode acontecer. Eles assimilaram bem os golpes, até porque previsíveis. Resta saber qual é o entendimento dos leitores que desconheciam as duas situações. Não há dúvidas de que o impacto deletério de o PCdoB aliar-se a Morando é coceguinha perto do apoio petista a Manente.

Candidatos-espelhos

Orlando Morando e Alex Manente pareceram plasticamente espelhos refletidos.  São jovens, falam com relativa facilidade, expõem pontos de vista com clareza, não transpareceram irritação ou incômodo. Têm, portanto, agregado cênico e verbal que impressiona porque são de uma Província desprovida de grandes talentos políticos midiáticos.

Fui surpreendido por um Manente que raramente acentuou o “erre” caipira de tantas outras campanhas. Algum fonoaudiólogo deu um jeito bem dado à verbalização do candidato do PPS. Orlando Morando jamais teve esse problema que muitos consideram preconceito deste jornalista. Mal sabem que sou interiorano e adoro minhas raízes.

A diferença que me separa de Alex Manente é que até outro dia ele carregava um sotaque piracicabano. Em Guararapes e em Araçatuba, onde vivi até os 17 anos, não havia acentuadamente essa característica. Se havia, fui logo domesticado nesta Província. Aliás, já imaginaram se além de Província nossa população se comunicasse com a exuberância dos piracicabanos?

Voltando ao que interessa: Orlando Manente e Alex Morando foram praticamente réplicas um do outro aos olhos e ao senso de observação dos telespectadores comuns, sem compromisso com uma candidatura ou outra. Deixaram ótima impressão. Nem carregaram excessos críticos que em períodos eleitorais cheiram a demagogia. Foram em muitos momentos cortantes, isto sim. Irônicos também. Mas não abusaram do direito de tripudiar. Renegaram, portanto, a máxima de que disputa eleitoral e luta livre são as mesmas coisas.

Não vou entrar em detalhes sobre as exposições propriamente ditas dos dois concorrentes porque não estava preocupado com essa especificidade. Sei por experiência própria que programas dos candidatos não devem ser levados tão a sério. As restrições orçamentárias são a sepultura de planejamentos em gabinetes fechados. Quando a roda da gestão efetiva começa a girar e os pepinos do dia a dia acossam os mandatários, os projetos correm riscos de desaparecerem.

PT sai chamuscado

Quem perdeu mesmo no debate entre Alex Morando e Orlando Manente foram o PT e o prefeito Luiz Marinho. O alijamento do segundo turno tem esse preço sobressalente ao prefeito que não consegue levar o candidato escolhido à etapa eleitoral decisiva.

Os finalistas não perderiam jamais a oportunidade de malhar o Judas petista ao enfileirarem deficiências na infraestrutura social e física de São Bernardo. Orlando Morando foi quem mais bateu – ou quase que exclusivamente quem mais bateu – no PT em nível nacional e no PT em nível municipal.

Comprometido informalmente com os petistas, Manente esgrimiu com cuidado redobrado algumas intervenções críticas cujo efeito prático de desvinculá-lo do petismo não convenceu os leitores. Morando foi mais enfático porque sabe que o PT em qualquer instância eleitoral é a Geni da vez.

Então ficamos assim: vistos sob um ângulo restritivo, de plástica, de audição, de presença cênica, Orlando Manente e Alex Morando não obtiveram sucesso na tentativa de se diferenciarem a ponto de evitar que eu inventasse esse trocadalho do carilho para diagnosticar o resultado do embate televisivo.

Agora, quando a mente mais apurada perscruta o que chamaria de detalhes da disputa, não há como resistir à notória dificuldade de Alex ser Manente ante o incômodo petista que o assalta e do qual não pode se desvencilhar na tentativa de não tornar a emenda pior que o soneto. E de Orlando continuar Morando porque não seria o Partido Comunista do Brasil suficiente notório e influente para levar a maioria dos eleitores indecisos a uma tomada de decisão radical. O fardo do PT é mesmo muito maior.

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