Regionalidade

Morando precisa liderar a
reestruturação do Rodoanel

  DANIEL LIMA - 21/12/2016

Vai ser muito difícil, dificílimo até, consertar os estragos, mas é possível minimizar os prejuízos. Por isso, ninguém melhor do que o deputado estadual Orlando Morando para liderar o processo de reestruturação de conceitos do trecho sul do Rodoanel. A obra, cantada em prosa e verso como a salvação da lavoura logística da Província do Grande ABC, converteu-se em completo desastre. Mostramos isso ao longo dos tempos e reiteramos ontem, em nova análise. Orlando Morando não fugirá dessa luta. Nem pode. O custo seria imenso. 

Por que, afinal, Orlando Morando precisa liderar missão tão indigesta? Porque Orlando Morando e trecho sul do Rodoanel Mário Covas viraram sinônimos durante todo o planejamento e principalmente na execução desse traçado que privilegia economicamente a chamada Grande Osasco, formada por Osasco, Barueri e outros seis municípios colados à Capital como a Província do Grande ABC.

Orlando Morando será prefeito de São Bernardo e presidente do Clube dos Prefeitos a partir de janeiro próximo. O tucano poderá, de imediato, estabelecer funda diferença em relação ao passivo do antecessor, Luiz Marinho, que, em matéria de regionalidade, como se não fossem suficientes as barbeiragens municipais, se comprovou incompetente. 

Grau de aplicação 

Não sei até que ponto Orlando Morando vai ter vocação à regionalidade. Não é preciso que tenha o denodo e a complexidade elucidativa de conhecimento e de planejamento do insuperável Celso Daniel, mas deve e precisa fazer o suficiente como prefeito e como prefeito dos prefeitos para não cair na cova rasa de inutilidades dos antecessores. Quem não aprende com o passado não tem futuro. 

E o trecho sul do Rodoanel é um bom teste. Desse corredor viário o tucano tem amplo domínio de informações. Era chefe do grupo que se especializou em transporte na Assembleia Legislativa de São Paulo durante toda a fase de planejamento e construção do Rodoanel. Fez a parte que lhe competia. Mas a parte que lhe competia não era o todo de que a Província tanto carecia e carece. Outros agentes ficaram no vermelho. Vou explicar. 

O Rodoanel como um todo e o trecho sul do Rodoanel em particular foram concebidas por engenheiros de baixa suscetibilidade às implicações econômicas que qualquer obra de vulto precisa carregar em seu ventre. Não quer com isso generalizar, mas engenheiros em larga escala são bons no que fazem tecnicamente, mas não enxergam o todo. Por isso são engenheiros. Senão seriam engenômicos.

Os ambientalistas também intervieram, mas o fizeram de modo muito particular. Ou seja: cuidaram do que lhes interessavam em nome da sociedade. Ambientalistas também se chamam ambientalistas, não ambienômicos.

Benefícios alheios 

Faltou nessa equação toda quem entendesse do risco de desenvolvimento econômico. Se especialistas na arte de unir os pontos logísticos, ambientais e econômicos fossem consultados, valorizados e acatados dentro dos limites desejados, o trecho sul do Rodoanel não seria o que é – na maioria dos casos uma serpentina de asfalto que beneficiou tremendamente os usuários de veículos de passeio e, principalmente, a Baixada Santista no transporte pesado.

Chegar ao Porto de Santos ficou mais fácil, rápido e econômico. Tanto quanto trocar o território da região localidades que, no jogo de confrontos de custos e benefícios, oferecem muito mais rentabilidade aos negócios. 

Faltou também – e no caso da Província do Grande ABC esse é o ponto mais saliente – compromisso com o desenvolvimento econômico dos prefeitos que antecederam a implantação do traçado que tangencia a região. Exceto o petista Oswaldo Dias, então prefeito de Mauá. Ele, bem assessorado, interveio com base técnica e agregou um puxadinho do traçado em direção ao Bairro Sertãozinho. 

Trata-se de ampla área destinada à ocupação industrial e de serviços industriais, embora sob o controle de monopólio especulativo de proprietários. Não fosse esse ramal de intersecção com a Avenida Jacu-Pêssego, obra que veio mais tarde, Mauá estaria completamente isolada do potencial desenvolvimentista do traçado. 

Orlando Morando e os demais prefeitos que vão assumir mandatos neste primeiro de janeiro têm obrigação social de dar um tiro de largada no processo de redefinição do traçado do Rodoanel que abrange a região. Muitas coisas precisam ser feitas para que os prejuízos à competitividade regional não continuem a minar inclusive os cofres públicos, as estatísticas de empregos e tantos outros elementos direta e indiretamente relacionados à economia. Do jeito que está não pode ficar. 

O traçado sul é quase que integralmente fechado ao acesso regional. Há apenas três alças de intersecção, as quais estão condenadas à perda de tempo e de dinheiro. A logística interna dos municípios limítrofes é uma calamidade. Um convite à deserção. Faltou combinar com os russos do pragmatismo. Afinal, de que adiantaria um traçado quase que inteiramente selado, fechado, do trecho sul do Rodoanel, sem que houvesse internamente, na região, condições viárias de acesso igualmente rápidas, econômicas, produtivas. 

Chamem os empreendedores 

Quando voltar de alguns dias de férias (férias coisa algum, porque ler e escrever são meu divertimento preferido, além da novela das nove, do futebol, da música, do cinema, da literatura, da família e de minhas cachorras, claro) vou elencar alguns pontos que poderiam ser debatidos no Clube dos Prefeitos.

Vou fazer essa incursão de modo colaborativo, como tenho feito com tantas outras coisas. Observar, analisar, questionar, eis a definição de meu trabalho. Vou vasculhar tudo o que se refere ao Rodoanel para tentar dar mais colaboração aos administradores públicos. 

De imediato, imediatíssimo, sugeriria aos novos prefeitos que façam uma reunião com quem entende do riscado prático – os dirigentes e associados dos Ciesp (Centro das Indústrias) na Província do Grande ABC. Notadamente os empreendedores cujos negócios estão próximos ao traçado do Rodoanel. Eles têm muito a colaborar. Eles vão contar histórias de arrepiar. O que parece tão perto, no caso o acesso ao Rodoanel, de fato é uma odisseia diante dos embaraços de mobilidade urbana. 

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