Regionalidade

Tucanos completam serviço
petista e matam Celso Daniel

  DANIEL LIMA - 12/01/2017

Vão se completar sexta-feira da semana que vem 15 anos do assassinato do prefeito Celso Daniel por um bando de delinquentes mequetrefes numa metrópole paulistana desgovernada. Os novos prefeitos da Província do Grande ABC, para justificar o que fizeram nos últimos dias, quando assumiram os respectivos paços municipais, deveriam promover um evento para enterrar o corpo institucional deixado por Celso Daniel. Estou falando da Agência de Desenvolvimento Econômico e do Clube dos Prefeitos. Nos últimos 15 anos os prefeitos petistas e assemelhados construíram o buraco e agora os tucanos e assemelhados providenciam o enterro de Celso Daniel. 

Sou o jornalista que mais entende de regionalidade na Província. Dizer isso pode parecer cabotinismo, mais é preciso. Estamos num ambiente de ampla liberdade de comunicação e podem surgir leitores que não conheçam a história da região e, portanto, não confeririam supostamente o devido respeito a quem entende do riscado. 

Ninguém bateu tanto no Clube dos Prefeitos e na Agência de Desenvolvimento Econômico como este jornalista. Por razões mais que justas, como mostro nos links algumas entre as muitas centenas de artigos que escrevi ao longo dos tempos. Mas, daí a concordar com a consumação de uma obra que, se não é maquiavélica é incompetente, vai muita diferença. Que obra? O esquartejamento das duas instituições num momento em que o evangelho da regionalidade deveria ser ponto prioritário dos gestores municipais. 

Envenenamento duplo 

Os petistas perpetraram o massacre contra o corpo institucional de Celso Daniel quando, durante os oito anos da Administração Luiz Marinho, comandante em-chefe do partido na região, partidarizou e ideologizou a Agência e o Clube dos Prefeitos, transformando-os em redutos político-eleitorais. 

Agora entram em campo os tucanos liderados pelo também prefeito de São Bernardo, Orlando Morando, e desfecham tiros fatais contra o legado de Celso Daniel. Tudo diante de uma sociedade institucionalmente morta e de uma mídia cada vez mais provinciana. 

O desprezo dos tucanos ao Clube dos Prefeitos e à Agência de Desenvolvimento Econômico é tão claro quanto o oportunismo de gestões anteriores dos petistas e aliados. Vítima dessa dose dupla de envenenamento político, tanto a Agência quanto o Clube dos Prefeitos já estavam praticamente liquidados. Mas agora, com Morando e seus parceiros, caminhamos celeremente para a fragmentação irrecuperável.

Reduzir repasses obrigatórios das prefeituras ao Clube dos Prefeitos e cortar o financiamento de baixo valor à Agência de Desenvolvimento Econômico são medidas insensatas mesmo diante da situação de gravidade orçamentária deixada pelos antecessores. 

Regionalidade é a base

Os novos prefeitos da região ainda não entenderam e dificilmente entenderão que ao imporem medidas restritivas ao Clube dos Prefeitos e da Agência estarão cometendo haraquiri administrativo. A eutanásia preparada às duas instituições é uma iniciativa arbitrária e supostamente rigorosa com o dinheiro público, mas de fato aglutinadora de novos potenciais reveses. A derrocada regional em vários indicadores, entre os quais e inexoravelmente o PIB (Produto Interno Bruto), como estamos cansados de mostrar, é um alerta desconsiderado porque a reação exige conhecimento e determinação. 

Já desconfiava de que as ações do Clube dos Prefeitos caminharia à perplexidade de medidas conflitantes com o quadro econômico regional. A nomeação de um jovem político, Flávio Palácio, à direção executiva, foi a senha. Trocou-se um acadêmico contaminado pelo vírus partidário-ideológico, Luís Paulo Bresciani, por um politico cujo futuro pode até ser brilhante, mas de rarefeitos conhecimentos técnicos. 

Já a desculpa é esfarrapada para cortar as relações financeiras com a Agência de Desenvolvimento Econômico. Tudo teria sido oficialmente por conta de um caso de irregularidade protocolar e sem maior grau de gravidade e cuja resolução foi tomada havia muito tempo. Transmitiu-se a ideia de que os novos mandatários do Clube dos Prefeitos esperam que as decisões que emitem encontrem um bando de alienados do outro lado do campo de jogo da regionalidade. 

Já mataram Celso Daniel fisicamente. Também o violentaram moralmente. Atacaram sem dó nem piedade sem primeiro-amigo, Sérgio Gomes da Silva, até que a morte também o levasse. Agora o fazem institucionalmente. 

Os novos prefeitos da região, assim como seus antecessores, dificilmente compreenderão a grandeza doutrinária do regionalismo de Celso Daniel. Deveriam consumir os trabalhos acadêmicos e de gestor público que levaram aquele prefeito ao topo de um altar de grandeza que apenas ele mesmo se fez merecedor. Talvez seja por isso que os sucessores façam de tudo para eliminar vestígios que tanto os desafiam. 

Celso Daniel incomoda demais como o maior prefeito dos prefeitos da região todos aqueles que não contam com apetrechos intelectuais e de liderança para dar sequência à obra que deixou.

A reestruturação do Clube dos Prefeitos, inclusive com a absorção da área técnica representada pela Agência de Desenvolvimento Econômico, seria a plataforma de embarque reformista dos prefeitos tucanos e assemelhados que acabaram de chegar aos paços municipais. Tem-se como certo que dinamitar é a única alternativa.  

O modo desarticulado de anunciar as medidas restritivas ao funcionamento das duas instituições, como se não valessem um tostão furado, mais que despreparo em lidar com regionalidade demonstrou que no fundo, no fundo, os novos prefeitos não estão nem aí com o que deveria ser o centro de gravidade das políticas públicas locais. 

Radicalismos improdutivos 

Talvez esteja a faltar aos novos prefeitos da região um mínimo de organicidade no campo de marketing, o qual os petistas transformaram em pirotecnia. Contrapõe-se aos exageros e desvios petistas na região, na abordagem da temática relacionada à regionalidade, um modo rastaquera de lidar com o Clube dos Prefeitos e a Agência de Desenvolvimento Econômico. Saímos da extremidade de um forno elétrico que industrializava bobagens petistas e ingressamos num freezer de descaso e desinteresse. 

Os ingênuos ou incompetentes, quando não vassalos, alardeiam supostas saídas pontuais para alimentar a esperança de que a regionalidade poderia ser resgatada e a funcionalidade da economia local passaria a conta com luzes frenéticas. Bobagem, pura bobagem. 

A gestão compartilhada entre os prefeitos locais é insubstituível na busca por soluções integradas, sistêmicas, que realmente podem fazer a diferença na velocidade mais que desejável, indispensável, para o enfrentamento de uma concorrência cada vez mais profissional. 

A gestão dos tucanos e assemelhados na Província do Grande ABC está provisoriamente condenada ao fracasso quando mal se completou uma quinzena de novos comandantes municipais. 

Trabalho para competentes

Na próxima sexta-feira, aniversário da morte de Celso Daniel, tucanos e assemelhados que dominam as sete prefeituras locais poderiam se reunir tendo em vista duas perspectivas excludentes: pedem desculpas ao maior de todos os prefeitos (porque único) pelas travessuras já anunciadas ou deixam claro à sociedade que pretendem acabar com qualquer resquício de dois dos maiores legados daquele que não descansa em paz entre outras razões porque os mortais continuam perdidos.

Regionalidade dá mesmo muito trabalho, como tudo que deve ser bem feito. No campo jornalístico, por exemplo, é muito mais cômodo escrever sobre as mesquinharias políticas, os buracos de rua e outras quinquilharias do que mergulhar em avaliações sobre o andar da carruagem regional. 

Os novos prefeitos da região estão a lembrar os novatos do jornalismo que, incapazes de lidar com pautas que exijam escopo histórico e embasamento técnico, optam por temáticas fastfoodianas. Estamos ferrados.  

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