Regionalidade

Um desastre os nossos 15 anos
sem liderança de Celso Daniel

  DANIEL LIMA - 20/01/2017

Nem o mais pessimista dos pessimistas (me incluam fora dessa, porque sou mesmo é cético, o que é muito diferente) ousaria imaginar que a Província do Grande ABC virasse o que virou nos últimos 15 anos. Exatamente desde o assassinato de Celso Daniel por um bando de pés de chinelo que o Ministério Público falsificou como paus mandados de empresários e políticos dispostos a tudo para se livrarem do petista. Como o tempo provou, Celso Daniel não era o santo pintado pelo MP para transformar crime comum em crime administrativo. Mas não é sobre isso que escreveremos hoje. 

Hoje se completam uma década e meia desde a partida do maior prefeito dos prefeitos da região. Nesse período, o que era um resquício de “Grande ABC” se transformou em sólida “Província do Grande ABC”. 

Carregar o peso da exuberância de Celso Daniel não é nada fácil para os prefeitos da região que o sucederam e também aos que acabaram de ser eleitos. Celso Daniel era múltiplo. Somente pobres de espírito ou desprovidos de conhecimentos sistêmicos sobre o legado de Celso Daniel ousariam colocar o petista no mesmo saco de gatos da quase totalidade dos prefeitos que atuaram na região e contribuíram imensamente para o estágio atual de derretimento econômico e esqualidez social. 

Distanciamento crítico 

Tive o privilégio de conhecer Celso Daniel sem ser contaminado pela proximidade em demasia que sempre pode influenciar vereditos. Não era amigo de Celso Daniel como não sou amigo de verdade de nenhum agente público. Motivos para tanto não faltam, mas o mais específico é que jornalismo é uma atividade tão extenuante que é praticamente impossível dispor de tempo a cumplicidades pessoais com quem quer que seja. Esse é o preço que pagamos – ou o bônus de que podemos usufruir para produzir relatos mais próximos da realidade fática.

Minha relação com Celso Daniel sempre foi como jornalista. Conheci-o pelas obras. É claro que foram muitas as oportunidades em que trocamos ideias e até mesmo falamos tangencialmente do time de nossa preferência, assunto que puxava diante de um interlocutor de alguma forma surpreso com a sem-cerimônia.

Havia certa liberalidade entre nós. Sou um cara descontraído, brincalhão, até que o botão de controle comportamental é acionado quando me travisto de jornalista. Celso Daniel era o tempo todo fleumático, quase indevassável. Conseguia tirá-lo da sisudez natural até que entrasse em campo uma pauta voltada à sociedade. 

Nosso último encontro 

Meu último encontro com Celso Daniel foi casual, logo após a inauguração da sede da Justiça Federal em Santo André, na Avenida Pereira Barreto, em dezembro de 2001. Nosso encontro se deu quando caminhávamos em direção ao estacionamento de veículos. Ele estava acompanhado de um segurança, a quem dirigi uma sentença verdadeira e que retira qualquer avaliação de critérios pós-morte: “Esse é o maior prefeito da região”, disse alegremente, indicando um Celso Daniel todo sem-jeito. 

Para quem quer entender quem era Celso Daniel é indispensável pensar no petista fora de campo e também correndo para valer no gramado. Fora de campo era tímido, reflexivo, naturalmente discreto. Dentro de campo de jogo, coordenando equipes, respondendo a demandas da sociedade, formulando novos programas sociais, Celso Daniel era uma estrela de primeira grandeza. Inigualavelmente de primeira grandeza. Exercia liderança intelectual que superava os limites tradicionais de políticos enfáticos mas vazios. 

Quanto mais me aprofundo na obra do gerenciador público Celso Daniel mais tenho a convicção de que perdemos a última esperança dotada de capacidade técnica, embasamento teórico e magnitude humana para virar o jogo do rebaixamento contínuo do padrão de vida regional. 

Fico a imaginar o que teriam sido os 13 anos do governo petista federal se Celso Daniel não fosse eliminado justamente no ano em que Lula da Silva venceu, finalmente, a disputa rumo a Brasília. Uma disputa da qual Celso Daniel seria o cérebro na coordenação do programa de governo. Com Celso Daniel não teríamos perdido de goleada o jogo de representatividade efetiva no governo federal.

Contrastes demais 

O sindicalista Luiz Marinho foi o sucessor programado para substituir Celso Daniel na região, mas a proximidade com Lula da Silva, razão da preferência, se comprovou um desastre. Mesmo com Luiz Marinho a buscar reforços providenciais de graduados petistas que Celso Daniel descobriu e lançou na Prefeitura de Santo André, a gestão de oito anos na Prefeitura de São Bernardo se cristalizou como um coito interrompido na área social, quando os dinheiros de Brasília escassearam ao sabor do desastre dilmista, e um mar de promessas e lorotas na área econômica, com projetos megalomaníacos.

Não custa contextualizar os resultados inteiramente favoráveis a Celso Daniel em relação a Luiz Marinho, o que dá mais elasticidade à grandeza de um e as limitações do outro: Celso Daniel dirigiu Santo André e a região num período em que o PT estava alijado do jogo estadual e federal, como oposição ao governo paulista e a Fernando Henrique Cardoso. Luiz Marinho dirigiu São Bernardo durante largo período de domínio petista no governo federal.

Também sob ângulo econômico a distância é abissal, o que ressalta o contraste entre o intelectual e o trabalhador metalúrgico: no período de Celso Daniel como prefeito a região viveu uma das piores quadras da história, com desindustrialização acentuadíssima. Com Luiz Marinho de prefeito a região nadou de braçada, em largo período, com o consumismo lulista a multiplicar a produção de veículos.

Desmanche do legado 

O desmonte do legado regionalista de Celso Daniel consuma-se a cada nova temporada de prefeitos de plantão. E não será diferente, ou será acelerado, com os atuais. O Clube dos Prefeitos e a Agência de Desenvolvimento Econômico vão para a cucuia definitivamente ou de forma disfarçada, minimizada aos olhos públicos. 

A Agência já ganhou cartão vermelho do prefeito dos prefeitos de plantão, o tucano Orlando Morando. O Clube dos Prefeitos morre aos poucos de morte matada. Quando falta apetrechamento técnico e intelectual para dar continuidade a projetos herdados de antecessores, o melhor mesmo é descartá-los. Algo semelhante se dá no jornalismo: quando falta qualidade e conhecimento para dar conta de pautas relevantes, a saída é banalizar reportagens. 

Nesta data que obrigatoriamente nos leva a relembrar Celso Daniel o melhor mesmo a fazer é tentar nos enganar no sentido de que estamos vivendo um pesadelo com hora marcada para acabar, mesmo intimamente tendo certeza de que tudo só vai piorar porque as probabilidades são incontroláveis nesse sentido. 

Celso Daniel faz tanta falta como inspirador de políticas públicas e, principalmente, de iniciativas de cunho regionalista, que se tornou incômodo aos atuais mandachuvas e mandachuvinhas da região.

O fantasma do maior prefeito dos prefeitos da região (até porque único a se registrar na história) parece ter repercussões contraditórias. Ao invés de incrementar a inventividade e o empenho dos gestores públicos, os petrifica numa mesmice irritante.

Acima dos erros 

Existe uma certeza definidora de que Celso Daniel esteve o tempo todo muito acima dos contemporâneos com os quais supostamente dividia a cena administrativa da região e que segue num patamar muito mais elevado quando seu legado se tornou referência definidora aos que o sucederam. Trata-se do seguinte: mesmo cometendo erros administrativos e políticos, principalmente no primeiro mandato na Prefeitura de Santo André, não existe a menor possibilidade de reenquadrar a atuação de Celso Daniel às proximidades da bitola dos demais. 

Traduzindo: Celso Daniel esteve tão à frente do próprio tempo que nem os percalços circunstanciais o retirariam da grandeza de gestor público muito acima da média nacional. Uma pena que o Brasil – e a própria Província – conheça mais Celso Daniel como vítima de um assassinato tão brutal quanto manipulado por forças político-partidárias do que como gerenciador.

Celso Daniel antecipou um futuro que não chega jamais. Repassou aos demais prefeitos de então e aos que o sucederam um legado tão desbravador quanto incômodo a ponto de ganhar a forma de fardo a ser dinamitado.

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