Sociedade

Homicídios e sequestros
desabam pós-Celso Daniel

  DANIEL LIMA - 31/01/2017

Mata-se muito menos nestes tempos na Província do Grande ABC do que se matava em 2001, ano imediatamente anterior ao assassinato do então prefeito de Santo André, Celso Daniel. Também se mata muito menos nestes tempos no Estado de São Paulo do que no ano imediatamente anterior ao crime que retirou de cena o maior prefeito dos prefeitos da região. Mera coincidência? Bobagem. Pura consequência. Tanto quanto a quase eliminação dos casos de sequestros que, naquele começo de 2002, tornava a Região Metropolitana de São Paulo experimento vitorioso dos bandidos. 

Vamos explicar os dois fenômenos entre outras razões porque os apressados, os mal-intencionados, os radicais, os estúpidos, os ignorantes ou simplesmente os mal-informados não se dão conta da imperiosidade de contextualizar análise específica de temas relevantes. Quem descarta ou minimiza pontos importantes de uma narrativa exclusivamente por imperialismo argumentativo é ruim da cabeça. 

Vamos, então, aos números de assassinatos, portanto, para preparar o terreno às explicações. Desde a morte de Celso Daniel (período de 2002 a 2016) os homicídios desabaram na região. Tivemos em 2001 o total de 949 casos registrados, contra 180 na temporada passada. Uma queda de 81%. No Estado de São Paulo os casos caíram de 12.475 para 3.674 – redução de 70,55%. 

Se no campo econômico os governos tucanos estão longe de autoproclamarem redescobridores da força principalmente industrial do Estado mais importante da Federação (tanto é verdade que os paulistas perdem a cada ano participação relativa no bolo nacional de produção) na área criminal, sobretudo em homicídios e sequestros, os dados são consagradores. E tudo se deve à repercussão do assassinato do então prefeito de Santo André. 

Contando os salvamentos 

Num texto que publiquei nesta revista digital em 8 de fevereiro de 2011, fiz uma contagem de vidas poupadas desde o assassinato de Celso Daniel. Expliquei a metodologia aplicada. Cheguei à conclusão que o pós-Celso Daniel representou 49.401 assassinatos potenciais a menos no Estado de São Paulo, dos quais 5.093 na Província do Grande ABC. Se forem contabilizados os casos registrados nos anos seguintes, teremos perto de 80 mil vidas poupadas. Não tive tempo nem disposição para atualizar essa conta macabra. 

Sei que os leitores menos assíduos e menos conhecedores de minha fixação por fundamentar análises estão inquietos. Não falte quem duvide da premissa de que Celso Daniel está por trás de tudo isso. Que ele morreu mas deixou também um legado de reestruturação dos mecanismos de combate à criminalidade não só na região que o viu florescer politicamente como também no Estado de São Paulo que um dia, previa-se, haveria de governar. 

Naquela matéria de fevereiro de 2011 – como também em algumas outras – explico a origem da transformação do modo de agir do governo tucano no campo da criminalidade. Transporto alguns parágrafos daquele texto. Convém uma leitura atenta para que o ceticismo eventual e necessariamente esgrimido pelos leitores, porque não faltam falastrões e mentirosos na praça, ceda lugar à informação qualificada. Leiam: 

 (...) A Grande São Paulo era uma terra sem lei. Sequestros abundavam. O prestígio da cúpula da Segurança Pública do Estado escorria pelos ralos do descrédito. Viviam-se situações de tensão. Até que veio o assassinato de Celso Daniel, marco zero no restabelecimento da lei e da ordem não só na Grande São Paulo, mas em todo o Estado. Os índices de criminalidade foram reduzidos drasticamente. Ainda estão um pouco acima dos níveis internacionais de civilidade, mas houve avanços consideráveis. O governador Geraldo Alckmin é responsável pela ação desencadeada no dia seguinte ao sepultamento de Celso Daniel. A comoção nacional determinou mudança havia muito solicitada pela cúpula da Polícia Civil e da Polícia Militar do Estado. O PT não desperdiçou a oportunidade política e eleitoral ao partidarizar o assassinato de uma de suas maiores estrelas. Com isso, abriu uma vereda imensa ao contragolpe tucano de imputação do caso a possíveis propinas na administração municipal em Santo André. O resto da história todo mundo conhece. O que era um crime comum, virou crime de encomenda. (...) O secretário Marco Vinício Petrelluzzi, nomeado em fevereiro de 1999 pelo então governador Mario Covas, não agradava às forças policiais. As tropas estavam desaparelhadas, os soldos seguiam ritual ofensivo às responsabilidades funcionais e à qualidade de vida do efetivo, mas a contrapartida a eventuais excessos nos embates com facções criminosas era extremamente desestimulante. A demissão de Marco Vinício Petrelluzzi pelo governador Geraldo Alckmin, candidato à reeleição, foi apenas uma face da moeda da reviravolta da política de Segurança Pública do governado do Estado. Petrelluzzi foi substituído pelo implacável promotor público Saulo de Castro Abreu Filho. Adeus política de Direitos Humanos. É verdade que colaborou para a queda dos casos de homicídios e sequestros, entre outras iniciativas, o acordo entre facções criminosas e policiais civis e militares de preservação das cidadelas de tráfico de entorpecentes.

Repercussão e ação 

Quem imagina que um dia o governo tucano irá admitir que o assassinato de Celso Daniel foi o ponto de partida das grandes mudanças no ambiente criminal da Região Metropolitana de São Paulo e do Estado como um todo perderá a viagem. É impossível que um governo, qualquer governo, dê a mão à palmatória. Mas quem for intelectualmente honesto tem a obrigação moral de sempre lembrar o que era a criminalidade em território paulista antes e depois de Celso Daniel. 

A repercussão internacional do crime foi retumbante. Nas primeiras semanas o estrondo da mídia deveu-se exclusivamente à precariedade do sistema de segurança pública do Estado brasileiro. Em seguida, o crime foi instrumentalizado politicamente pelos tucanos para confundir a plateia e fazer prevalecer a bobagem de que o sequestro seguido de morte está ligadíssimo às algazarras petistas no Paço de Santo André. Fosse lógica a queima de arquivo, como se pretendeu fazer crer, o Mensalão e, principalmente, o Petrolão, promoveriam carnificinas. 

Mais contextualização 

Ainda no sentido de contextualizar o crime em São Paulo tendo como base de comparação o período em que Celso Daniel vivia ou acabara de ser assassinado e estes tempos, recupero trechos de uma matéria publicada pela Folha de S. Paulo em 11 de julho de 2002, seis meses, portanto, após o sepultamento do prefeito de Santo André. Leiam: 

 O número de sequestros no Estado de São Paulo no primeiro semestre de 2002 quase dobrou em relação ao mesmo período do ano passado. Foram 199 casos de janeiro a junho, contra 102 em 2001. Segundo a Folha apurou, as estatísticas da polícia mostram que existe uma pequena tendência de queda do número de casos no Estado, mas não o suficiente para inverter a curva ascendente. Para a polícia, essa redução significa sucesso no combate a esse tipo de crime. Para especialistas, no entanto, é muito cedo para comemorar porque os números continuam altos em relação ao ano passado. "Não é nada para se comemorar. Existe uma inclinação positiva, mas os números continuam muito elevados", afirmou o coronel da reserva José Vicente da Silva, pesquisador do Instituto Fernand Braudel. Para Silva, a "redução ideal" seria atingir, pelo menos, os patamares verificados nos mesmos períodos do ano passado. "Só assim poderá se verificar uma tendência definitiva de queda desse crime. Do contrário, pode ser apenas uma oscilação na [tendência de] alta, como acontece com o dólar, por exemplo", disse o pesquisador. A redução do número de sequestros foi uma das promessas do secretário da Segurança Publica, Saulo de Castro Abreu Filho, quando assumiu o cargo, em janeiro deste ano. Na ocasião, Abreu Filho prometeu diminuir essa taxa para dez casos por ano. Existem atualmente nove sequestros em andamento no Estado de São Paulo. Para o diretor do DEIC (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado) de São Paulo, Godofredo Bittencourt, a comparação do número de casos entre os primeiros semestres de 2001 e 2002 não explica a evolução desse tipo de crime. "A grande explosão do número de sequestros ocorreu no segundo semestre do ano passado", afirmou Bittencourt. Segundo o diretor do DEIC, a comparação tem de ser feita com os trimestres anteriores, que demonstram a pequena tendência de queda. "Houve uma reação da polícia, com a criação da divisão antissequestro, no final do ano passado", disse o delegado. Bittencourt contabilizou cerca de 230 sequestradores presos desde o começo do ano. "Os resultados são lentos. Leva tempo para montar uma estrutura e treinar homens para combater esse crime", afirmou o delegado – escreveu a Folha de S. Paulo.

Sequestros minguaram 

Para completar, retiro da edição de O Globo uma das últimas notícias sobre casos de sequestro em São Paulo. Leiam: 

 A Polícia Civil registrou 33 casos de sequestro em 2015 no Estado de São Paulo. Neste ano, apenas entre janeiro e junho, foram 14 casos, sendo a maior parte deles – oito casos - na capital paulista. Os dados são da Secretaria da Segurança Pública. No meio período do ano passado o número foi maior: 17 casos de sequestro. Os números não levam em consideração o caso mais notório do ano, ocorrido em julho: o sequestro de Aparecida Schunck Flosi Palmeira, de 67 anos, sogra do empresário Bernie Ecclestone, presidente da empresa que administra a Fórmula 1.

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