Regionalidade

Orlando Trump abre caminho
legal para desmontar Agência

  DANIEL LIMA - 06/02/2017

Possivelmente inspirado ou contaminado pelo ambiente macropolítico de nacionalismo retrógrado de Donald Trump, inefável novo presidente dos Estados Unidos, Orlando Morando, novo prefeito de São Bernardo, deu o pontapé inicial legal para desmontar o legado que Celso Daniel organizou a duras penas nos anos 1990. Já está no Legislativo de São Bernardo, sob controle do ex-deputado estadual, a lei que vai revogar a participação do Município na Agência de Desenvolvimento Econômico, destruída nos primeiros dias de janeiro quando Morando anunciou o corte de recursos financeiros dos sete municípios.

O municipalismo de meados do século passado de Orlando Morando tentará ser minimizado com a atuação dele à frente do Clube dos Prefeitos, entidade sobre a qual não se insinua nada que não seja a continuidade de respiração com aparelhos de improvisação e falta de especialistas a ditar os melhores caminhos à recuperação econômica da região.

A iniciativa de Orlando Morando junto ao Legislativo de São Bernardo para que se dê o pontapé inicial de tornar a Agência de Desenvolvimento Econômico um entulho a ser removido da institucionalidade regional coloca o tucano em situação delicada para as próximas temporadas entre aqueles que não admitem retrocesso institucional na região. Eliminar a Agência de Desenvolvimento Econômico é sepultar uma das ideias mais férteis de modernização da região deixada por Celso Daniel. Talvez Donald Trump não chegasse a tanto entre outros motivos porque São Bernardo é a Capital Econômica da região e como tal poderia exercer liderança mais ampla à frente daquela organização coletiva. 

Como será o amanhã?

É possível que Morando só esteja pensando no curto prazo ditado pelas dificuldades orçamentárias que o PT lhe deixou, as quais não servem jamais de justificativa. A mesada financeira dos municípios é irrisória perto do volume de arrecadação geral.  

Esquece Morando que em rápidos quatro anos terá pela frente possivelmente uma dupla que poderá torná-lo ex-prefeito de São Bernardo. O deputado federal Alex Manente e o ex-prefeito Luiz Marinho se deram as mãos em circunstâncias desfavoráveis nas últimas eleições, ante a demonização do PT e a contaminação que atingiu aliados formais e informais. 

Entretanto, daqui a quatro anos, muitas águas vão rolar sob a ponte de remelexos políticos e econômicos e tudo poderá ser diferente. Como as perspectivas macroeconômicas não são nada favoráveis às próximas temporadas, com crescimento baixíssimo do PIB Nacional (e provavelmente novos desfalques regionais), talvez esteja a faltar a Orlando Morando uma observação atenta ao quadro político-administrativo muito além do capô do veículo e mais apropriado à linha do horizonte -- como fazem os bons motoristas. 

Trumpismo inescapável 

A comparação com Donald Trump é tão proposital quanto providencial e provocativa. O objetivo é transmitir sem retoque os preceitos sobre territorialidade do primeiro e do segundo. Enquanto o presidente dos Estados Unidos está a infligir rompimentos com instituições internacionais, casos de ONU (Organização das Nações Unidas), Nafta (Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio), o TPP (Tratado Pan-Pacífico) e tantas outras, Orlando Morando avança no campo doméstico com o aniquilamento da Agência de Desenvolvimento Econômico. O contraponto ao aparelhamento petista da Agência e do Clube dos Prefeitos é o extermínio da primeira e um enorme ponto de interrogação sobre a segunda.  

Orlando Trump Morando descarta uma instituição deficitária em atendimento às prioridades econômicas regionais. O prefeito de São Bernardo mal completara 20 anos de idade quando foi erigido o arcabouço de regionalidade na Província do Grande ABC. Parece não se ter dado conta do que isso significa.  

Havia outras saídas a ditar mudanças sem perda de ganhos sistêmicos. A Agência poderia e deveria se tornar um braço técnico do Clube dos Prefeitos sem a necessidade de contar com identidade própria, embora o formato original, de personalidade jurídica independente do Clube dos Prefeitos, fosse uma ideia encaminhadora a soluções caso a instância dirigida exclusivamente pelos titulares dos paços municipais da região não fosse tão refratária à regionalidade e, principalmente, a ações coletivas entre os principais mandatários. Ou seja: na maioria dos casos o Clube dos Prefeitos foi de fato Clube do Prefeito de Plantão.

Uma voz dissidente 

Uma reunião do Clube dos Prefeitos programada para esta terça-feira, segundo publicou o jornal Repórter Diário, marcará oposição oficial de Joaquim Celso Freire Silva, presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico. Trata-se, salvo engano, de voz solitária dentro do conjunto de acovardamento generalizado dos dirigentes do Conselho Deliberativo. Estariam todos eles coniventes com a decisão liderada por Orlando Trump Morando. A chuvarada para desqualificar o legado de Celso Daniel consta de todos os boletins de meteorologia política conservadora, entendendo-se conservadora como algo obsoleto.

Dirigentes da iniciativa privada reúnem 51% da representação oficial da Agência. Como a inadimplência é uma rotina e os recursos repassados pelas prefeituras são a salvação da lavoura, tem-se como certo que se juntou a fome de municipalismo rastaquera de Orlando Morando com a vontade de comer da inapetência do setor privado em dar sustentação orçamentária à Agência. Com se já não fosse suficiente a baixa qualificação técnica. 

Quem vai acompanhar? 

Temos, com isso, uma combinação que só não é perversa porque é a crônica anunciada de uma região sem apetência para a gestão coletiva dos sete municípios. Não é a toa que, ao me referir a essa região – e isso faz bastante tempo – é inescapável o uso de “Província”. 

Resta saber quantos dos demais prefeitos vão seguir os travessos passos de Orlando Morando e vão determinar aos respectivos Legislativos o corte definitivo do cordão umbilical que dá suporte à Agência de Desenvolvimento Econômica. 

Há informações desencontradas sobre esse encaminhamento. Fala-se inclusive que não haveria unanimidade. Um dos dissidentes seria o também tucano José Auricchio Júnior, de São Caetano. Diz-se que ele não mantém laços sólidos com Orlando Morando. Cultivariam restrições mútuas. Mas também há versão de que, mesmo contrariado, Auricchio cederá à maioria. Ele não estaria disposto a enfrentar retaliações.

A indicação do ex-vereador e ex-candidato a prefeito em São Caetano, Fábio Palacio, para o comando técnico do Clube dos Prefeitos, teria sinalizado estremecimento entre Morando e Auricchio. Palacio foi candidato a prefeito nas eleições passadas em São Caetano para atingir a candidatura de José Auricchio e, com isso, colaborar para que Paulo Pinheiro continuasse no Palácio da Cerâmica. Quase conseguiu. 

Nova identidade 

Tenho certeza que Orlando Trump Morando não apreciará essa identidade que lhe confiro. Devo-lhe tranquilizar no sentido de que não a tornarei definitiva nestas páginas. É apenas circunstancial. Ditada pela afronta ao regionalismo. 

A desculpa esfarrapada de que aquela instituição seria dinamitada porque o Tribunal de Contas do Estado encontrou irregularidades durante a gestão do empresário Valter Moura, entre 2011 e 2012, não conta com respaldo de razoabilidade. Trata-se de despreparo circunstancial e contornável cometido pelo então e ainda presidente da Associação Comercial e Industrial de São Bernardo. Tanto que a Agência seguiu em frente nas temporadas seguintes. 

A desculpa é esfarrapadíssima. Orlando Morando Trump teria mais respeito de opositores à decisão que lidera se afirmasse o que cansei de assinar nestas páginas: a Agência e também o Clube dos Prefeitos são inutilidades, mas isso não significaria o fim tanto de uma como de outra. Espera-se completa reestruturação em moldes profissionais. 

As OABs, as Associações Comerciais e Industriais e tantas outras entidades de classe da região vivem semelhante e desprezível crise de representatividade, ou seja, de inutilidade latente, mas nem por isso devem ser desativadas. Precisam, isto sim, passar por pente fino de conceitos e práticas. 

Ironicamente, várias dessas instituições que não se sustentam de pé ante cobrança mais rigorosa de ações de desenvolvimento em prol da regionalidade, quando não dos próprios associados, constam do Conselho Deliberativo da Agência de Desenvolvimento Econômico e, como seus dirigentes estão em silêncio, caladíssimos, acredita-se que se alinharão a Orlando Trump Morando.  

A medida não seria surpreendente. Afinal, o descaso é total ao regionalismo porque regionalismo exige trabalho intenso, dedicação, competência. A maioria não conta com esses apetrechos porque atuam intramuros com imensas carências estruturais. 

No fundo, no fundo, o que temos como resumo da ópera da Agência de Desenvolvimento Econômico é que os novos inquilinos encontraram uma casa mal-assombrada mas, diante do desafio de a exorcizarem com plano exequível que a tornasse braço técnico do político Clube dos Prefeitos, preferiu-se correr em disparada, abandonando de vez uma missão que não admite descarte. 

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