Regionalidade

Morando entre “Noviça”
e “Nazistas”. O que dará?

  DANIEL LIMA - 08/02/2017

Depois de apenas um mês como prefeito dos prefeitos da Província do Grande ABC, título que se reserva ao prefeito do Clube dos Prefeitos, o tucano Orlando Morando, titular do Paço Municipal de São Bernardo, me conduz à projeção preliminar que o coloca entre “A Noviça Rebelde” e “As Nazistas Taradas”, filmes inesquecíveis a que assisti nas décadas de 1960 e 1970. Resta saber que tipo de lembrança ficará para sempre. “Noviça Rebelde”, ganhador de cinco “Oscar”, é o melhor filme de minha vida. “Nazistas” é seguramente o pior. Salvou-se exclusivamente pelo ambiente de Hong Kong. Tenho cá comigo, preliminarmente, que o caso de Morando no Clube dos Prefeitos encaixa-se mais à metáfora de “As Nazistas Taradas”. 

Orlando Morando está trocando os pés pelas mãos e isso é muito preocupante. Parece preocupar-se em jogar para a plateia ao anunciar supostas novidades e subestimar o encaminhamento de soluções sistêmicas, estruturadas, as quais beneficiariam inclusive os compulsórios sucessores no Clube dos Prefeitos. 

Ao anunciar como está anunciando de forma concreta que montará em Brasília o que o Diário do Grande ABC chama de “Casa do Grande ABC”, mas que prefiro rotular de “Casa da Província”, Orlando Morando vai despender recursos financeiros que poderiam ser utilizados de maneira mais proveitosa. Talvez Morando não saiba, mas a ideia de uma representação regional em Brasília é tão antiga tão antiga que ao ressuscitá-la sem o devido cuidado está cometendo as mesmas falhas de avaliação dos diretores de “As Nazistas Taradas”. 

Lobby é muito pouco 

Estar em Brasília apenas para fazer lobby em busca de emendinhas que dariam alguma ajuda orçamentária às prefeituras locais é muito pouco. Seremos uma espécie de pedinte de luxo com esse braço que romperia fisicamente o território regional. 

Ou quem sabe teremos uma extensão do lobby tucano regional para contrabalançar a ausência de um representante no Congresso Nacional, enquanto o deputado federal Alex Manente, adversário de Morando, está ali como ameaça à centralidade de captação de recursos financeiros que, por mais pífios que sejam, ainda surtem efeitos eleitorais porque a Imprensa os transforma em grandes conquistas.

Ao mesmo tempo em que gastará dinheiro que afirma não estar mais disponível à Agência de Desenvolvimento Econômico, Orlando Morando simplificará a agenda regional a tal ponto que torna pouco provável a contratação de especialistas em competitividade regional. Essa medida, tomada imediatamente, seria a prova de que o tucano faria uma gestão diferenciada no Clube dos Prefeitos.

Falta organização 

Ir à Brasília sem um conjunto de propostas e medidas pré-definidas para aplicação no curto, médio e longo prazos, é desperdício de dinheiro. É espécie de marketing do estilo João Doria. Não duvido, também, que o provincianismo regional será facilmente manipulado ao transformar eventuais atendimentos do governo federal em salvação da lavoura. 

Ou seja: a incursão no Planalto Central não é uma alternativa descabida, estúpida, gataborralheiresca. Muito pelo contrário. Entretanto, sem uma base sólida ditada pela racionalidade de estudos técnicos ganha foro de espetacularização da pauta regional. Tanto quanto a participação já definida e empossada de um representante do governo do Estado como convidado especial do Clube dos Prefeitos. Fórmula igualmente repetida. No passado assim se fez, inclusive com a intermediação do então secretário particular do governador Geraldo Alckmin, Fernando Leça, de ramificações pessoais e profissionais em São Bernardo. 

Apenas para não dar espaço a manipulações interpretativas na tentativa de apropriação indébita de determinadas ideias, não custa nada lembrar que na Reportagem de Capa da revista LivreMercado de dezembro de 2003, preparada por este jornalista, construímos uma agenda tão extensa quanto factível para tornar a Província do Grande ABC menos vulnerável aos sacolejos macroeconômicos, macropoliticos e macrossociais. “Uma agenda para iluminar a região” foi o título daquele trabalho jornalístico que, inclusive, consta do acervo desta publicação. 

Como se sabe, CapitalSocial é uma extensão editorial de LivreMercado. Durante o período de quase 20 anos estive no comando daquela publicação. Está lá com toda a clareza, num dos quesitos formulados:

 Exigir dos governos estadual e federal participação permanente de interlocutores oficiais. Exemplo: a falta de um interlocutor oficial do governo Lula da Silva no Grande ABC e mesmo a pouco expressiva diplomacia preparada pelo governo Geraldo Alckmin ajudam a explicar por que a região não consegue poder de convencimento para as prioridades sociais e econômicas., Contar efetivamente, no dia a dia, com representantes do governo federal e do governo estadual concretamente, com assento nos meses de decisões, pode parecer privilégio ao qual o Grande ABC pretende se dar ao luxo, mas não passa mesmo de decisões indispensáveis depois de uma década de tormentas. 

Vantagem comparativa 

Convém lembrar que aquelas propostas da Reportagem de Capa de LivreMercado, que já completaram 13 anos de impressão editorial, não foram lançadas necessariamente naquela oportunidade. Como em tantas outras situações temáticas que dizem respeito à região, tratou-se de nova investida em defesa da regionalidade. 

Algo que produzimos desde o começo dos anos 1990, quando lançamos LivreMercado tendo como matéria principal da edição inaugural um assunto tratado até então como vantagem estratégica. Tornamos preocupação o que era motivo de festejos permanentes, triunfalistas e irracionais: a exagerada dependência regional do setor automotivo. A Doença Holandesa Automotiva, como a batizei tempos depois. 

Tenho enorme vantagem sobre os atuais prefeitos da região (e essa vantagem tenderá a avançar na medida em que me mantenho vivo e lúcido, enquanto o rodízio de prefeitos nos respectivos paços vai-se consumar a cada eleição) e também sobre o entorno sempre escasso de agentes públicos que lhes dão sustentação na área econômica: a Província é minha pátria jornalística, sobre a qual me lanço diariamente em profundos estudos. 

De olhos no mundo

Além disso, para que não me transforme em provinciano como tantos, o mundo é meu limite de conhecimento. É impossível projetar a Província dos próximos anos sem estar atento, por exemplo, às estripulias nacionalistas de Donald Trump e seus efeitos multilaterais e multigeográficos. 

É com base nisso e em tantos outros fatores que acompanho atentamente o andar da carruagem da regionalidade a bordo da atuação do prefeito dos prefeitos Orlando Morando. O titular do Paço de São Bernardo encaminha-se para equiparar-se em matéria de desastre diretivo da região ao antecessor Luiz Marinho. 

O petista radicalizou a penetração de avermelhados no controle administrativo e técnico da Agência de Desenvolvimento Econômico e do Clube dos Prefeitos (com exceções que estão sendo confundidas por Orlando Morando), enquanto o tucano caminha para o lado oposto da ideologia e do cromatismo político-partidário. Enquanto isso, a sociedade desorganizada da região e a Imprensa sempre sem memória e de baixa combatividade, segue o caixão. 

Assisti tantas vezes ao filme mequetrefe da regionalidade da Província do Grande ABC patrocinado pelo Clube dos Prefeitos e pela Agência de Desenvolvimento Econômico que descarto a possibilidade de algo semelhante a “Noviça Rebelde” nos próximos tempos. Vou ter mesmo de suportar “As Nazistas Taradas”, sem a compensação das tomadas encantadora de uma Hong Kong espetacular. 

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