Regionalidade

Morando troca planejamento
por marketing. Vai se dar mal

  DANIEL LIMA - 09/02/2017

Prefeito dos prefeitos da Província do Grande ABC, Orlando Morando precisa ser orientado sobre a realidade que o cerca para que não se afunde num fosso de fracassos. E um dos pontos dessa realidade é saber que não é todo jornalista nem todo cidadão dessa região que vão acreditar no marketing de economia de guerra que supostamente o tornaria exemplo aos demais administradores públicos.  Até porque, trata-se de economia de palitos.  

Ao distribuir boletim oficial sobre as últimas ocorrências no Clube dos Prefeitos, procura-se vender um projeto de regionalidade que não passa pela porta estreita da verificação mais atenta. As novidades lançadas por Orlando Morando são uma catástrofe para a Província no logo prazo, embora possa dar algum resultado mequetrefe no curto prazo ante olhares e mentes mais condescendentes, quando não coniventes, quando não ignorantes.

O destaque dado oficialmente pelo Clube dos Prefeitos à redução de 74,5% nos custos no exercício desta temporada é uma meia-verdade tão escandalosa quanto digna de combate. 

Economia para matar

Para que os leitores menos letrados em regionalidade entendam o significado prático dessa suposta economia que mostraria a maturidade do prefeito dos prefeitos da região, passo a construir despretensiosa analogia. 

Imagine alguém portador de uma enfermidade que requer o máximo de cuidado, com tratamento especial por conta de anos e anos de descuidos, de exageros alimentares, de indolência física, e, sob nova direção de uma junta médica, decida-se diminuir a carga de tratamento, reduzindo-se, consequentemente os custos hospitalares. 

Simplesmente, é esse o resumo da ópera da situação do Clube dos Prefeitos da região após um quarto de século de criação. E o filhote supostamente predileto do Clube dos Prefeitos, a Agência de Desenvolvimento Econômico, que também estava sob cuidados médicos extremos, foi desenganado de vez desde que o novo comandante da junta médica decidiu mostrar a que veio. 

Da mesma forma que a família do enfermo seria chamada de insensata e insensível se saísse à praça para dizer que cortou os custos do paciente sem levar em conta as consequências da decisão, Orlando Morando propaga que opera revolução à frente da principal instituição integracionista da região. E, para completar, divulga também que, com a queda das despesas, abrirá uma representação regional em Brasília.  

Paciência esgotada 

A minha paciência com o prefeito de São Bernardo que virou prefeito dos prefeitos já acabou quando o assunto é regionalidade no sentido específico do Clube dos Prefeitos e da Agência de Desenvolvimento Regional. 

Quem acompanha estas e outras linhas sabe o quanto fui tolerante desde que nova leva de prefeitos assumiu os paços municipais. Morando despreza pelo menos meia dúzia de especialistas e de profissionais que entendem desse riscado muito, mas muito mais do que ele. Prefere o individualismo encapsulado pela fome político-partidária. 

Não faltam a Orlando Morando, claro, os bajuladores de sempre, que mal sabem em que terrenos pisam. São adoradores de plantão na região. Gente que se aproveita da ausência de contrapontos partidários, porque o PT está a nocaute, e também de uma mídia que se abstém do que chamaria de análise crítica. 

Vejam alguns dos parágrafos do boletim oficial do Clube dos Prefeitos para entenderem as razões que me levaram a perder a paciência e a diplomacia com as arremetidas de Orlando Morando: 

 A nova gestão do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC apresentou, nesta terça-feira (7), durante a assembleia mensal de prefeitos, o balanço das ações realizadas para a diminuição de gastos. Por meio de iniciativas como a revisão de contratos e convênios e a suspensão de processos licitatórios em andamento, a entidade regional reduziu 74,5% dos custos para o exercício de 2017. “Foi feita uma avaliação muito criteriosa e minuciosa. Foram rediscutidos contratos, reduzidos valores e abriu-se mão de projetos considerados desnecessários. Chegamos a um denominador muito equilibrado que vai permitir a permanência do Consórcio sem prejuízo dos serviços realizados e uma redução bastante exponencial para a contribuição das prefeituras”, afirmou o presidente (...) Orlando Morando. Entre as medidas tomadas, o secretário executivo do Consórcio, Fábio Palacio, destacou o cancelamento de telefones celulares, a redução em serviços de informática e publicidade e o efeito da diminuição de cargos comissionados na folha de pagamento. “A redução de gastos do Consórcio permitirá que as ações da entidade sejam mais efetivas e haja maior disponibilidade de investimentos para atender a população do ABC e problemas regionais”, disse. 

Mais boletim oficial 

Vou dar seguimento ao boletim oficial do Clube dos Prefeitos porque há alguns novos pontos a destacar: 

 A redução de custos permitiu aos prefeitos aprovar a abertura de um escritório do Consórcio na Capital federal nos próximos meses, ressaltou Morando. “Nosso representante em Brasília vai ser um garimpeiro de programas que possam privilegiar e contemplar a nossa região. Vamos aumentar a presença das sete prefeituras no âmbito do governo federal”. O presidente do Consórcio informou que o espaço para locação ainda será escolhido, mas os custos estimados para a sucursal em Brasília são de aproximadamente R$ 18 mil mensais. “É um valor bastante baixo considerando aluguel, IPTU e os funcionários que trabalharão no local”. 

Garimpagem ou planejamento? 

Notaram os leitores que, num ato falho típico de quem pretende dourar a pílula de uma suposta inovação gerencial do comando do Clube dos Prefeitos que de inovação não tem nada, destaca-se o caráter de “garimpeiro” do profissional a ser escalado para colher aqui e ali nos desvãos burocráticos de Brasília dinheiros que seriam aplicados na região?  

Em pleno século XXI somos obrigados a ouvir de um prefeito de uma cidade que está entre as 20 mais importantes do País e de uma região que está entre as 10 áreas submetropolitanas mais valiosas do território nacional uma declaração que troca planejamento estratégico por garimpagem.

O ponto de partida para restaurar a força econômica da região – e mesmo assim tendo-se preparo político e equilíbrio psicológico para entender que as bases precisam ser sólidas, senão inúteis – é a contratação de uma consultoria especializada em competitividade regional. Essa empresa precisa contar com visão macromundial que nos cerca, e, então, a partir daí, tendo-se como critério principal uma métrica ajuizada que estabeleça prioridades, monitorar atentamente e com independência a execução das respectivas etapas. 

Orlando Morando jogou pela janela essa premissa elementar. Preferiu dar ouvidos a amadores. E por isso vai quebrar a cara ante analistas que não se deixam cair no conto do vigário do aqui e agora de penduricalhos que visam interesses específicos não vinculados às dificuldades regionais. 

Marquetagem gataborralheiresca

O que leva Orlando Morando e os demais prefeitos à redução de custos (e de investimentos) do Clube dos Prefeitos e da Agência de Desenvolvimento Econômico é uma marquetagem gatabolhalheiresca de seguir os passos do prefeito da Capital, João Doria. O PT da região mimetizou muito do que Fernando Haddad fez em São Paulo. Os tucanos não agiriam diferentes em relação a João Doria. 

A alíquota de 0,5% de receitas próprias de cada Município que indexava a contribuição ao Clube dos Prefeitos foi reavaliada e agora não passa de 0,25%. Uma ninharia perto da importância de políticas públicas direcionadas à regionalidade. A previsão é de que as sete prefeituras contribuirão nesta temporada com R$ 13 milhões. Assombrosamente muito menos do que consomem inúteis vereadores e suas regalias. Que tal convencer esses legisladores do nada a abrirem mão de uma parcela quase insignificante dos gastos obrigatórios, repassando os recursos à aplicação em regionalidade?

O pior de tudo é que não existe a garantia de que os prefeitos vão tornar obrigatório o repasse de recursos ao Clube dos Prefeitos. A leva que encerrou mandatos em dezembro último ficou inadimplente em vários milhões de reais e o pagamento dos passivos foi escalonado para um período de 24 a 72 meses. A cultura de regionalidade entre quem mais deveria zelar pelos ganhos sistêmicos está longe de tomar corações e mentes. Daí, parte-se para uma variante simplória de garimpagem e ao recurso de um marketing caricato. 

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