Sociedade

OAB é apenas uma das pontas
de vassalagem generalizada

  DANIEL LIMA - 16/02/2017

A direita tem a mania de dizer que apenas os esquerdistas, mais especificamente petistas, adotam apadrinhamentos cruzados para protegerem-se mutuamente. O aparelhamento do Poder Público, sobretudo de organismos municipais na Província do Grande ABC, é prática generalizada. É uma porta disfarçadamente aberta na qual os direitistas sempre dão um jeito de invadir. Eles aprenderam com os esquerdistas.

Vivemos o salve-se-quem-puder em meio à degringolada da mobilidade social intensa e permanente. Por isso, o que chamo de escândalo envolvendo a presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) em Diadema, atraída pelo prefeito Lauro Michels (PV) é apenas a confirmação de uma sem-vergonhice que, de tão comum e corriqueira, causa espanto ao causar espanto.

Tudo poderia ser diferente se os Legislativos da região fossem diferentes dos Legislativos em geral e tivessem liberdade de atuação para instaurar CPIs de verdade, não de paus mandados e seletivamente. Seria ótimo se resolvessem fazer varredura nos cargos públicos comissionados para chegar às ramificações dos conluios envolvendo entidades privadas e gestores públicos. A maçaroca de safadezas exalaria um cheiro fétido de acumpliciamentos que degeneram cada vez mais a cidadania regional.

Casos múltiplos

São tantos os casos nas prefeituras de gente contratada por razões diversas mas quase nunca por competência e meritocracia que os legisladores da região teriam um prato de extraordinário paladar de democratização da ocupação pública com base em critérios que respeitem os contribuintes. Mas o que esperar dos legisladores municipais que, salvo exceções, fazem parte dessa confraria de horrores?

Sabe-se que a diretoria da OAB de Diadema estaria reagindo à nomeação da presidente Marilza Nagasawa por ter sido nomeada a um cargo público-municipal pelo prefeito Lauro Michels. Possivelmente algo de diferente ocorreu no processo, porque até então não se viu nenhum deles opor-se às ações partidárias da dirigente.

Durante a campanha eleitoral Marilza Nagasawa foi companheira permanente nas peregrinações do candidato à reeleição. Isso bastaria à advertência seguida de afastamento do cargo.

Até prova em contrário a OAB em qualquer de suas unidades é uma organização apartidária. Pelo menos no estatuto. Quando nem se finge que se obedece aos preceitos constitucionais da classe, como muitos o fazem e os demais fecham olhos, narizes e ouvidos, tudo indica que as regras por si sós de cinismo foram para o beleléu.

OAB degringolou

Nagasawa não é a primeira dirigente da OAB na região a utilizar do cargo em benefício próprio. Os exemplos são múltiplos e veem de longe. Raridade são os dirigentes da OAB – em todos os cargos de cada unidade – não terem engajamento político-partidário -- mesmo que informal -- na maioria dos casos circunstancial, de acordo com o andar da carruagem de oportunismo.

Em Santo André, ainda recentemente, o então presidente Fábio Picarelli deu um show de versatilidade, pulando de galho em galho em matéria de adesismo aos situacionistas de Carlos Grana e em seguida a um oposicionismo que flertou com Deus e o Diabo, até que caiu estatelado sem espaço à corrida eleitoral. Acabou defenestrado por gregos e troianos e sumiu do noticiário.

Fosse ele, daria um tempo longo para refazer as energias e, principalmente, os conceitos sobre participação político-partidária. Por piores que sejam – e são mesmo uma lástima – as agremiações políticas não são a casa da mãe Joana que alguns imaginam. Há vantagens implícitas que exigem habilidade à sobrevivência entre famintos.

Buraco é muito maior

Fosse apenas a OAB a manter relações que chamaria de incestuosas com agentes públicos teríamos arrombamento ético que a sociedade suportaria. Mas o buraco é mais embaixo, muito mais embaixo. Outras organizações coletivas, como associações comerciais, são igualmente usuárias do viés que associa oportunismo e pantagruelismo em busca dos cofres públicos com cargos e muitas sinecuras.

Existe uma dinâmica viciadíssima de tomada dos serviços públicos por integrantes de organizações privadas que não passa pelo crivo da independência e distanciamento entre os poderes, por assim dizer. Quando a proximidade é tão intima e dispensa inclusive o uso de lençóis de certos pudores, todos se refestelam na banheira de hidromassagem de uma suruba completa e indiferente às críticas. Quando se chega a esse ponto, tudo indica que já se ultrapassaram todos os limites de flexibilidade moral. O ambiente de Sodoma e Gomorra instalou-se.

Quando me refiro aos mandachuvas e mandachuvinhas que dominam o cenário econômico, político e social da região, estou dirigindo baterias de inconformismo a essa imensa fauna que se hostiliza mutuamente nos escaninhos do poder, mas que se ajeita de acordo com as conveniências.

Quem tem preocupação com o futuro e, mais que isso, quem preza legitimidade na disputa pelo mercado de trabalho, não se conformará jamais com apadrinhamentos que vicejam a partir de relações promíscuas entre detentores de poderes municipais e entorno que supostamente representaria forças da sociedade desorganizada e silenciosa.

A sociedade consumidora de informações e mesmo a população aparentemente alheia a essa questão carregam uma base de dados suficiente para desprezar tantos uns quanto outros, ou seja, tantos os poderosos de plantão nas prefeituras quanto as entidades cujos dirigentes se consideram mais espertos do que o são de fato.

Tanto é verdade que qualquer pesquisa séria para diagnosticar o grau de credibilidade dessas organizações vai constatar que se trata de um encontro de gente que quer se dar bem a qualquer custo e para tanto faz uso de marcas institucionais aparentemente conceituadas.

Enquete providencial

Sempre é bom lembrar para dar mais suporte a este artigo – como se fosse preciso, já que no fundo a sociedade conhece bem os métodos heterodoxos com que se movem as peças interinstitucionais públicas e privadas – em abril de 2011 publiquei uma análise de dados que saltaram os resultados de uma enquete com os então integrantes do Conselho Editorial desta publicação.

Resumidamente, constatou-se que entidades empresariais, sindicais e sociais receberam cartão vermelho daqueles formadores de opinião.

Sobre as entidades de classe empresarial, apenas 14% as consideraram “bastante efetivas e promovem grandes ações regionais”. O batalhão daqueles que as consideravam “apenas corporativas, a olhar para o próprio umbigo”, nada menos que 68% se manifestaram. Outros 18% consideraram-nas “extremamente improdutivas, inclusive no sentido corporativo”. Tenho a impressão que uma nova rodada de questionamento rebaixaria ainda mais esses valores críticos.

Sindicatos também

As entidades sindicais, segundo avaliação dos formadores de opinião, não tiveram desempenho diferente. Apenas 8% as consideraram “bastante produtivas para o conjunto da sociedade”, enquanto 65% as avaliaram como “estão muito aquém do que a sociedade regional necessita”. Para completar, outros 27% optaram pelo terceiro cenário apresentado: “cuidam exclusivamente de seus próprios interesses”.

Quem se saiu menos mal foram as entidades sociais (Lions, Rotary e assemelhadas), para as quais 35% dos leitores formadores de opinião destinaram a primeira alternativa: “são extremamente participativas e integrativas com o conjunto da sociedade regional”. A maioria de 45% preferiu a opção “não saem dos próprios casulos, sem se incomodar com a sociedade”. Já para 14%, as entidades sociais “estão absolutamente inertes, inclusive intestinamente”.

Não tenho dúvida de que uma pesquisa independente registraria resultados muito mais graves do que os daquela enquete, entre outros motivos porque a situação econômica e social da região se agravou, as entidades em geral seguem ritual de anorexia produtiva e os conchavos, cada vez mais sem-cerimônia, tornaram-se de domínio e de repúdio públicos – por mais que a mídia em geral procure escondê-los ou minimizá-los.

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