Administração Pública

Morando festeja Marco Zero
da Vergonha. Isso é ético?

  DANIEL LIMA - 22/02/2017

É claro que a decisão do prefeito fere todos os princípios éticos ao participar e se manifestar efusivamente em relação aos anfitriões do condomínio residencial e de serviços que o conglomerado MBigucci entregou parcialmente ontem à noite em São Bernardo. Trata-se do oficialmente Marco Zero, mais conhecido como Marco Zero da Vergonha. A marca é deste jornalista com base em calhamaço de dados e provas de fraudes no leilão de área pública do qual muito se beneficiou o empresário Milton Bigucci.

Custa acreditar que Orlando Morando não tenha um assessor que o coloque no prumo em situações em que há dúvidas no horizonte de decisões e, por isso, cometesse tamanho deslize. Embora tenha me respondido, numa das mensagens de um aplicativo, que é o responsável pela própria agenda, prefiro a tese em contrário. Que tese? De que a agenda pública de um prefeito está intimamente relacionada à responsabilidade social e, como tal, não lhe pertence individualmente. 

Participar de um evento (e mais que isso, enaltecer o empresário anfitrião) em que o protagonismo é de um agente econômico que cometeu delitos no processo de aquisição da área então pública em que se construiu o empreendimento é um descuido lamentável. Quando, então, curva-se ao mandachuva empresarial, supostamente lhe conferindo atestado de comprometimento social porque teria gerado 2,5 mil empregos, Morando derrapa no terreno escorregadio do exagero, quando não da cumplicidade. 

Chutando alto

Quantos atendimentos públicos aos mais carentes foram surrupiados com a aquisição fraudulenta daquele imóvel que multiplicou a rentabilidade do empreendimento? Mais: 2,5 mil empregos é balela numérica típica das informações de Milton Bigucci ao longo dos anos à frente de engodos estatísticos sobre o comportamento do mercado imobiliário da região. Tudo comprovado. 

Campeão regional de abusos contra a clientela, segundo denúncia do Ministério Público do Consumidor de São Bernardo, integrante da Máfia do ISS da Capital, denunciado como membro efetivo da confraria empresarial que, em conluio com agentes públicos, saqueou os cofres do Semasa, a autarquia de água e esgoto de Santo André, entre outras irregularidades, Milton Bigucci não é um parceiro público que deva servir de referência aos novos tempos prometidos por Orlando Morando à frente do principal Município da região. 

Repasso os leitores a mensagem que recebi hoje de manhã em meu smartphone sobre uma comunicação anterior, postada no final da noite de ontem, quando fui informado da ruidosa comemoração de Orlando Morando na festa organizada pela MBigucci. Leiam com atenção: 

 Bom dia! Amigo Daniel Lima. Sou prefeito da cidade e sempre irei prestigiar as inaugurações da nossa cidade, indiferente da empresa que construiu! Se teve problemas no empreendimento, cabe à Justiça definir. Não foi no meu mandato que foi aprovado e também não foi no meu mandato que foi vendido esse terreno. 

Respondi em seguida ao prefeito de São Bernardo: 

 Bom dia prefeito Orlando Morando. Como no caso do lixo, desdobrado em duas frentes de ações (Legislativo e Judiciário) e igualmente com origem em gestões passadas, o senhor sabe perfeitamente que basta vontade política para desmascarar a fraude do Marco Zero da Vergonha. 

Em seguida, de novo o prefeito de São Bernardo me mandou uma nova mensagem: 

 Quem decide minha agenda sou eu!

Não tive dúvidas em lhe responder: 

 Quem decide minha agenda é a responsabilidade social. 

Nova camada de blindagem

Como a questão comporta mais que troca de mensagens, o que pretendi dizer ao prefeito de São Bernardo ao lhe responder sobre o paralelo do Marco Zero da Vergonha e as escaramuças que o mobilizam junto à empresa responsável pela coleta de lixo (e que mantém contrato para a construção de uma usina de geração de energia decorrente do uso desse mesmo lixo) é que ele se está utilizando de dois pesos e duas medidas. 

Se as supostas bobagens e barbeiragens da gestão de Luiz Marinho devem e precisam mesmo ser investigadas e disso o prefeito Orlando Morando não abre mão, por que o caso do Marco Zero da Vergonha, com origem na Administração William Dib e complemento de irregularidades na gestão de Luiz Marinho, deveria ser blindado novamente?

Para ser mais claro e objetivo: enquanto no caso do lixo o que se tem por enquanto são apenas indícios de falcatruas, as quais estão entregues à inspeção de servidores públicos especializados, a uma CPI no Legislativo de São Bernardo e também ao encaminhamento de suspensão do contrato à Justiça, no caso do Marco Zero da Vergonha há uma montanha de provas documentais e testemunhais que, misteriosamente, o Ministério Público Estadual ignorou solenemente em São Bernardo e o prefeito Luiz Marinho jogou às traças. Enquanto isso, a MBigucci corria em desespero para contratar uma das melhores e conceituadas bancas de advogados do País, de José Roberto Batochio, coincidentemente o comandante da força-tarefa de Lula da Silva para se livrar da Operação Lava Jato. 

Relações antigas 

As relações entre Orlando Morando e Milton Bigucci vêm de longa data. São parceiros na distribuição de dinheiro público a uma entidade assistencial da qual o empresário lança mão como estratégia para dizer a terceiros que é um homem caridoso. 

Em 2010, quando estourou um dos escândalos do setor imobiliário em São Paulo, de financiamento irregular de campanhas de vereadores durante a gestão de Gilberto Kassab, também enroladíssimo na Lava Jato, Orlando Morando participou juntamente com outros quatro deputados estaduais da região de uma festinha organizada pelo Clube dos Construtores então presidido por Milton Bigucci. Todos foram homenageados por Milton Bigucci. Essa proximidade histórica falou mais alto que o interesse público na presença e no pronunciamento oficial de Orlando Morando durante o evento de ontem à noite.

Deve-se tirar o chapéu a Milton Bigucci como empresário. Notem que não me refiro a ele como empreendedor, que é outra coisa, mais nobre. Como empresário, repito, Bigucci tem imensa capacidade de trocar de cores partidárias. O PT de Luiz Marinho o detestava no começo de 2009. Quando Marinho terminou o mandato, Bigucci constava da lista preferencial de parceiros. Mal Orlando Morando assumiu e já está lá ao lado do empresário. 

O ecumenismo de Milton Bigucci ganha diferentes conotações entre aqueles que conhecem o mercado imobiliário. Vai de “a” a “z” como método de ação, quando não de sedução. Tudo isso é duramente criticado pela maioria dos empresários do setor. Eles consideravam Milton Bigucci competidor privilegiado e, portanto, sabotador da meritocracia. O reinado de mais de duas décadas no Clube dos Construtores sedimentou a estrada institucional da MBigucci nos organismos públicos. O Marco Zero da Vergonha não foi obra do acaso. Como tantos outros empreendimentos. 

Infelicidade em dose dupla 

Orlando Morando foi muito infeliz nas duas intervenções manifestadas a este jornalista. Na primeira, caiu em flagrante contradição. Não há distinção reparadora entre o caso do lixo e do Marco Zero da Vergonha. Aliás, têm tudo a ver, inclusive na metáfora do lixo transposta ao empreendimento imobiliário sob o ponto de vista de moralidade pública e ética. 

Na segunda porque sugeriu que é dono do próprio nariz como prefeito de São Bernardo. Está redondamente enganado. Quando se assume um cargo de tamanha envergadura, os narizes de terceiros devem ser levados em conta inclusive para que não sejam vitimas do fedor alheio. 

O Marco Zero da Vergonha é um empreendimento sem salvação ética, mas segue impune judicialmente. Por mais que tenha escrito sobre o caso, e diferentemente do modelo de criminalização que adota para atingir quem discorda de suas lambanças, Milton Bigucci jamais ofereceu qualquer queixa-crime contra este jornalista. Ele sabe que a medida seria a confissão de culpa que o Ministério Público e a Justiça, finalmente, estabeleceriam. 

Leiam também: 

Quadrilha de Bigucci é desafio à credibilidade da gestão Marinho

Aleluia, aleluia: Diário revela mazelas da MBigucci até na primeira página

Deu no Diário de hoje: Bigucci está metido em outra enrascada 

Já passou da hora de fortalecer o Ministério Público na região 

Leia mais matérias desta seção: