Sociedade

Mocinhos sociais preferem
discrição para sobreviver

  DANIEL LIMA - 21/03/2017

Não temos apenas bandidos sociais na Província do Grande ABC. Contamos também com mocinhos sociais, ou potenciais mocinhos sociais. Aliás, os mocinhos sociais são muito mais numerosos que bandidos sociais. O que os separa é que cada mocinho social prefere um cantinho qualquer na imensidão da sociedade com a qual compartilha os mesmos propósitos, embora não tenha a mínima ideia de que isso seja uma cadeia de fermentação à indignação, não um cubículo qualquer. 

O que diferencia mocinhos sociais de bandoleiros sociais é que estes são assanhados e avançam para valer sobre tudo que diz respeito a interesses individuais e grupais. Já os mocinhos sociais preferem o silêncio, o anonimato, a sobrevivência num ambiente em que a meritocracia  deteriora-se diante da avalanche da desigualdade e do direcionamento de oportunidades. Somos uma Província de minoria que dá as cartas da prepotência e joga de mão. 

Não mais que 100 personagens comandam a política e a economia dos municípios locais no sentido de força de combate por espaços estratégicos no tabuleiro da sociedade desorganizada. Em termos regionais, não chega a 30 o total de controladores da Província, ou seja, de gente que age transversalmente no território. Parece pouco ante quase três milhões de habitantes, mas é o suficiente para amarrar o burro da tranquilidade e fazer o que bem entenderem. 

Somente uma Lava Jato reformularia esse jogo de cartas marcadas ao bombardear as cidadelas dos poderosos de sempre e também dos poderosos de plantão. A operação elevaria a autoestima de quem está na moita do comodismo de sobrevivência. 

Combate desigual 

É muito arriscado ser mocinho social no faroeste regional. Aqui o mal geralmente vence. O bem em forma de instituições de proteção à sociedade é lento, desatento, improdutivo e, em alguns casos, aterroriza quem pretende desvendar determinados enigmas ou confrontar poderosos e seus tentáculos. 

Não existe perfil integralmente definido de mocinho social na região. Alguns pontos em comuns podem ser entrelaçados sem erro de avaliação. Além de discretos, são inconformados. Mas mesmo inconformados pautam-se pelo juízo. Sabem que correm enormes riscos se forem colhidos em confidências ou conspirações. Vazamentos indesejáveis atemorizam mocinhos sociais. Eles conhecem bem a regra do jogo. Os mandachuvas não admitem intromissões. 

Como o ambiente regional é de desconfiança generalizada, e os bandidos sociais reconhecem os mocinhos sociais com facilidade porque não integram seus respectivos agrupamentos, a cidadania cedeu espaço à agudeza de sentimentos. Entenda-se por agudeza de sentimentos o não-gesto público, o enclausuramento mental de indignação, a prioridade por tecer um vocabulário neutro a salvo dos inimigos. O terrorismo tomou de assalto a região. Um terrorismo silencioso e constrangedor. 

Cuidados extremos 

Também contamos com falsos mocinhos sociais. Gente que aparentemente se posiciona cuidadosamente contra o lado oposto da tabela de comprometimento social, mas que no fundo quer mesmo é sondar o ambiente de hostilidades e amabilidades para saber até onde pode colocar os pés. Não falta quem já deu com os burros nágua por não medir com a devida cautela a distância que separa mocinhos sociais de bandidos sociais.  

A sugestão a quem pretende identificar uns e outros é simples: não se entusiasme com determinadas posturas públicas. Quanto mais aparecem nos jornais impressos e digitais supostas lideranças que exaltam a região ou coisas da região, mais radares devem ser acionados. Por trás de cada ufanista se esconde um bandido social. Uma das características dos bandidos sociais é ser amável. Eles entendem que, dessa forma, neutralizam eventuais contestações subterrâneas ou não. 

Nos anos 1990 e na primeira década dos anos 2000 bandidos sociais eram mais explícitos na cantoria de grandeza regional. Como levaram muitas bordoadas e já não é possível mesmo enganar o distinto público, eles se retraíram. Mas de vez em quando aparece alguém. Eles sabem de nosso Complexo de Gata Borralheira. Amamos o autoengano. Podemos viver na pindaíba, mas basta um idiota qualquer dizer que o paraíso é aqui para os rostos se iluminarem. Quando a novidade vem da Capital, então, é uma loucura. 

Blocos organizados

É preciso relativizar o significado de mocinhos sociais. Não esperem deles decisões ousadas jamais. A maré não está para peixe. Lembrem-se que eles têm projetos individuais e familiares. Portanto, qualquer iniciativa que demande críticas a determinadas situações está fora da alça de mira dos mocinhos sociais. 

Reações públicas têm-se tornado regra apenas entre os ativistas bem estruturados, geralmente com emprego garantido. Mobilizações de gente com respaldo associativo para enfrentamentos não se traduzem em blocos de mocinhos sociais. É bom distinguir uns de outros senão, de repente, muitos podem se arvorar de mocinhos sociais. 

Nunca é demais lembrar que estamos tratando de uma maioria, mas é uma maioria silenciosa, com potencial de transformações, mas que também não é camicase. Sabe essa maioria que, por ser nada barulhenta e atomizada, sempre correrá o risco de se dar mal. 

Individual e coletivo 

Quando se é maioria, mas uma maioria dispersa e distante entre si a se confundir com individualidade, sobra a impressão quase certeza de que se está sozinho no mato sem cachorro. A aritmética dos mocinhos sociais ou potenciais mocinhos sociais jamais permite que um mais um são dois e múltiplos sequenciais. Como raramente agem em comunhão, sofrem o que chamaria de síndrome de isolacionismo. 

Na engenharia das relações sociais, portanto, não há espaço a contabilidades extravagantes. As grandes manifestações populares não passam do coletivismo protetor de individualidades. Mocinhos sociais são a individualidade a desafiar os coletivos bandidos. 

Conheci vários mocinhos sociais ao pretender criar o Defenda Grande ABC. Aquele foi um teste excepcional para avaliar mais de perto muitos leitores. Na medida em que se avançavam os batalhões temáticos de desmantelamento de fortalezas regionais no campo da ética e da moralidade, mais se deram os afastamentos, as desistências, os abandonos. 

Havia uma vocação às mudanças, mas os alertas sensoriais de contra-freios aos riscos foram mais resistentes. Alguns outros participantes iniciais do Defenda Grande ABC não passavam de infiltrados. Gente ligada a bandidos sociais a se fingir de aliada quando queria mesmo era espionar. Esses são bandidos sociais auxiliares, sem pedigree de bandidos sociais. Esses não podem ser confundidos com desistentes que puramente buscaram a paz provavelmente sabedores de que guerrear na Província é perda de tempo ante o controle do poder por bandidos sociais.

Domínio total 

O grande desafio da Província do Grande ABC nos próximos 20 anos é saber o que vai acontecer com os mocinhos sociais potenciais de que dispõe e o que está reservado aos bandidos sociais sempre assanhados que os rodeiam. 

Vinte anos atrás – e as retrospectivas de duas décadas da revista LivreMercado que estamos produzindo é pedagógica nesse ponto – a perspectiva de futuro para o então Grande ABC foi jogada às traças. Viramos Província do Grande ABC em estado de choque. Aqui os mocinhos sociais se sentem constrangidos e temerosos de identificação. Nem voltar ao passado temos direito. Se o tivéssemos, seria muito melhor. 

A propósito: este é o primeiro artigo em que adoto a expressão “mocinhos sociais”. Já “bandidos sociais” está em 77 textos. Uma goleada mais que justificada. 

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