Regionalidade

Clube dos Prefeitos perde
Diadema. É só o começo?

  DANIEL LIMA - 24/03/2017

O Diário Regional publicou ontem uma notícia importante, mas deixou de publicar uma projeção que também pode ser consumada: a saída de Diadema do Clube dos Prefeitos ameaça espalhar uma onda de aniquilação da entidade legada por Celso Daniel, assim como a Agência de Desenvolvimento Econômico, triturada pelo novo prefeito dos prefeitos, Orlando Morando.

Além de todas as razões expostas, o titular do Paço de Diadema, Lauro Michels, deixou de mencionar outro vetor, senão o mais relevante, da renúncia a uma das cadeiras do colegiado: a dificuldade de estabelecer  equilíbrio geral de forças com Orlando Morando.

O tucano ainda não se deu conta de que o cargo de prefeito dos prefeitos é apenas simbólico, porque todos os demais têm o mesmo peso. Foi assim com tantos outros que o antecederam. A diferença é que Orlando Morando não seria nada habilidoso nas relações interpessoais, principalmente quando se sente o rei da cocada preta, segundo expressão de um dos potenciais dissidentes.

Entrevista ao Diário Regional

Antes de prosseguir com essa análise (há em nosso acervo nada menos que 377 matérias que tornam o Clube dos Prefeitos protagonista ou coadjuvante de nosso regionalismo, sem contar os textos em que ainda não havia adotado essa expressão, prevalecendo o horroroso Consórcio Intermunicipal de Prefeitos) vou reproduzir os principais trechos da ótima reportagem do Diário Regional com o prefeito de Diadema. Leiam com atenção: 

 (...) A decisão vem sendo amadurecida por Michels desde a reeleição, mas o que pesou muito foi a “crise econômica e a queda de arrecadação no município”. O prefeito argumentou que prefere “reformar uma escola, pagar a merenda escolar ou manter a oferta de remédios aos moradores” a repassar recursos ao colegiado. Desde janeiro, Diadema desembolsa R$ 220 mil mensais à entidade, mas até dezembro de 2016 pagava R$ 400 mil. Como não havia recursos para esses pagamentos, a cidade acumula dívida de R$ 8,2 milhões com o Consórcio. A decisão deverá ser comunicada oficialmente no início de abril. Michels não poupou críticas ao Consórcio e disse que a entidade se agigantou, o que a levou a ter custos muito altos para sua manutenção, sem reverter em nenhum benefício para a região. O prefeito considera absurdos os gastos da entidade. (...) Somente em publicidade institucional – gasta em TV, rádio, jornais e outros meios –, Michels diz que foram desembolsados R$ 9,6 milhões (em 2016). Foram gastos R$ 1,6 milhão em consultorias, R$ 310 mil em limpeza, R$ 518 mil em vigilância, R$ 300 mil em locação de equipamentos, entre outros valores. “Se cada cidade aplicasse esse dinheiro com seus moradores, traria muito mais retorno. É só perguntar a qualquer morador se prefere que eu pague merenda escolar ou o Consórcio e saberemos a resposta óbvia”, afirmou o prefeito. Para Michels, além da grande estrutura, o Consórcio nunca trouxe benefícios diretos a Diadema. “Tornou-se um cabide para funcionários comissionados, que tradicionalmente são ligados ao presidente do Consórcio ou a seu grupo político, e também para concursados, gerando despesa fixa de mais de R$ 3,3 milhões com sua folha de pagamento anual. É uma despesa crescente, tem reajuste de salários, de contratos e somos obrigados a pagar 0,25% de nossa receita corrente líquida”, explicou. Para Lauro, gasta-se tudo isso para uma reunião mensal entre os prefeitos. “Poderíamos fazer uma reunião mensal em cada cidade e ter representatividade mais simples. Por isso fui contra a criação de sede em Brasília: seriam mais custos e gastos para as prefeituras.” Segundo Lauro, a saída de Diadema do Consórcio não significa o isolamento das demais cidades. O prefeito defende ações conjuntas com seus colegas, mas diz que é “desnecessária a intermediação do Consórcio” com a estrutura atual. (...) Michels afirmou que estará à disposição dos demais prefeitos, inclusive de Morando. “Minha crítica não é contra Morando, que está assumindo neste ano a presidência. Eu já havia alertado meus colegas, numa das primeiras reuniões, sobre minha intenção de priorizar as necessidades dos munícipes de Diadema, revertendo esse dinheiro para nossas necessidades reais. O Consórcio, como está, não tem futuro” disse.

E os desdobramentos?

É claro que não vou esgotar o rompimento de Diadema com o Clube dos Prefeitos neste artigo. Outros virão. Não há na praça publicação que se tenha dedicado tanto ao Clube dos Prefeitos e à Agência de Desenvolvimento Regional como CapitalSocial, antecedida da revista LivreMercado. Essas peças gêmeas da regionalidade desta Província sempre foram objetos de atenção. Mas não imaginava desfecho dessa monta, quanto mais novos dissidentes.

No fundo, no fundo, ainda acredito que pressões políticas e partidárias levarão Lauro Michels a recuar. Talvez ele esteja jogando um jogo combinado com outros prefeitos igualmente insatisfeitos com o conceito de democracia diretiva de Orlando Morando. Havia muitos dias contava com informações que colocam o tucano num polo de quase isolamento. Há críticas duras ao prefeito que sucedeu Luiz Marinho. Críticas tão duras que não falta quem já sinta saudade do petista no âmbito das entidades que deveriam cuidar da regionalidade com atenção máxima.

Existisse uma entidade suficientemente independente e estruturada para somar forças, mas também para acompanhar o Clube dos Prefeitos, tudo seria diferente há muito tempo. O Clube Econômico do Grande ABC é um caminho para reequilibrar a balança entre capital, trabalho e sociedade na região. Hoje o jogo está dominado politicamente pelas administrações municipais e no ambiente social pelos sindicalistas. Os empreendedores não apitam nada, embora sejam responsáveis pela maior parte das arrecadações tributárias municipais, estaduais e federais.

As declarações oficiais do prefeito de Diadema ao Diário Regional abrem as portas e as janelas à necessidade de, finalmente, passar a limpo o Clube dos Prefeitos e a Agência de Desenvolvimento Econômico.  Por mais que eventualmente Lauro Michels esteja a jogar um jogo pensado e por mais que tenha razões de sobra em vários pontos que elencou para o afastamento, os efeitos da medida serão dilaceradores ao compadrismo dos prefeitos que vem de longe.

Faz muito tempo que venho pregando no deserto de que a primeira e principal medida para restabelecer a ordem no Clube dos Prefeitos e na Agência de Desenvolvimento Econômico é a contratação de consultoria especializada em competitividade econômica – em competitividade econômica, repito – para diagnosticar e encaminhar medidas urgentes à estabilização de vez dos vazamentos de que somos vítimas com perdas sucessivas de riqueza.

O prefeito dos prefeitos Orlando Morando subverteu expectativas de que poderia ser um jovem atualizado em desenvolvimento econômico quando anunciou o esvaziamento da Agência de Desenvolvimento Econômico e lançou bases a operação de marketing com a constituição do que chama de Casa do Grande ABC em Brasília. Morando disse textualmente que procurará “garimpar” recursos federais, quando a lógica restauradora do tecido econômico da região é o planejamento estratégico voltado a ações profiláticas no campo produtivo, as quais devem obedecer ao conceito de sistemicidade, não de quebragalhismo.  

Na próxima semana vou intensificar considerações sobre o Clube dos Prefeitos e a Agência de Desenvolvimento Econômico, caso os desdobramentos de Diadema sejam mesmo os esperados. Ou seja: de retraimento participativo de outros municípios. Prevejo, entretanto, que  nova rodada de reunião desse colegiado, quem sabe até em caráter de urgência, provocaria mudança drástica, com o recuo alardeado do imperialismo de Orlando Morando.

O jovem prefeito dos prefeitos parece empavonar-se com a notícia de que assumirá a vice-presidência da Associação Brasileira de Municípios. Ele provavelmente se esquece de que, mais importante que qualquer voo institucional individual, o futuro regional é que determinará seu destino político. Alguém precisa lhe dar um cutucão bem dado, embora, ao que consta, essa medida não tem dado resultado. Então, vamos além do cutucão, gente.

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