Administração Pública

Quando os federais vão botar
a Fundação do ABC a limpo?

  DANIEL LIMA - 15/05/2017

Os federais – polícia, procuradores e juízes – estão demorando para escarafunchar as entranhas apodrecidas da Fundação do ABC, conforme denunciei há muito tempo nesse espaço e só recentemente (e mesmo assim de forma branda) o Diário do Grande ABC decidiu me acompanhar. Está faltando um modelo federal regional da Operação Lava Jato que compreenda outras temáticas, além da Petrobras, que também é motivo de investigações locais. 

A manchete de página interna de ontem daquela publicação (por que não virou manchetíssima de primeira página, ou seja, manchete das manchetes?) consagraria este jornalista como fonte mais confiável de informações e análises não fosse esse conceito realidade há muito tempo. Para desgosto dos bandidos sociais. 

Publicou o jornal ontem sob o título “Fuabc contabiliza 22 mil funcionários” que a organização que administraria a saúde de grande parte dos moradores da região chegou a ter em 2014 mais funcionários registrados do que as prefeituras de São Bernardo, São Caetano e Rio Grande da Serra juntas, e uma folha salarial mensal de R$ 56,9 milhões, ou R$ 682,8 milhões. 

Anotem que os dados referem-se à planilha obtida pelo Diário do Grande ABC via Lei de Acesso à Informação de uma entidade que nesta temporada terá orçamento de mais de R$ 2 bilhões. 

Agora, vejam o que escrevi na edição de 19 de agosto de 2013 em artigo nesta revista digital sob o título “Diário denuncia aparelhamento na Fuabc. O que dizer sobre isso?” Selecionei apenas alguns parágrafos que dizem tudo sobre nosso histórico editorial sobre aquela organização coletiva: 

 A conclusão a que eventual labirinto desse enredo enseja é simples, reta e direta: a Fundação do ABC é uma regionalidade agressivamente permissiva e despudoramente vergonhosa porque carrega no próprio ventre o vírus do compadrio, do corporativismo e também de uma suruba de cores partidárias que vão muito além do caráter multifacetado das fontes de financiamento dos contratos. Quem se aventurar a imaginar o que vou escrever sobre novos desdobramentos da Fundação do ABC correrá o risco de se surpreender. Tenho cá comigo algumas avaliações das quais não abro mão entre outros motivos porque a tentativa de tornar circunstancial o que é histórico e circunscrever a um exemplar o que é tradição daquela instituição não combina com a legitimidade das informações que qualquer jornalista independente tem obrigação de registrar. A Fundação do ABC só não é mais importante como objeto de fiscalização permanente da mídia e da sociedade como um todo porque as forças políticas que a sequestraram fecharam-se em copas num requintado concerto de conveniências que se amolda aos interesses dos poderosos de plantão. 

Acervo riquíssimo

Há no acervo desta publicação 76 textos da Fundação do ABC. Na maioria dos casos a instituição surge como protagonista, não coadjuvante. Em todos, praticamente sem exceção, o tom é crítico, muito crítico. Como deve ser jornalismo de verdade. O Diário do Grande ABC começou a bater na tecla da insolvência estrutural da Fundação do ABC somente nesta temporada. Anteriormente ignorou os textos que produzi, embora todos fossem avidamente consumidos naquela redação. 

Vou reproduzir logo abaixo uma coleção de títulos que dizem respeito às atividades da Fundação do ABC que constam do nosso acervo. É o retrato claro de um crime anunciado que fragiliza os cofres públicos. 

Tenho uma frase consolidada sobre a Fundação do ABC que sintetiza o tamanho da encrenca quando o referencial é seriedade, transparência, rigor com recursos financeiros públicos e muito mais: trata-se da única regionalidade que deu certo (numa região que é uma piada como exemplo de região) porque interesses multifacetados convergem à mesma direção de vantagens. 

Denúncia desconsiderada

Durante a audiência em que fui massacrado e desrespeitado como jornalista pelo juiz da 3ª Vara Criminal de Santo André no caso demandado pelo Clube dos Construtores do então chefe Milton Bigucci, fiz denúncia que caberia tanto ao meritíssimo quando ao promotor criminal presente levarem adiante. Eles deveriam me convidar, convocar, obrigar, seja lá o que fosse, a prestar mais informações. Disse com todas as letras e vírgulas que a Província do Grande ABC é um antro de corrupção. A Fundação do ABC estava e continua na minha mira. Para que não pensem que estou a blefar, reproduzo trechos daquele depoimento em novembro de 2014: 

 (...) e imagine, doutor, o senhor não ter rabo preso com ninguém numa região em que a corrupção é uma erva daninha. O ABC é um centro de corrupção desse País (...) O Ministério Público, inclusive em fevereiro deste ano, numa ação do Semasa, de escândalo do Semasa, da qual o senhor Milton Bigucci é parte, o Ministério Público ficou em fevereiro deste ano de anunciar o nome do empresário envolvido nas falcatruas e até hoje não denunciou. O que quero dizer é que o Grande ABC, isto aqui, é um antro de corrupção. 

Desembarque trabalhoso

Os federais precisam desembarcar na Província do Grande ABC não só para tratar diretamente do caso da Fundação do ABC, que vai muito, mas muito além das rachaduras orçamentárias provocadas por empreguismo desregrado e completamente fora da legalidade de uso de recursos públicos para a área de saúde. Há muito mais pontos a escarafunchar. 

Que venham os federais antes que eventualmente algum dirigente daquela organização decida encaminhar queixa-crime contra este jornalista (como o fez Milton Bigucci à frente do Clube dos Construtores mais que manjado na manipulação de estatísticas e de incompetências que geraram histórico medíocre de inserção regional que qualquer cidadão com responsabilidade social tanto defende) e, quem sabe, este jornalista venha a ser condenado à prisão, como o fez o meritíssimo de Santo André. 

O mesmo meritíssimo que me ouviu falar de corrupção numa sala de audiência. Quem sabe o mesmo promotor criminal que me ouviu falar em corrupção numa sala de audiência. E nada fizeram para me encaminharem a esclarecimentos num inquérito à parte. O que não poderiam ter feito seria ignorar aquelas declarações.  Da mesma forma que não descarto jamais uma fonte de informações valiosas e – portanto – digna de iniciar o rastreamento de evidências que garantam análise aprofundada. 

Lista para conferir 

Tenho uma lista enorme de escândalos a serem apurados, caros meritíssimos juízes e promotores criminais de Santo André. Me coloco à disposição pública para prestar os devidos esclarecimentos. Seria uma espécie de “Informações Indispensáveis”, versão sem qualquer conteúdo de salvamento pessoal contida nas “Delações Premiadas”. 

Estou dizendo publicamente que me coloco à disposição de autoridades interessadas em combater o crime organizado na Província do Grande ABC. Tenho mais que os caminhos das pedras. Mas o trabalho exige ação de uma força-tarefa semelhante em responsabilidade, determinação e independência da Operação Lava Jato.

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Em Administração Pública:

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