Sociedade

Somos silenciosamente hoje
o que Brasília já escandalizou

  DANIEL LIMA - 23/05/2017

Quem está a imaginar que já leu algo parecido com esse título nesta revista digital não está enganado. Um ano antes de a Operação Lava Jato ser deflagrada escrevi um artigo (“Somos hoje às escondidas o que Brasília escandalizará amanhã”). Premonitório, dirão os leitores. Nada disso. Apenas a consequência de ter informações e de, em alguns casos, pagar caro por conta disso. “Somos silenciosamente o que Brasília já escandalizou” atualiza um conceito que, tristemente, temos de admitir oportuno nestes tempos. 

Naquele 21 de fevereiro de 2013, data em comparei a Província do Grande ABC e a Capital Federal, não tinha a menor ideia de que a Operação Lava Jato seria um divisor de águas na política brasileira – apesar dos falsos democratas afirmarem que as forças federais estão a botar fogo na representação política que, convenhamos, é vexatória. O que preparei naquela data foi um confronto entre o que a “Carta do Grande ABC” enunciou em 28 de julho de 1994 e o que vivíamos naqueles dias do terceiro ano da segunda década do novo século. 

Para quem não tem a menor ideia do que foi aquele 28 de julho de 1994, lembro que se tratou do lançamento oficial do Fórum da Cidadania do Grande ABC, o maior movimento social já vivido na região e que durou pouco porque a maioria dos integrantes esticou tanto a pauta de propostas que a região acabou esquecida, e depois dividida de vez. Ou seja: o que deveria ser uma agenda seletiva voltada para a região virou uma panaceia quase de Assembleia Constituinte. 

Contraposição dolorosa 

Fiz no artigo de fevereiro de 2013 uma contraposição entre a “Carta do Grande ABC”, escrita por lideranças daquele movimento, e a “Carta da Província do Grande ABC” -- preparada por mim 19 anos depois. Escrevi: “Saltamos de um pretendido estágio de cidadania regional para um consolidado desastre de anomia. A Brasília mais desavergonhada do futuro é a Província do Grande ABC do presente”. 

Lembrei naquele texto de 2013 que o documento original de 19 anos antes e a contrapartida que oferecia aos leitores seguiam a mesma linha enxuta, incisiva, provocativa e combativa. “A diferença é de contexto e de resultados. Naqueles meados de 1994, quando o Plano Real ganhava os primeiros passos de reformismo macroeconômico, estávamos cheios de expectativas. Hoje, ainda com o Plano Real a dar as cartas, apesar de gambiarras, a perspectiva é de escorregões no gelo do descaso com roupagem de novidades de um marketing ordinário” – escrevi. 

Lembrei também no artigo de quatro anos atrás (o qual os chefes de Executivo da região deveriam ler com muito interesse para tomarem conhecimento mais profundo dos acontecimentos que os antecederam) “que só quem viveu aqueles tempos (de 1994) e tem a graça divina de estar em condições de combate hoje (2013) conhece a exata dimensão do tamanho da montanha de esperança e do buraco de decepção entre a fita de larga e a reta de chegada da Carta do Grande ABC”. 

Pegando carona 

Outro aspecto que abordei na matéria de fevereiro de 2013 é que existia uma ressalva importante entre aqueles dois documentos, o oficial e o paralelo. “A Carta do Grande ABC foi elaborada sem minha participação. Cheguei oficialmente ao Fórum da Cidadania pouco depois do lançamento. Integrei-me ao movimento com cara e coragem, sem convite algum, a partir de distribuição de panfletos nas ruas de Santo André em defesa do voto regional nas eleições proporcionais previstas para aquele ano. Mais tarde participei ativamente e fui uma das primeiras vozes discordantes na instituição que pretendia fazer do conceito de consenso total armadura protetora às traquinagens. Tudo retratado em inúmeras matérias que redigi para a revista LivreMercado, criada por mim em 1990” – expliquei. 

Faço breve parêntese para dizer que escrevemos tanto sobre o Fórum da Cidadania ao longo, principalmente, da circulação da revista LivreMercado, durante quase duas décadas na região, que contamos com nada menos que 287 artigos nesta revista digital sobre aquela instituição. Isso mesmo: quase 300 artigos sobre o Fórum da Cidadania. Todos, rigorosamente todos, com viés de análise, de crítica, de tudo que fuja do simples noticiário fastfoodiano da quase totalidade dos textos que os leitores vão encontrar em outros veículos da Imprensa regional. 

Buraco contestado 

Voltando ao que mais interessa, abordei também naquele artigo de quatro anos atrás alguns aspectos da Carta do Grande ABC dos quais discordei. “Uma mistura contraditória de cirurgia sem anestesia nas críticas à classe política de então e umas palmadinhas de leve, se tanto, nos demais agentes da sociedade, sobressai naqueles parágrafos. Em determinados trechos (...), a tentativa de isentar entidades corporativas do processo de esvaziamento politico e econômico da região acabava desmoronando nos parágrafos seguintes. Mas nada disso, entretanto, por mais que se imantasse uma diferença abissal de estilo entre os responsáveis pela Carta do Grande ABC e este jornalista agora com a Carta da Província do Grande ABC, se consumou como um pecado capital a desclassificar aquele trabalho. Nada disso” – reiterei no material de fevereiro de 2013. 

Talvez, se me der na telha, escreva um dia desses uma nova versão da Carta da Província do Grande ABC, que se contraporia aos dois textos anteriores, de julho de 1994 e de fevereiro de 2013. Ainda não parei para reler com calma e mastigação mental aqueles documentos, um oficial e o outro oficioso. Possivelmente o faça um dia desses e decida levar adiante a proposta de nova versão, mais atualizada. 

Sei lá se há vários pontos a serem realmente atualizados ou se o que imperava há quatro anos segue valendo. Acho que não. Por via das dúvidas possivelmente vá em frente com nova análise. Certo mesmo é que em nenhuma das duas versões encontramos registros do estágio de depauperação completa da cidadania regional. Entenda-se por cidadania o bem mais precioso de uma comunidade: a capacidade de se organizar independentemente das forças econômicas e políticas para definir determinados pontos cardeais de politica públicas. 

Se em fevereiro de 2013 o título do artigo que escrevi fazia referência contundente à clandestinidade do parentesco com uma Brasília forçosamente mais transparente, acho que chegamos a um estágio em que o verbete “silenciosamente” se ajusta muito mais ao contexto. O que não deixa de ser uma baita contradição, porque vivemos intensamente o período mais fértil de participação digital da sociedade. E também, contraditoriamente, como lembrei ainda outro dia, perdemos muitos dos poucos laços regionais que estruturamos mal e porcamente. A agenda nacional repletíssima de escândalos de indignar toma quase todo o tempo do que restou dos inconformados locais. Bater em terceiros distantes sem se indispor com os mais próximos de biografias semelhantes é muito mais cômodo. 

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