Economia

Santaguita desativa fábrica
de ilusões de Milton Bigucci

  DANIEL LIMA - 30/05/2017

Está fechada a fábrica de ilusões estatísticas – ou simplesmente mentiras para enganar o distinto público – do Clube dos Construtores do Grande ABC, denunciada fartamente por este jornalista. Por conta disso e de outras verdades inconvenientes, fui sentenciado à prisão em processo liminarmente suspenso pelo Superior Tribunal de Justiça. 

Presidente da associação desde janeiro do ano passado, o engenheiro Marcus Santaguita vai enterrar oficialmente nos próximos dias mais um cadáver herdado do famigerado empresário Milton Bigucci, que durante 25 anos chefiou aquela organização. O caixão do setor de estatísticas do Clube dos Construtores será definitivamente lacrado e, com isso, deixará de causar horrores. Nada melhor para a tranquilidade e a segurança da sociedade consumidora de imóveis, ludibriada durante muitos anos por dados divulgados pelo controlador do grupo MBigucci. 

A informação que dá conta do enterro do setor de estatísticas não surpreende e será anunciada de forma diplomática nas próximas semanas por Marcus Santaguita. Uma fonte do Secovi, Sindicato da Habitação com sede na Capital garante que a pesquisa realizada oficialmente pela Embraesp, empresa privada especializada no assunto, será estendida oficialmente à Província do Grande ABC. 

Na verdade, esse ramal já constava da programação do Secovi. Entretanto, o que se passou ao longo dos tempos com Milton Bigucci à frente da Acigabc (como é conhecida oficialmente a entidade dos construtores, incorporadores e imobiliárias) foram manipulações e descartes de dados oficiais. As demais representações do Secovi no Estado de São Paulo utilizam pesquisas oficiais da Embraesp. Somente a entidade então dirigida por Milton Bigucci desgarrou-se da metodologia aplicada entre outras razões para anabolizar os dados, conforme denunciamos seguidamente.  

Perda de credibilidade 

O presidente Marcus Santaguita prefere não se manifestar. Dirigentes do Clube dos Construtores com acesso à informação oficial do Secovi asseguram que tudo já está resolvido. Eles evitam criticas ao antecessor. Milton Bigucci continua na diretoria da entidade, como presidente do Conselho Deliberativo. Mas, desde que se envolveu em escândalos denunciados pelo Ministério Público, rebaixando ainda mais a credibilidade daquela organização coletiva, tornou-se espécie de fardo ético. Grande empresário do setor na região, Milton Bigucci sofreu endêmico processo de desgaste na classe.

Desde que os dois assessores de Milton Bigucci no Clube dos Construtores que cuidavam dos dados estatísticos do mercado imobiliário na região foram demitidos pela diretoria presidida por Marcus Santaguita, dava-se como iminente a desativação de dados em favor das estatísticas do Secovi. Os dirigentes do Clube dos Construtores evitam exposição. É certo que as fraudes contribuíram para o afastamento de empresas do quadro de associados. Mais que isso: Bigucci tinha acesso privilegiado aos dados do Secovi na região. Fontes do Clube dos Construtores asseguram que os números eram metabolizados com direcionamentos específicos.  

Milton Bigucci foi apeado da presidência do Clube dos Construtores do Grande ABC em janeiro do ano passado. A entidade contabilizava apenas 30 associados -- a maioria de fornecedores dos empreendimentos do conglomerado MBigucci. Com Marcus Santaguita -- e apesar da maior crise imobiliária dos últimos 20 anos -- o número de associados foi multiplicado por quatro. 

Denúncias fundamentadas 

Revelamos muitas das fajutices estatísticas da entidade comandada por Milton Bigucci. Vejam o que escrevi em abril de 2016, quando a associação já era dirigida por Marcus Santaguita, que assumiu em janeiro: 

 Num texto que produzi em 11 de fevereiro último (“Lançamentos imobiliários caem 38,6% na Capital. E na Província?”), indaguei sobre a postura do novo presidente da entidade ao encarar as estatísticas fajutas de Milton Bigucci. Sugeri, inclusive, que Santaguita chamasse o ex-presidente para encarar a Imprensa quando do anúncio dos números finais do setor na temporada passada. Escrevi naquele artigo: “Até o terceiro trimestre de 2015, na ânsia de vender gato por lebre como dirigente de uma entidade que deveria se pautar pela seriedade de informações, Milton Bigucci declarou com entusiasmo típico de vendedor que os lançamentos imobiliários haviam apresentado crescimento de 8%, enquanto no mesmo período, na Capital, a baixa registrada era de 35%. Nada mais coerente em matéria de informação – partindo de quem partiu, claro – escrevi. 

 O que, então, se deu no anúncio de ontem à tarde do Clube dos Construtores do Grande ABC? Num processo doloroso de tentativa infrutífera de encaixe dos números na bitola do mercado metropolitano e nacional, sob pena de esculhambação geral da imagem da entidade num momento em que novos dirigentes dão novo ritmo à instituição, os lançamentos foram praticamente dizimados no quarto trimestre. Uma maneira de, na soma geral da temporada, os quatro trimestres, os dados não se distanciarem tão escandalosamente do eixo de credibilidade. Mesmo com essa artimanha, o resultado final da temporada passada nos lançamentos imobiliários da Província do Grande ABC foge da lógica econômica comparativa com a Capital. 

 Enquanto na cidade de São Paulo a queda de lançamentos no ano passado chegou a oficiais 37% (foram 33.955 em 2014 contra 21.445 no ano passado), na Província do Grande ABC a redução foi bem inferior, de 20,38% (de 5.077 em 2014 para 4.042 no ano passado).  Ou seja: mais dinâmico e resistente, porque não depende de uma atividade econômica específica, o total de lançamentos na Capital, sempre em confronto com o ano anterior, caiu praticamente o dobro em relação à Província do Grande ABC em larga escala sob os rigores do setor automotivo. 

 A realidade dos fatos é que Milton Bigucci deixou uma bomba de efeito retardado ao ser substituído no comando do Clube dos Construtores do Grande ABC no início deste ano. Os números específicos e gerais do comportamento do mercado imobiliário da região em 2015 são de inteira responsabilidade do ex-presidente. Como manipulou os dados, o acerto de contas não chegou ao encaixe pretendido. Isso só seria possível se o Clube dos Construtores admitisse falhas metodológicas ou -- num ato extremo -- delinquência ética durante o último ano da gestão de Milton Bigucci. Preferiu-se descartar as duas saídas. A primeira teria sido menos traumática. 

 Quem conhece a capacidade de persuasão do mercado imobiliário no imaginário da sociedade sabe que o número de lançamentos de apartamentos e salas comerciais propagado junto à mídia tem o poder de interferir nas relações econômicas. Encher a bola do mercado imobiliário em situações claramente problemáticas, como foi a temporada passada, é uma forma de enganar o distinto público. Mais lançamentos significam, por indução, mais dinamismo econômico, mais perspectiva de crescimento. Um engodo. O PIB brasileiro caiu 3,8% na temporada passada. O PIB da Província do Grande ABC teria caído mais de 10%.  O PIB brasileiro havia crescido mísero 0,5% em 2014. O PIB da Província vem perdendo espaço seguidamente. O mercado imobiliário submerge há quatro temporadas. 

 (...) Para tentar transformar falcatrua estatística em algo menos flagrantemente abusivo, os assessores técnicos do Clube dos Construtores, todos ligados a Milton Bigucci, prepararam patifaria estatística. O período mais fértil a lançamentos imobiliário, o último trimestre de cada ano, sofreu queda de 81% em relação ao trimestre imediatamente anterior. Foram lançadas na contabilidade fajuta apenas 256 unidades, ante 1.356 unidades no trimestre anterior (julho-agosto-setembro). Para se ter ideia do quanto a pedalada estatística de Milton Bigucci causou de estragos à nova direção do Clube dos Construtores, basta uma comparação com o número de lançamentos na Capital, confrontando o último trimestre do ano passado com o trimestre imediatamente anterior. Em São Paulo, foram lançados entre outubro, novembro e dezembro de 2015 nada menos que 8.150 imóveis verticais, contra 3.642 do trimestre julho-agosto-setembro. Uma diferença de 55%. 

 Sendo o mais didático possível: enquanto a manipulada pesquisa de Milton Bigucci acumulou no último trimestre do ano passado uma queda de 82% de lançamentos de imóveis verticais ante o trimestre anterior, a pesquisa do Secovi, produzida por uma empresa especializada, registrou crescimento de 55%, no mesmo período comparativo. 

 Para dar mais consistência ainda – como se fosse preciso – à sobrevivente incoerência de dados de lançamentos de apartamentos na região e na Capital, o balanço do Clube dos Construtores anunciado ontem registrou queda de 26% na venda de imóveis na temporada passada. Já na Capital do Estado, a queda foi bem menor, de 6,62%. O empresariado do setor na região seria estupido e suicida se num ambiente em que a desaceleração de vendas foi quatro vezes maior do que na vizinha Capital (26% ante 6,6%) reduzisse em menor proporção o numero de lançamentos (20,38% ante 37%).

Fora da queixa-crime despreza

Antes disso, publiquei em fevereiro de 2014 (a queixa-crime de Milton Bigucci contra este jornalista em nome do Clube dos Construtores por conta de matérias publicadas no primeiro semestre daquele ano não inseriu esse texto) uma análise que desmascarava as estatísticas divulgadas pelo então eterno presidente da entidade, sob o título “Bigucci repete balanço enganoso à frente do Clube dos Construtores”. Leiam os principais parágrafos: 

 Comandante há mais de duas décadas do desmoralizado e inoperante Clube dos Construtores e Incorporadores do Grande ABC, o empresário Milton Bigucci, velho conhecido de guerra de irregularidades no setor, reuniu a Imprensa para mais uma vez desfilar fantasias numéricas mal-ajambradas. O balanço do mercado imobiliário da Província do Grande ABC em 2013 é mais uma vez um amontoado de imprecisões, mistificações e vazios. (...) Atuando como agente de marketing que pretende fazer crer que o mercado imobiliário é um mar de rosas, como se micos não se espalhassem por todo o território regional, Milton Bigucci disse aos incautos que o setor apresentou o melhor resultado da história no ano passado.(...) A quantidade de imóveis comercializados pouco importa à compreensão de mais um capítulo que desmascara o empresário Milton Bigucci. 

 (...) O recorde divulgado por Milton Bigucci tem contorno e conteúdo de quem pouco se importa com a realidade dos fatos. Os 10.054 unidades vendidas no ano passado, sempre segundo o dirigente, seriam um número histórico porque superariam os anos anteriores. O que Milton Bigucci não disse porque não lhe interessa dizer é que quando iniciou o que chama de produção de dados estatísticos do mercado imobiliário da região (os quais não passam de embuste), tanto Diadema quanto Mauá não constavam dos estudos. E tampouco o programa popular Minha Casa, Minha Vida, que foge da proposta de mensurar o setor dentro dos conceitos de oferta e demanda convencionais. 

 Ora bolas, apenas a título de analogia: imagine o leitor que Santo André venha a ser anexada por São Bernardo como Município, e, um prefeito espertíssimo, de São Bernardo, saia a público para dizer que o PIB de São Bernardo quase dobrou em poucos anos. A comparação é aberrativamente simplória porque as estatísticas industrializadas por Milton Bigucci são aberrativamente simplórias. 

 (...) Mas quem pensa que Milton Bigucci patrocina essas patifarias informativas que mexem com o bolso da sociedade com a candura dos inocentes, não sabe da missa um terço. Tudo é deliberadamente preparado e repetido a cada temporada para anabolizar uma atividade que insiste em tentar bater recordes de valorização do metro quadrado, embora as condições macroeconômicas se apresentem como obstáculos. (...) O balanço do mercado imobiliário divulgado por Milton Bigucci também é manco, caolho e indecente como instrumento de informação porque não tem respaldo técnico e científico. Jamais Milton Bigucci abrirá as planilhas do comportamento do setor porque tudo é feito de improviso, num sistema de captação de dados que se divide entre a fragilidade metodológica e o esfarelamento estrutural. 

 (...) Já desafiamos o dirigente a tornar público o acervo que supostamente daria sustentação às pesquisas. Ele jamais respondeu ou responderá. A matéria-prima que instrumentaliza os encontros com a Imprensa carrega o vício do autoritarismo e do obscurantismo como elementos imprescindíveis à verborragia corporativista que ignora os interesses dos pobres consumidores de informação. 

Cantando a caçapa  

Em março de 2015 voltei a escrever sobre as estatísticas furadas anunciadas por Milton Bigucci. Leiam os principais trechos: 

 Se for considerada a margem de erro de três pontos percentuais para baixo e para cima (por que não posso reivindicar a medida?) acertei praticamente em cheio na Loteria Imobiliária de Milton Bigucci, presidente do Clube dos Especuladores Imobiliários do Grande ABC. (...) O empresário anunciou ontem à mídia regional os supostos resultados do mercado imobiliário da região na temporada passada. Deu 33,5% de queda em relação a 2013. Um pouco menos que os 35% da Capital. Acredite quem quiser. Apostei em redondos 30% de rebaixamento de vendas em relação à temporada anterior. Não se trata de número que acredite, mas de resultado que considerava ser a base da divulgação de Milton Bigucci. Uma tremenda diferença. Acredito que a queda foi por volta de 50%. 

 Até prova em contrário que há muito desafio apresentação, as pesquisas do Clube dos Especuladores Imobiliários são uma fraude que fortalecem a certeza de que não adotei uma nova nomenclatura à entidade por birra ou qualquer bobagem. (...). De qualquer modo, sabendo que estamos vigilantes, o dirigente classista teve o ímpeto de grandiloquência numérica contido. Em outros tempos Milton Bigucci sairia a campo para minimizar ainda mais os estragos macroeconômicos e microeconômicos sobre o mercado imobiliário regional. O passado o condena e me consagra. 

 No ano passado a queda de vendas de imóveis verticais novos na região foi muito maior que os 33,5% apontados pelo Clube dos Especuladores Imobiliários. É impossível sob qualquer ponto de vista econômico, exceto em situação de calamidade pública ou guerra civil localizada, que a grandiosa Capital vizinha exponha números mais elevados que os da região. Não somos Gata Borralheira e a Capital não é Cinderela por acaso. Nosso PIB desabou no ano passado (os números só sairão em dezembro de 2016) em proporções muito mais acentuadas do que o da Capital. 

 (...) Acertei no resultado final da Loteria Imobiliária de Milton Bigucci porque conheço essa peça da engenharia de triunfalismo e individualismo da região. Bigucci não dá ponto sem nó. Na hora em que veste trajes corporativos, não faltarão argumentos para tentar levar aos interessados a lógica transversa de que somos mais resistentes às sacolejadas da economia do que a Capital, por isso perdemos menos na venda de imóveis no ano passado e também em anos anteriores. Coisa típica de vendedor, não de liderança classista com responsabilidade social. 

 (...) O que salta dos números é que o dirigente Milton Bigucci não teve como esconder alguns dados que dão a dimensão do tamanho da encrenca imobiliária. Por exemplo: as construtoras diminuíram drasticamente o ritmo de produção no ano passado (imaginem então neste ano!). Foram 41,7% de queda (5.077 unidades em 2013 contra 2.760 em 2014). Como as vendas superaram os lançamentos (foram 6.680 unidades no ano passado contra 10.054 no ano anterior), o estoque foi reduzido em 34,3%. Apesar de o mercado imobiliário oferecer todos os contornos possíveis de que vive situação dramática não só na Província do Grande ABC mas principalmente na Província do Grande ABC, arrimo do setor automobilístico, o dirigente Milton Bigucci insistiu na coletiva de imprensa numa pregação ilusionista sobre a realidade do preço do metro quadrado médio na região. Existisse a Lei de Responsabilidade Informativa, Milton Bigucci seria duramente penalizado e quem sabe a Justiça o obrigaria a adquirir um determinado lote de imóveis ao preço sugerido por ele. Afinal, disse Bigucci que o metro quadrado em Santo André e São Bernardo está cotado entre R$ 5 mil e R$ 6 mil, enquanto em São Caetano fica entre R$ 7 mil e R$ 8 mil. Diadema e Mauá, outros municípios que constam da pesquisa, oscilam entre R$ 4,5 mil e R$ 5,5 mil. 

 A projeção do valor do metro quadrado é uma das manobras por quem quer levar no bico os potenciais compradores de imóveis. A simples enunciação dos valores sem correspondentes ponderações é um atentado. A média sugerida esconde fundas diferenças entre o mínimo e o máximo, de acordo com localização e o padrão dos imóveis. Não é por outra razão que os jornais de circulação nacional repassam semanalmente aos leitores tabelas completas desses valores levando-se em conta as nuances de cada bairro.

Dados desmentidos 

A resistência deste jornalista às fanfarronices estatísticas de Milton Bigucci no Clube dos Construtores do Grande ABC (daí a ofensiva dele no campo Judicial, onde é mais fácil vender a ideia de que é vítima de perseguição, não um delinquente estatístico) pode ser mais uma vez avaliada nos trechos que se seguem da análise que produzi em maio de 2012 sob o titulo “Manipulação de Bigucci não resiste a dados de financiamento imobiliário”. Leiam: 

 Carente de infraestrutura material e humana para dar sustentação e credibilidade a pesquisas que retratem o andar da carruagem do mercado imobiliário na Província do Grande ABC, Milton Bigucci, presidente da quase ficcional Associação dos Construtores, recorre a malabarismos, invencionices e mandraquismos para artificializar estatísticas. (...) Disse Milton Bigucci neste mês prestes a terminar -- e os jornais reproduziram suas declarações sem se darem o trabalho de checá-los -- que a Província do Grande ABC viveu intensa movimentação de vendas de imóveis novos no primeiro trimestre, em contraste com o mesmo trimestre do ano passado. O crescimento, vejam só, atingiu 26% em números de unidades. Mesmo se fosse verdade, não uma arrematada bobagem, o simples enunciado de venda de unidades, sem especificações detalhadas de metragem e de valores monetários, já deveria colocar a divulgação sob condicionalidades. Mas como se trata de besteira juramentada, a desclassificação veio de forma inapelável. Querem ver? 

 Não bastassem todos os indicadores econômicos, ou quase todos, que colocam o Brasil em situação delicada (daí a intervenção do governo Dilma Rousseff na tentativa de reanimar o mercado interno, que anda de lado e compromete o pretendido avanço do PIB em 4%, contra menos de 3% que já está no radar dos especialistas) o próprio mercado imobiliário nacional, em média muito melhor que o da Província, revela o quadro. Sabem os leitores quanto cresceu o mercado imobiliário nacional no primeiro trimestre deste ano (o mesmo primeiro trimestre onírico de Milton Bigucci) em relação ao primeiro trimestre do ano passado (o mesmo comparado por Milton Bigucci)? Exatamente 1%. Repito: exatamente 1%. Uma marca que se distancia quilometricamente dos 26% apontados por Milton Bigucci na Província do Grande ABC.  

 Somente se houvesse um fenômeno de efervescência econômica na Província seria possível acreditar em algo tão descomunalmente contrastante. Infelizmente, vivemos situação antagônica. O mercado automotivo patinou e patinou durante os quatro primeiros meses deste ano e exigiu intervenção do governo federal. Mesmo assim está longe do esperado. No mercado de veículos pesados a Mercedes-Benz, maior empregadora industrial da região, colocou 1,5 mil trabalhadores em descanso. Outras montadoras de ônibus e caminhões estão a pão e água. Quase sete mil vagas no setor industrial foram fechadas nos últimos cinco meses. A crise é latente. Com tudo isso e muito mais, Milton Bigucci aparece na praça para propagandear crescimento de 26% em unidades vendidas quando se compara o primeiro trimestre deste ano com igual período do ano passado. Uma afronta aos números nacionais que estão na edição de ontem do jornal Valor Econômico, numa matéria que recorre a dados da Abecip (Associação Brasileira das Empresas de Crédito Imobiliário e Poupança). 

 O balanço da Abecip envolve a soma de financiamentos do SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo) que atingiram R$ 17,6 bilhões no primeiro trimestre deste ano, e do FGTS (Fundo de Garantia de Tempo de Serviço) que atingiram R$ 8,5 bilhões. Os R$ 26,1 bilhões significam crescimento nominal, sem efeito inflacionário, de 10% sobre o primeiro trimestre do ano passado. Quando se aplica a inflação do período, cai para menos de 5%. Em unidades financiadas, ainda segundo a matéria do Valor Econômico, a alta no primeiro trimestre deste ano, sempre em relação ao mesmo período do ano passado, foi quase que um empate técnico: 234 mil ante 231 mil em 2011. 

 As algazarras numéricas e também semânticas controladas por Milton Bigucci são uma pauta permanente à crítica (...) por interferir diretamente no presente e no futuro de incautos que recorrem a financiamentos habitacionais de longevidade muitas vezes superior à própria existência física. A especulação imobiliária concentrada numa entidade sem representatividade de classe e também sem apetrechamento técnico-operacional é a extrema-unção institucional da Província do Grande ABC. Está na hora de reagir. 

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