Economia

Regionalismo metropolitano é
buraco sem fundo na Província

  DANIEL LIMA - 31/05/2017

O Diário do Grande ABC deu manchete no alto da primeira página e abriu manchete na página interna de Economia sobre o crescimento de vendas de micro e pequenas empresas em fevereiro, depois de 25 meses de queda. Os dados são do Sebrae. Pena que a realidade é outra, e consta da própria matéria, embora editorialmente minimizada. 

Os números das pequenas (e também microempresas) sediadas na Província do Grande ABC são escandalosamente inquietantes, a reboque da crise automotiva que dá sobretudo a São Bernardo ares de feriado prolongado que nunca termina. Aliás, poucos no setor público se dão conta disso -- a julgar pelas quinquilharias a que se dedicam no dia a dia. 

Pergunto aos leitores: qual seria a manchete de primeira página (no caso, este jornalista teria elevado o assunto à condição de manchetíssima, ou seja, manchete das manchetes) que escolheria? Preferiria a que foi impressa no Diário do Grande ABC ou a que eu proporia sem dúvida alguma?

Vamos às duas alternativas. Primeiro, a manchete destacadíssima no alto da primeira página que o Diário levou aos leitores: 

 “Faturamento das micro e pequenas empresas da região volta a crescer após 25 meses encolhendo”

Vamos agora ao título que eu daria à reportagem publicada: 

 “Faturamento de micro e pequenas empresas da região cai quase três vezes mais que média da metrópole”

A diferença entre os números se deve ao espaço de tempo escolhido. O Diário do Grande ABC optou pelo crescimento de fevereiro sobre janeiro deste ano. Preferiria o resultado de fevereiro deste ano confrontado com fevereiro do ano passado, ou seja, um intervalo de 12 meses. Muito mais confiável e seguro, para emitir eventual mensagem de realismo aos leitores. 

Fundamentando conceito 

Há 13 anos,  em março de 2004, preparei o que chamei de Planejamento Estratégico Editorial para o Diário do Grande ABC, antes de desembarcar naquela empresa para executar como diretor de Redação um plano reformista que poderia alçar a publicação a novos horizontes (como o fiz na revista LivreMercado). Coloquei a geoeconomia da Região Metropolitana de São Paulo como área imediatamente prioritária à concentração de esforços para dotar o jornal de poderes influenciadores na Província do Grande ABC. 

O que quero dizer com isso é que a percepção de regionalidade que defendo há milhares de ano e que se expressou naquele projeto segue adiante. Daí, talvez a melhor explicação à sugestão da manchete logo acima. 

Recorrendo ao passado

Recorro a alguns trechos daquele projeto para que os leitores não fiquem a ver navios sobre meus intentos editoriais de quase uma década e meia. Leiam: 

 Somos cidadãos metropolitanos em intensidade quase semelhante à de cidadãos do Grande ABC. As fronteiras locais são mais tênues que as demarcações metropolitanas. A migração diária de trabalhadores que se deslocam internamente entre os sete municípios é mais intensa que a observada em relação a movimentações em direção a outros territórios da metrópole, mas tem-se acentuado o universo de translados menos convencionais. Isso eleva a responsabilidade editorial de transmitir informações mais elásticas sem perder as raízes regionais. É preciso situar o morador do Grande ABC no contexto metropolitano. Explicar-lhe, por exemplo, a vantagem de uma mega-obra viária anunciada por São Bernardo. Ou a construção da Avenida Jacu-Pêssego. O que tanto uma quanto outra vão representar de alternativas de locomoção e também de geração de riquezas. 

 Há quase duas décadas atravessa parte de nossas fronteiras municipais uma escandalosa serpentina metropolitana, na forma do extenso trecho do sistema de trólebus, que começa na zona leste da Capital, cruza Santo André, São Bernardo e Diadema e desemboca na Capital. Um arco de integração, cujos reflexos sociais e econômicos jamais foram estudados. Quanto das demandas por educação e saúde públicas dos municípios atendidos pelo sistema de trólebus não teria sido adicionado pelas facilidades de transporte? 

 O que se pretende dizer é que o conceito de regionalidade é tão amplo, contundente e compulsório quanto escamoteador. Exige cuidados especiais para que não seja subvertido. O entendimento será proporcionalmente maior na medida em que se sufocar o simplismo decorrente da falta de informações sistêmicas. Um veículo de comunicação que pretende se posicionar em defesa do território em que atua — e se entenda posicionar em defesa como expressão que não comporta deformações interpretativas voltadas unilateralmente ao cor-de-rosa desavergonhado — deve saber distinguir o momento certo em que uma manchete ou uma foto de primeira página de um treinamento ou de um jogo do Santo André é mais importante que, em situação semelhante, o seria o noticiário envolvendo um dos grandes clubes da Capital. Ou mesmo que uma decisão de um campeonato varzeano com alguns milhares de expectadores tem maior peso que uma decisão da Copa Européia. 

 O conceito de regionalidade não pode perder de vista uma lógica operacional muitas vezes esquecida e que precisa ser reiterada para que determine o fim de ilusões e desperdícios: temos de extrair de nossos profissionais de comunicação o máximo de informação do território sobre o qual se debruçam cotidianamente. Pretender competir com os grandes jornais da Capital no noticiário nacional e internacional sem contar com a equivalência de recursos humanos e materiais disponíveis é dar um tiro no pé. Afinal, deixamos de explorar as peculiaridades de nosso território, onde vivem nossos leitores e assinantes ávidos por informações regionais qualificadas, e nos perdemos no tiroteio de uma competição desigual.

Território amplo e concorrencial 

Praticamente em nada alteraria o sentido de tudo que escrevi em março de 2004. E reitero: enquanto não houver compreensão da sociedade como um todo, mas particularmente dos mandachuvas e mandachuvinhas, de que estamos inseridos num amplo território de 39 municípios e oito mil quilômetros quadrados com mais de 20 milhões de habitantes, seguiremos nadando, nadando e morrendo na praia. 

Descuidar-se da regionalidade em primeiro lugar e desgrudar-se da metropolização em segundo lugar formam a narrativa de um suicídio. Temos de estar atentos ao nosso entorno. 

Como já cansamos de provar, o trecho oeste do Rodoanel Mário Covas, que chegou antes do trecho sul que passa tangencialmente pela Província do Grande ABC, nos estrangulou economicamente. E continuará a estrangular na medida em que não houver reformulação ambientalmente responsável no conceito que enfiou o trecho sul num envelopamento asfixiador da região. 

Por entender que o Rodoanel é peça-chave de equação de competitividade que vai muito além da logística, mas também é logística, enviei entre mais de duas dezenas de indagações ao prefeito de São Bernardo, Orlando Morando, uma questão que trata desse assunto. 

É algo desafiador ao ex-deputado estadual que atuou intensamente em favor da obra. Talvez Morando esteja encurralado. O Rodoanel contradize seus planos e está longe do necessário para a região sair do atoleiro econômico. Mas não há melhor remédio para combater os males do esvaziamento produtivo senão tocar em feridas. 

Regionalismo metropolizado 

É claro que a manchetíssima que sairia de minha cabeça para as páginas do Diário do Grande ABC, ao invés da manchete festiva e essencialmente provinciana adotada pelo jornal, seria resultado de processo de regionalismo metropolitano. 

Como essa cultura inexiste em qualquer publicação da região (aqui sempre damos conta do que se passa sobretudo na economia das regiões de Osasco e Guarulhos, principalmente por conta dos efeitos dos trechos do Rodoanel) o que temos para o almoço são dados manquitolas e imprecisos no sentido de expressar algo mais que o passo adiante do nariz, não no horizonte mais amplo. 

A crise econômica na Província do Grande ABC, explicitada nos números das micro e pequenas empresas, é muito mais grave do que em qualquer outro território do Estado de São Paulo. O macunaísmo generalizado de sentar na calçada à espera do milagre da recomposição das montadoras de veículos é parte dos efeitos de nossa Doença Holandesa Automotiva. Estamos fadados a chorar mais e mais, com intervalos breves de ciclos de crescimento. Somos perspectivamente um Brasil piorado, muito piorado. 

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