Imprensa

Jornalismo analítico é melhor
resposta a Orlando Morando

  DANIEL LIMA - 13/06/2017

Prometi aos leitores que a partir de hoje, terça-feira, iniciaria análise da (agora posso dizer sem contaminar a opinião dos leitores) decepcionante Entrevista Especial com a principal autoridade do setor público municipal da Província do Grande ABC. O prefeito de São Bernardo, Orlando Morando, produziu as piores respostas de “Entrevista Especial”, em quase 30 anos de LivreMercado/CapitalSocial. 

A Entrevista Especial deve ser consumida com cuidado. Só assim será possível entender a intervenção deste jornalista. Orlando Morando parece estar mais aparelhado a medidas espetaculosas, as quais chamo de quinquilharias sociais, importantes mas insuficientes para mudar o rumo de São Bernardo e da região. Quase todo santo dia ganha destaque nos jornais locais. E de vez em quando também em publicações fora do eixo regional. Como é o caso agora, de providenciar a remoção de tatuagem na testa de um morador de São Bernardo violentado por dois marginais. Medidas efetivas no campo institucional e, principalmente, econômico, não aparecem nem como balão de ensaio. 

O resumo da ópera é que a Entrevista Especial foi arrasadora e histórica, como vou explicar mais adiante. Orlando Morando construiu um arrazoado inquestionável ao chamamento compulsório do jornalismo associado ao interesse público. A liberdade de opinião característica desta revista digital sai fortalecidíssima. Afinal, Morando foi uma combinação de reticente, impreciso e descuidado ao longo da entrevista. Caso específico de enfatizar que não reconhece a denominação “Clube dos Prefeitos”, adotada por CapitalSocial há muitos anos. Mostraremos nos próximos dias que Morando subestimou o próprio passado.   

Entre dois modelos 

Decidi adiar para a edição de amanhã a análise prometida para hoje. Os leitores vão compreender. E provavelmente vão aprovar. A mudança se deve às ponderações sobre os insumos expostos por Orlando Morando. 

Contava com duas alternativas para repassar aos leitores sobre a Entrevista Especial. Acho que já me decidi, mas como temos franqueza de relacionamento com o público, não posso deixar de expor as duas posições. 

A primeira seria a abordagem de cada resposta do prefeito de São Bernardo e prefeito dos prefeitos da região. A tarefa seria desmembrada em várias edições, quatro ou cinco, já que o material que prepararei não pode ser superficial, sob pena de assemelhar-se ao do prefeito. 

A segunda seria travestir este jornalista de Orlando Morando. Vou explicar: como as respostas ficaram a quilômetros de distância de minha expectativa (e muito provavelmente da dos leitores em geral), assumiria identidade do prefeito de São Bernardo. Responderia a mim mesmo, ou seja, à revista CapitalSocial. 

Escolha decidida 

Pensei bem sobre essa bifurcação editorial. Não nego que a segunda me entusiasma mais. Já imaginaram responder conforme minhas convicções e visões no lugar reservado (e ocupado modestamente) por Orlando Morando? Do ponto de vista de sensacionalismo (no bom sentido do termo) seria um fato histórico, não é verdade? Ou os leitores já viram em algum lugar o próprio entrevistador responder a uma entrevista em nome de terceiro? 

Entretanto e pensando bem, não vou entrar nessa canoa que não é furada, mas poderia ser considerada desrespeitosa. Por isso, está decidido: vou oferecer em meu nome o contraponto oficial a cada resposta de Orlando Morando. 

Quando escrevo contraponto quero dizer que, salvo apressamento, em todas as intervenções do prefeito de São Bernardo entendi ter havido escassez de conteúdo. E, sobretudo de comprometimento com o futuro da região.

Arrasadora e histórica 

A Entrevista Especial com Orlando Morando é arrasadora e histórica para o jornalismo que tanto gostaria de ver disseminado na região. Trata-se de prova provada de que não se pode deixar a exposição do cenário regional, presente, passado ou futuro, aos mais interessados em marcar impressões digitais. 

Por melhores respostas que eventualmente tenham – e esse não foi o caso de Orlando Morando, muito pelo contrário – a intervenção crítica, analítica e independente é fundamental. Vivemos há muito tempo, embora poucos percebam, contexto em que mais que informar é preciso decodificar as informações que chegam aos leitores em estado bruto, quando não calculadamente viciadas. 

Lamentavelmente, encontramos na Imprensa verde e amarela distanciamento suicida entre a carga de realidade postiça de entrevistados importantes mas como visões comprometidas com os próprios interesses e a omissão dos veículos de comunicação que os colocam em contato com a sociedade. 

Jornalismo sem futuro

Esse tipo de jornalismo-avestruz está condenadíssimo ao desprezo, como mostram estatísticas nacionais de credibilidade dos jornais. E olhem que esse termômetro tem os principais veículos como modelos de avaliação. Pesquisas sobre publicações regionais na esteira dos desígnios dos donos dos paços municipais seriam catastróficas. Há muita confusão entre consumo de informações impressas e qualidade de informações impressas. 

Traduzindo, quero dizer e estou dizendo sem subterfúgios semânticos que a Entrevista Especial com Orlando Morando deveria ser um divisor de águas aos leitores de todos os veículos de comunicação da região, bem como aos meios eletrônicos: é preciso contrapor-se com conhecimento e sem temor aos conteúdos daqueles que ocupam o topo da hierarquia pública. Deixá-los, como se deixa, à vontade para jogar um jogo mais que previamente combinado não é prática que atenda ao interesse público. 

A atenção e o desvelo com que fui recebido no principal gabinete do Paço Municipal de São Bernardo pelo prefeito Orlando Morando revelam que o tucano é bem mais diplomático que o antecessor Luiz Marinho. Uma vantagem e tanto quando se considera a importância de compreender as relações entre autoridades públicas e imprensa. 

Entretanto, o suspense que fiz em mensagens eletrônicas e mesmo nesta revista digital nos dias que antecederam a publicação da matéria, considerando-a “histórica e arrasadora” provavelmente alimentou expectativa favorável do entrevistado.  Não seria este jornalista justo com o leitorado. Converter a frustração em vitória do jornalismo com responsabilidade social foi a saída que encontrei para dirigir-me também com diplomacia ao prefeito de São Bernardo, o qual tem todo o direito de responder como bem quiser. Da mesma forma que o jornalismo tem todo o direito, além de obrigação, de esclarecer a sociedade. 

Então ficamos assim: amanhã apresentaremos o primeiro capítulo da contra-argumentação a Orlando Morando. Começaremos com o trecho sul do Rodoanel. Dá para tomar alguma coisa antes? 

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