Regionalidade

Prefeitos querem que Brasília
melhore Província paradisíaca

  DANIEL LIMA - 29/06/2017

O Clube dos Prefeitos inaugurou ontem em Brasília a chamada Casa do Grande ABC. O anúncio promocional em página inteira do Diário do Grande ABC de ontem (salvo engano, o jornal esqueceu na mesma edição de matéria a respeito do evento, após a manchetíssima da edição de domingo) é algo que poderia ser chamado de farsa delirante. Até porque, não fosse a propaganda enganosa que transformou em Paraíso a inquietante Província do Grande ABC, não haveria motivos para montar um escritório de lobby político-partidário na Capital Federal de todos os escândalos. 

Pensando bem, Província e Paraíso jamais se completarão, porque são ostensivamente antagônicos. Província combina mais com Patetice. Que se dane o arranjo fonético. Basta o arranjo político sem visão de longo prazo. Caso específico da essência de solteirice tática da Casa do Grande ABC. Falta o agregado de valor daquilo que estamos cansados de alertar, óbvio ululante de todos os especialistas em desenvolvimento econômico. Claro que estou falando a Economia. É a Economia, idiotas!  

A propaganda enganosa

Para que o leitor entenda o que tenho a dizer e por isso mesmo não se apresse em afirmar que sou derrotista -- porque esse é o mote dos vagabundos de plantão que querem continuar a enganar o distinto público, embora apanhem para valer há muitos anos -- vou reproduzir tanto o título do anúncio, em letras garrafais, quanto o enunciado que se seguiu, em letras discretas: 

 BRASÍLIA VAI CONHECER A REGIÃO DO BRASIL QUE DÁ CERTO. O Grande ABC nasceu com a vocação pra ser grande, por isso está abrindo uma sucursal na capital federal Brasília. Vamos mostrar para o Brasil que o ABC é o melhor lugar para se investir e gerar empregos, não apenas porque temos uma das melhores mãos de obra do País, mais do que isso, temos um povo feliz e trabalhador, temos grandes oportunidades de investimentos, temos o 4º maior PIB do Brasil, temos um dos cinco maiores mercados de consumo do País, temos um polo industrial como poucos no mundo, temos um sistema de logística e um modal de transporte fantásticos e temos, principalmente, a vontade e a força necessárias para crescer. Por tudo isso, estamos expandindo e abrindo uma base em Brasília, para que todo o País veja o potencial do Grande ABC e invista na região do Brasil que dá certo.

A propaganda criteriosa 

Feita a reprodução do anúncio institucional do Clube dos Prefeitos, também conhecido e pouco entendido como Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, veja o que este jornalista reservaria àquela página de publicidade caso fosse chamado a resumir a ópera regional: 

 BRASÍLIA VAI CONHECER A REGIÃO DO BRASIL QUE DEIXOU DE DAR CERTO. O Grande ABC nasceu com vocação pra ser grande, mas como se perdeu nas brumas do tempo pela arrogância e pela preguiça, está abrindo um escritório de lobby político-partidário na capital federal Brasília. Vamos mostrar como a Província do Grande ABC conseguiu perder o trem da história econômica e com isso gera a cada temporada uma população que não acompanha o ritmo já frouxo da mobilidade social do Brasil. Nossa mão de obra já foi das melhores, mas a cultura sindical atravancou o crescimento e muitas empresas escafederam-se. Temos um povo teimosamente alheio às nuances econômicas e políticas, vitima do Complexo de Gata Borralheira, que é o custo elevado de morar ao lado da maior Capital da América Latina. Aqui os investimentos privados rareiam e os investimentos públicos são anunciados e raramente concretizados. Já fomos o terceiro mercado de consumo do País mas se contarem todas as áreas assemelhadas, ou conurbadas, caímos pelas tabelas. Perdemos para a Grande Campinas, para Guarulhos-Osasco-Barueri na Grande São Paulo. Sem falar da Grande Porto Alegre, da Grande Salvador e de tantas outras geografias entrelaçadas. Temos um sistema de logística que lembra um labirinto, com o Rodoanel e a Imigrantes, sem contar a Anchieta, a levar riquezas industriais para municípios mais competitivos quando o conceito de competitividade entra em campo. Por tudo isso e muito mais estamos trocando os pés pelas mãos e, ao invés de investir na contratação de uma consultoria especializada em concorrência econômica entre regiões, decidimos ancorar nosso barco furado na Capital da delinquência porque entendemos que algumas migalhas orçamentárias hão de desembarcar na nossa região.

Seletividade festeira 

Sei que não é politicamente correto, segundo retrógrados de plantão, parodiar a peça publicitária do Clube dos Prefeitos. Mas que reação o leitor gostaria que se adotasse quando se sabe que a prática da crítica é o último reduto no qual se espera o resguardo da realidade dos fatos?

Vou ser ainda mais incisivo: quem tem um mínimo de responsabilidade social não poderia conceber a ideia-chave que norteou a comunicação oficial do Clube dos Prefeitos para anunciar a chegada da casa de lobby em Brasília. Agora, quando se sabe que aquela organização coletiva conta com sete prefeitos (ou seis, porque o titular do Paço de Diadema, Lauro Michels, deu um jeito de fugir da raia) é inacreditável que o tom festivo, falsificador da verdade, embusteiro para ser mais preciso, tenha sido oficializado.

É claro que a versão ácida que sugeri logo acima -- e que não passa mesmo de um resumo do resumo do resumo de tudo que já escrevi sobre a economia da Província do Grande ABC -- não caberia numa peça publicitária-institucional do Clube dos Prefeitos para comunicar a chegada à Capital Federal. Trata-se, evidentemente, de um deboche, vamos dizer assim, à altura do deboche original, do anúncio veiculado para valer.

Anúncio desrespeitoso

O que quero dizer é que havia uma alternativa menos desrespeitosa em relação ao sofrimento da sociedade regional que vive dias seguidos de férias coletivas, tal o estado de anomia da economia. Bastaria aos responsáveis olharem em volta, saírem às ruas e interpretarem sem mistificações o que temos para o almoço e o jantar depois de anos seguidos de impactos negativos de um País à deriva.

Fosse a Província do Grande ABC tudo aquilo que aquela página de publicidade evoca, não haveria motivo algum de o Clube dos Prefeitos deslocar baterias supostamente estratégicas em direção a Brasília. As migalhas que possivelmente serão distribuídas e certamente festejadas como um gol em final de Copa do Mundo não fariam diferença alguma.

Além do Complexo de Gata Borralheira, estamos nos especializando também em outra deformidade – a Síndrome de Avestruz. A diferença é que o gataboralheirismo é uma enfermidade coletiva, generalizada, enquanto a outra é seletiva, circunscrita aos donos do poder municipal.

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