Regionalidade

Quando regionalidade vira
motivo de constrangimento

  DANIEL LIMA - 03/07/2017

Ao receber um vídeo em aplicativo de celular na tarde de sexta-feira, cuja mensagem é uma associação de descalabro e oportunismo, lembrei-me do único almoço com o prefeito Celso Daniel ao longo dos tempos. Foi naquele segundo semestre de 2001 (portanto pouco tempo antes do assassinato do petista) no Restaurante Baby Beef Jardim. O prato do dia mais importante do encontro era o encaixe da regionalidade em tudo que pudesse significar produtividade, competividade e equilíbrio social. 

Antes, entretanto, de seguir com o breve relato do que a memória consegue puxar daquele almoço, volto à origem motivacional deste texto, o descalabro e o oportunismo cabem ao secretário-geral do Clube dos Prefeitos do Grande ABC, Fabio Palacio, ex-vereador e candidato derrotado a prefeito de São Caetano nas últimas eleições. 

Ao declarar de forma quase debochada algo que claramente o move no cargo  (“É o discurso da regionalidade”), o escolhido por Orlando Morando teria assinado um atestado de óbito eleitoral e funcional se aquela instituição fosse algo mais representativo da sociedade. O efeito do vazamento do audiovisual nos meios eletrônicos foi vexatório. O diálogo era uma espécie de esquenta da entrevista oficial. 

Deslize memorável 

Fabio Palácio pronunciou a declaração mais comprometedora desta temporada em complemento à lembrança do entrevistador de que a função que passara a ocupar lhe seria bastante vantajosa à disputa eleitoral a deputado na próxima temporada.

Estavam eles, entrevistador e entrevistado, no hotel do lançamento oficial da Casa do Grande ABC, ponta-de-lança dos tucanos em Brasília, de onde se pretende capturar recursos federais para catapultar interesses político-eleitorais às próximas temporadas. Nada que esses interesses por emendas e tantos outros mecanismos de obtenção de recursos financeiros do Estado não sejam legítimos, dentro da regra do jogo por ocupação de espaço territorial. Desde que não sejam armas que descartem a ética. Aliás, já alertei aqui sobre a imensa possibilidade de utilização de migalhas federais para retumbantes peças de marketing. 

O ensaio geral dessa operação foi posto logo de cara, com aquele anúncio do Clube dos Prefeitos em página inteira do Diário do Grande ABC. Vendeu-se um "Grande ABC Maravilha" em contradição à própria incursão ao Planalto Central. É verdade que não nos apresentamos na Capital Federal como um Exército de Brancaleone. Não faltou certo requinte na festa de lançamento da Casa do Grande ABC. Nem teria cabimento faltar. O cartão de apresentação, ou seja, aquele anúncio, exigia postura coerente.  

Sem ônus 

É claro que nada custará a Fabio Palacio a patetice em grande estilo. Se custar alguma coisa, como deveria, os tucanos minimizariam o desgaste político e ético da operação tabajara. Palácio teria exibido a cara e o corpo inteiro do projeto político-partidário da agremiação hoje hegemônica nas prefeituras da região ou "o discurso da regionalidade", no sentido mais dolosamente pragmático que se pode inferir, não é o pensamento das lideranças da agremiação na região?

Palacio agrediu o sentido doutrinário de regionalidade tão caro a este jornalista e a esta publicação. Tanto que nossa nova marca identificatória no alto da página é “regionalismo sem partidarismo”. 

Voltando ao almoço

Ao escrever que sou o único moicano do regionalismo desta Província, possivelmente serei precipitadamente julgado por leitores que me considerarão empavonado. Não é bem assim. Apenas retrato uma realidade exposta por Celso Daniel naquele almoço de começo de século. 

Sempre preocupado com o futuro da região e com uma coleção de provas materiais e testemunhais de que seus olhos e mente estavam ligadíssimos no conjunto dos municípios locais, Celso Daniel disse naquele almoço de 2001 -- lembrando na abertura deste artigo -- algo que me surpreendeu não necessariamente pelo conteúdo, mas por ser justamente ele a dizer: “Enquanto eu, você o Alexandre Polesi estivermos aqui, a regionalidade vai avançar”. 

Explicando: quem disse a frase que me deixou encabulado, porque veio justamente de quem veio, fora o criador do Clube dos Prefeitos, da Agência de Desenvolvimento Econômico e da Câmara Regional. Um gestor público comprovadamente inquieto com essa porção provinciana da Região Metropolitana de São Paulo. 

À época era este jornalista comandante editorial da revista LivreMercado, a qual criei no primeiro trimestre de 1990 – portanto, antes mesmo do Clube dos Prefeitos, sob a influência da queda do Muro de Berlim. 

O jornalista Alexandre Polesi era de fato o titular da Redação do Diário do Grande ABC, responsável juntamente com o executivo daquela empresa, Wilson Ambrósio da Silva, além de outros nomes cujas identidades não arriscaria a dizer, pela criação do Fórum da Cidadania do Grande ABC. 

Não custa lembrar que o Fórum foi o maior movimento institucional da história da região. Até que se desmilinguiu sob o peso de um gigantismo incontrolável de propostas que geraram uma das piores enfermidades de organização assemelhadas – a dispersão e a vocação de tentar salvar o mundo. A saída de Alexandre Polesi da direção editorial do Diário do Grande ABC, quando se rompeu a sociedade com os Dottos, anos após o assassinato de Celso Daniel, desfalcou ainda mais o triunvirato. 

Sem massa crítica 

Sigo teimosamente em meu canto. Os bons combatentes dos anos 1990 e começo dos anos 2000 praticamente penduraram as chuteiras da regionalidade. Mais de oitentão, Wilson Ambrósio da Silva segue desafiando o tempo à frente do Clube Atlético Aramaçan, entre outras atividades. Um exemplo a ser seguido. Fausto Cestari e tantos outros nomes também submergiram, embora ativíssimos nas respectivas atividades institucionais. Mas não temos nem sombra da massa crítica que fermentou aquele movimento, quando a influência do Diário do Grande ABC era muito maior. 

Até porque, após Alexandre Polesi, o jornal jamais investiu tanto em profissionais qualificados na redação. Naquele período, o jornal só cometeu o equívoco de insistir no tom quase sempre festivo na linha editorial, embora a realidade regional já fosse inquietante. Como provava o Fórum da Cidadania. 

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