Regionalidade

Passado prova: tática do Clube
dos Prefeitos fracassará de novo

  DANIEL LIMA - 05/07/2017

Não adianta tentar tapar o sol das dificuldades estruturais com a peneira de um marketing rastaquera circunstancial: a tática adotada pelo Clube dos Prefeitos de instalar a chamada Casa do Grande ABC em Brasília é um tiro que vai sair novamente pela culatra. É claro que esse raciocínio fundamenta-se na responsabilidade social de encaixar a perspectiva de desferir pontapé bem dado no passado de enrolações que, metabolizadas, agudizariam o estado degenerativo da economia regional. 

Se a finalidade do Clube dos Prefeitos for puramente o trololó do “discurso da regionalidade”, como confessou inadvertidamente o secretário-executivo da entidade, Fabio Palacio, são outros quinhentos. Até porque não faltarão mídias a bater palmas para malucos supostamente gestores. 

O anúncio de página inteira no Diário do Grande ABC em forma de porta-estandarte, que levou a Província do Grande ABC ao estrelato nacional em competitividade, resumiu as pretensões edulcoradas. 

Notaram os leitores que utilizei o verbete “tática” e não “estratégia” para definir o que está posto pelo Clube dos Prefeitos com o lobby instalado em Brasília? Tática diz respeito a algo específico, como vencer uma batalha. Estratégia se refere a algo mais grandioso, mais duradouro, como uma guerra. 

Os jornalistas esportivos sempre confundiram táticos com estrategistas. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, embora um mesmo treinador possa ser especialista nas duas coisas. Fábio Carille, técnico do Corinthians, trocou um volante desnecessário por um meia-atacante habilidoso no segundo tempo do jogo com o Botafogo -- e massacrou o adversário. Isso é tática. Estratégia é o plano de jogo para a temporada, com um time sem estrelas. Estratégia de bom estrategista, com perdão da redundância, não descarta alteração de rota durante o percurso – sem cometimento de suicídios táticos.  

Economia desmilinguida 

O Clube dos Prefeitos é um time de uma tática econômica fragilíssima que se associa a uma também tática político-partidária pronta a se dissolver na medida em que os resultados se confirmarem medíocres ante a demanda exacerbada de uma região em transe. Em termos estratégicos talvez o único vestígio se restrinja mesmo ao campo eleitoral. Um direito dos prefeitos de plantão, esmagadoramente azuis e assemelhados. Diferentemente dos antecessores, vermelhos em todos os sentidos ou com alguns tons conciliatórios. 

Passado como advertência

Os mal informados, os desatentos, os ignorantes e os que adoram flertar com a maledicência me acusam nos bastidores de estar manifestando má-vontade com o Clube dos Prefeitos. São bandos de indecentes e desmemoriados, quando não alienígenas regionais. Querem uma prova contundente disso?

Aleatoriamente busquei no acervo desta revista digital algo que me remetesse a um passado suficientemente distante para provar que a linha de coerência regionalista deste profissional não é montanha-russa monitorada por circunstâncias específicas como mais se identifica na Imprensa de maneira geral. 

Temos engatilhadas na memória cláusulas pétreas do que esperamos ver no futuro da Província do Grande ABC que jamais nos deixarão bandear a posições de ocasião. A maior facilidade de manter a coerência é carregar o peso da responsabilidade de não mentir, de não sofismar, de não tentar enganar o distinto público -- pérolas de credibilidades nestes tempos em que até ex-presidente do Supremo Tribunal Federal sai publicamente em defesa de um presidente que recebe bandido social na calada da noite no Jaburu. 

Diretamente aos exemplos 

Para encurtar a história e mostrar aos leitores que o que escrevemos nesta temporada não é nada diferente do que, por exemplo, escrevemos na revista LivreMercado naquele outubro de 2003 (portanto há quase14 anos) está no artigo “Migalhas não interessam: buraco é bem mais embaixo”. Leiam alguns trechos emblemáticos, aos quais os titulares do Clube dos Prefeitos deveriam ter acesso e o secretário-executivo Fabio Palacio, o mensageiro do regionalismo pós-verdade, tomar como exemplo do que o futuro lhe reserva. Convém lembrar que naquele outubro de 2003 o PT de Lula da Silva, recém-eleito, e o PT na Província, dominador, davam as cartas e jogavam de mão após um (regionalmente falando) desastroso governo de Fernando Henrique Cardoso: 

 O Complexo de Gata Borralheira e as Meias Verdades que historicamente conduzem os passos de tartaruga institucional desta República Republiqueta formam a gênese de nossos problemas. Deitamos e rolamos na arte de nos contentar com ninharias de repasses orçamentários dos governos do Estado e Federal. Adoçam nossa boquinha provinciana com guloseimas do estrabismo individualista de deputados, de bancadas partidárias ou regionais, enquanto o que nos atinge de fato é a fome de investimentos estruturalmente direcionados a mudar o rumo dos acontecimentos econômicos e sociais.

 Somos uma instituição sem capacidade crítica nem analítica. Deixamo-nos levar pelo barco à deriva da pontualidade frágil de projetos sem consistência enraizadora e disseminadora de riquezas coletivas. Somos balões de ar comprimido que escapam facilmente das mãos inábeis de quem prefere mesmo shows temporais de pirotecnia verbal. 

 A contratação de bandas, fanfarras e orquestras triunfalistas para recepcionar possíveis embora sempre tardios repasses de dinheiro estaduais e federais ao Grande ABC é estupidez em forma de rodas-gigantes cujos protagonistas mudam com o tempo, mas a coreografia é incansavelmente a mesma. 

 A espécie de prostração que tomou conta de determinados redutos só porque o governo federal não tem dado atendimento ao Grande ABC, num total de 23 emendas aprovadas no Orçamento da União de 2003, não passa de erro de cálculo de amadores em barracas de tiro ao alvo da superficialidade. O fato de nenhum centavo ter sido liberado até agora -- de um total miseravelmente vexatório de R$ 4,440 milhões -- não deveria ser lamentado com tanta ênfase. Paradoxalmente, o atendimento desses valores seria muito mais danoso aos pressupostos do que chamamos de Lulacá, Urgente! do que propriamente a não liberação de recursos. 

 (...) Preocupados com biografias políticas, sempre de olho nas próximas eleições, deputados não se dão conta de que a equação que extratifica o reerguimento socioeconômico do Grande ABC está a léguas de distância de suas paixões individuais aos próximos pleitos. 

 (...) Pelo andar da carruagem, é mais que provável que esse distanciamento das próprias raízes regionais que o embalou em direção ao mundo demarque a trajetória de Lula da Silva e de tantos outros petistas que fizeram carreira na região. A impressão que se retira dessa situação é a mais comum e previsível quando se envolve individualidade: a inquietação generalizada de todos que daqui partiram em direção a voos nacionais está consolidadamente marcada pelo interesse próprio e, em segundo plano, pelo corporativismo profissional e político-partidário. Questões regionais abrangentes, extra-partidárias, extra-corporações, que se lixem. 

 (...) A importância do Grande ABC ao equilíbrio da Região Metropolitana de São Paulo, a área mais degradada no País na última década, exige muito mais que simples penduricalhos de repasses de ocasião que mal tapam os buracos pontuais de algumas áreas. A responsabilidade social de governar é uma obra conjunta das esferas federal, estadual,  regional e municipal, mas, infelizmente, pelas razões expostas, preferimos o jogo de cena de comemorações ou lamentações frágeis. 

 Enquanto perdurar esse chove-não-molha de fingimentos e individualidades, dessa mesquinharia típica, mais e mais vai aumentar o poço que separa o Grande ABC fomentador de mobilidade social dos tempos de industrialização desorganizada mas geradora de riqueza e o Grande ABC patrocinador de espetáculos circenses de péssimo gosto. 

 Já se foi o tempo em que se podia mascarar a realidade com frases feitas, com slogans, com manipulações. Quando a instabilidade socioeconômica bate na bunda -- e são poucos que não estão sentido a água fria do banho de incompetência em que o governo FHC nos meteu --, todos aqueles que pretenderem se antepor à gravidade do quadro provavelmente merecerão a vestimenta característica dos donos do picadeiro -- sem, entretanto, ter o menor talento para o sucesso que só quem é mesmo da arte é capaz de garantir. 

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