Regionalidade

Sai Província do Grande ABC;
entra Província dos Sete Anões

  DANIEL LIMA - 06/07/2017

A partir desta data, Província do Grande ABC não existe mais nesta revista digital quando se tratar de tudo que se refere a essa região de sete municípios e quase três milhões de habitantes. No passado, tratamos esta área geográfica de “Grande ABC” por força de muitos anos de atuação no jornal Diário do Grande ABC.  Mais no passado ainda, outros diziam essa coisa horrorosa de Região do ABCDMRPRGS. A Imprensa paulistana prefere ABC Paulista. Menos mal. 

Pois o novo batismo é ainda mais ousado, mais atrevido, mais verdadeiro e mais complexo do que Província do Grande ABC. Em homenagem à institucionalidade em farrapos que vem de longe, sobretudo agravada com a morte do prefeito Celso Daniel, nada melhor que a denominação “Província dos Sete Anões”. 

Somente os textos referentes à Editoria de Esportes seguirão excluídos dessa definição editorial. Reconheço as enormes dificuldades de manter, principalmente, o futebol profissional na região, sobrecarregadíssimo pela concorrência dos grandes clubes que os remetem ao quase ostracismo. 

Não pensem os leitores que meu atrevimento crítico que, acredito, está em passo e compasso com a maioria dos cidadãos da região, esgota-se na nova denominação que será permanente enquanto a institucionalidade regional for o que tem sido faz tempo -- ou seja, um galpão de quinquilharias à espera que alguém bote fogo para valer, ao invés de se perpetuarem mecanismos procrastinatórios, quando não enganadores. Como é o caso da atual gestão do Clube dos Prefeitos de táticas desdenhadoras de estratégias. 

Nominando os anões municipais 

Além de Província dos Sete Anões, vou nominar cada um dos sete municípios que a integram. Já escolhi as respectivas identidades. Inicialmente pretendia rebocar um por um todos os nomes com que se fizeram conhecidos na literatura infantil os sete anões nos quais me inspirei. Mudei de ideia. A Província dos Sete Anões merece subidentidades próprias, adequadas ao perfil geoeconômico e social dos municípios.

O que pergunto é se os leitores vão conseguir, diante da relação metafórica que vou apresentar em seguida, reconhecer quem é quem nesse jogo de identidades paralelas? Vamos expor os novos nomes dos integrantes municipais da Província dos Sete Anões. 

Antes, lembro que me fundamentei no histórico coletivo de cada um desses endereços para definir a nova marca. Mas não vou tratar, neste texto, de detalhes, de minúcias, de aprofundamento, por assim dizer, de explicações que me conduziram às respectivas nominações. 

Vamos então, senhoras e senhores, conhecer a Província dos Sete Anões. Vejam a relação e procurem descobrir quem é quem. Só na edição de amanhã vou correlacionar as respectivas marcas aos municípios que as inspiraram:

1. Poderoso

2. Solitário

3. Rebelde

4. Presunçoso

5. Charmoso

6. Displicente

7. Negligente

Façam esforço de memória, de conhecimento, de sarcasmo, de safadeza, por que não? Tentem. Quero ver quem mais acerta. Diante de cada anão municipal coloque o respectivo nome da cidade que supostamente caberia como luva em termos de correspondência identificatória. 

Uma escolha dolorosa 

Não pensem os leitores que faço com satisfação essa nova incursão jornalística muito mais séria, responsável e comprometida com o interesse público do que imaginam os perdulários institucionais. 

Havia muito tempo pretendia encaixar nova marca regional. Província do Grande ABC me incomodava. No fundo, passou a representar, por fadiga de material institucional, a junção de verbetes que deram luz a um monstro de subjetividades e contradições. Antepôs-se a um termo flagrantemente depreciativo uma expressão que simboliza riqueza do passado. Como pode ser “Província” e ao mesmo tempo “Grande ABC”? -- eis a pergunta que martelava minha cabeça. O que servira no passado recente já não se adequava mais aos novos tempos de empobrecimento regional. 

Sabia que, por mais que possa parecer contraditório, não havia incompatibilidade naquilo que se tornou mais que uma marca, mas uma expressão filosófica, sociológica. Mesmo assim, entendia que faltava alguma coisa no processo e essa coisa era a renovação formal e conceitual da denominação. A trajetória de uma região que perpetua irresponsabilidades coletivo-institucionais exigia uma separação de corpos semânticos entre “Província” e “Grande ABC”. Essa convivência esquizofrênica já se esgotara por fadiga de material institucional. 

De olho nos anões 

Havia muito tempo pensava nos sete anões. Sempre esbarrava na dificuldade de retratar os municípios locais tomando por base a identidade batismal dos personagens de contos de fadas dos irmãos Grim, imortalizados nos estúdios cinematográficos de Walt Disney. Havia incompatibilidades crônicas. Quem seria o Zangado, por exemplo? E o Feliz? E os demais, como poderiam ser réplicas autoexplicáveis dos municípios da região? Poderia ter forçado a barra, mas pareceria estupidez. 

Quando lancei o livro “Complexo de Gata Borralheira” em abril de 2002, em pleno ambiente catártico pós-morte de Celso Daniel, num evento que lotou o Teatro Municipal de Santo André, me passava pela cabeça introduzir no vocabulário editorial a expressão “Província do Grande ABC”. Com o passar do tempo e o agravamento da flacidez coletiva quando se trata de cuidar todos do mesmo destino de regionalidade, não há outra saída senão promover a substituição adotada havia uns pares de anos pela agora anunciada. 

Decisão autocrática? 

Aliás, é bom que se diga que “Província do Grande ABC” foi concebida com ampla aprovação do então Conselho Editorial desta revista digital, herdeira do organismo de monitoramento social que criei na revista LivreMercado. Não foi nada arbitrário. 

Agora estou sendo quase imperial com “Província dos Sete Anões”. Mas essa avaliação é uma especulação comigo mesmo. Tenho certeza de que, houvesse um Conselho Editorial ativo e, fossem os integrantes consultados, o resultado não seria diferente. Há descompasso gigantesco entre o que as castas políticas da região pensam e o que a sociedade gostaria de receber em forma de respostas públicas. 

Pois, então, ficamos assim senhoras e senhores do Grande Circo Regional: tentem acertar quem é quem na relação dos sete municípios-anões -- institucionalmente falando -- desta Província. Prometo que amanhã desvendo o mistério. 

Mistério? Quem conhece para valer a região sabe que é uma barbada acertar as sete opções disponíveis. Somos tão historicamente previsíveis que nem é preciso requisitar muita massa crítica para desmascarar cada uma das identidades que forjam nosso separatismo, origem da constatação de que a soma de todas as partes municipais é menor que o resultado do conjunto dos sete municípios. 

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