Regionalidade

Eis a Província dos Sete Anões.
Quando mudaremos esse jogo?

  DANIEL LIMA - 07/07/2017

Vamos cumprir a promessa de ontem. Revelaremos hoje a identidade dos integrantes da Província dos Sete Anões. Essa é a nova denominação dessa região de quase três milhões de habitantes e uma contabilidade de redução drástica da mobilidade social. Vou produzir um breve perfil dos sete anões. Eles formam uma província que já foi Grande ABC.  Poderia escrever um livro a respeito, como o fiz com o Complexo de Gata Borralheira, mas, por enquanto, limito tudo a esta revista digital. Até porque, a gênese editorial dos anões está no Complexo de Gata Borralheira. 

Os leitores tiveram um dia inteiro para identificar os personagens da Província dos Sete Anões. Estão tipificados os municípios que formam a região, não quem está no comando dos respectivos Paços Municipais. Até porque a parte que toca a cada um dos prefeitos nesse latifúndio é reduzida. A obra regional esfarelada é processo histórico e conta com muitos agentes, inclusiva além dos muros oficiais. Que Município o leitor colocaria à frente das seguintes nominações de anões? 

 Poderoso

 Solitário

 Rebelde

 Presunçoso 

 Charmoso 

 Displicente

 Negligente 

Já imaginaram se eu organizasse espécie de Loteria dos Anões? Quantos leitores acertariam na mosca? Sem perda de tempo, vamos ao perfil de cada um: 

 Poderoso – São Caetano 

Não se metesse na enrascada de estar na Região Metropolitana de São Paulo, área em convulsão social e coalhadíssima de criminalidade, São Caetano seria um oásis. Mesmo assim, é um território privilegiado. Mas, contraditoriamente, só goza dessa condição porque é resultado geoeconômico de uma equação que convergiu para o estado de insolvência da qualidade de vida da maioria do entorno.  São Caetano conta com indicadores de Primeiro Mundo, mas está engolfada numa Província refém do Completo de Gata Borralheira que também impacta ao renegar a regionalidade dos vizinhos locais e, em contraponto, abraçar sem ser abraçada a Capital da metrópole que a inspira a consumir e a trabalhar. 

 Solitário – Rio Grande da Serra

O desgarramento físico-territorial e a miniaturização econômica fazem de Rio Grande da Serra patinho feio e distante do centro político-econômico da Província dos Sete Anões. Pequeníssima, com participação de apenas 0,2% no PIB (Produto Interno Bruto) regional, Rio Grande da Serra é a cara cuspida e escarrada da maioria dos pequenos municípios que compõem majoritariamente o tabuleiro nacional. Depende excessivamente dos cofres federais em repasses generosos nos tempos de fartura de Lula da Silva mas tenebrosos com Dilma Rousseff e os danos colaterais do sucessor Michel Temer. O consolo de Rio Grande da Serra é que só tem alguma notoriedade porque faz parte do grupo de sete anões. Senão, seria um anão qualquer. 

 Rebelde – Diadema

Diferentemente de Rio Grande da Serra, escanteada pela geografia que estrangula a economia, Diadema vive dilema entre esnobar e ser esnobada pela Província dos Sete Anões mas, ao mesmo tempo, joga-se nos braços da Capital Cinderelesca. A industrialização a toque de caixa provocou impactos demográficos, sociais e urbanísticos tão portentosos quanto caóticos. Majoritariamente formada por classes populares do Norte/Nordeste e também de Minas Gerais, Diadema carrega DNA de cultura popular avançada, mas se deixou levar no meio do caminho com índices de criminalidade assustadores, finalmente controlados. Diadema se sente forasteira na região que a contabiliza burocraticamente como membro da família, mas daria tudo que fosse possível para ser anexada pela Capital limítrofe. Como não resolve essa ambiguidade, pratica o que mais gosta nas bases políticas: demonstração de força. Como faz agora o prefeito Lauro Michels e a decisão de abandonar o Clube dos Prefeitos. 

 Presunçoso – São Bernardo

O título de Capital Econômica da região, antes ostentado por uma Santo André beneficiária do traçado então estratégico da Avenida dos Estados, coloca São Bernardo numa condição tão histórica quanto desafiadora. Mas quem disse que um Município que perde cada vez mais o brilho industrial, que ainda o sustenta, se deu conta de que comete o pecado da arrogância toda vez que acredita na possibilidade de que eventual investimento industrial salvará a lavoura, ou manterá a lavoura viçosa? O sindicalismo torna as relações entre capital e trabalho muito aquém da produtividade desejada e coloca São Bernardo à margem da competitividade nacional e internacional. Casos como o da Scania, moldada para percorrer territórios estrangeiros quando a seca da demanda se instala no Brasil são exceções. São Bernardo perdeu-se na cultura do apertar de parafuso do atraso tecnológica só recentemente atenuado. Por isso parece ter um parafuso a menos quando a liderança regional se coloca à prova, como agora. 

 Charmoso – Ribeirão Pires 

Ribeirão Pires carrega a fama de instância turística, que pressuporia anos de glórias culturais e econômicas. Mas essa condição especial, contraditoriamente, atravanca a vida do Município que dorme num berço supostamente esplêndido sem sair da mesmice retórica. Até um festival de chocolate que era boa ideia foi interrompido porque a política sempre fala mais alto. Não fosse a natureza, Ribeirão Pires não desfilaria o charme de um título que não se justifica na prática. Interditada ambientalmente à massificação da indústria de transformação, Ribeirão Pires segue presa ao eixo existencial de um turismo sem infraestrutura e projetos factíveis.  

 Displicente – Santo André

Antiga capital econômica da região, Santo André é um dos sete anões da região porque se deixou enredar pelo “viveiro industrial” do hino oficial. Não se deu conta de que a riqueza da produção se escafedeu, principalmente rumo ao Interior do Estado. Paradoxalmente, o Município que nadou de braçadas em meados do século passado, com infraestrutura de transporte invejável, uma Avenida dos Estados a florescer negócios e uma estrada de ferro a facilitar a logística, virou um mico com a chegada da Rodovia Anchieta, da Rodovia dos Imigrantes e do trecho sul do Rodoanel, todos preferencialmente em terras de São Bernardo. Displicente com o futuro ao se considerar uma jovem cheia de apetrechos, quando a artrose generalizada da baixa competitividade toma sua geografia, Santo André nada faz para sair da dormência que a abate. Enquanto isso, metade da População Economicamente Ativa atua em outros municípios da região e na Capital. Uma evasão diária de cérebros que custa caro à cidadania.   

 Negligente – Mauá 

Quem tem um Polo Petroquímico – assim como quem tem um polo de montadoras de veículos, caso de São Bernardo -- corre o risco de enfermidade letal. E essa é a maior dificuldade de Mauá, dependente da Doença Holandesa Petroquímica. Quase dois terços dos recursos orçamentários municipais derivam do complexo de empresas do setor químico e petroquímico. Mauá não teve capacidade – e isso vale também para Santo André, cuja parcela de dependência da Doença Holandesa Petroquímica é menor mas também elevada – de preparar-se para estimular a diversificação de uma atividade resumida no uso cada vez mais intenso de uma matéria-prima essencial à atividade humana – o plástico. Interesses particulares de especuladores imobiliários e a omissão compulsiva do Poder Público Municipal prevalecem à obstrução de um plano que moldaria Mauá dentro de preceitos de relacionamento com o Polo Petroquímico, incorporando novos setores produtivos. 

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