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Breve ensaio sobre a impune
atuação dos bandidos sociais

  DANIEL LIMA - 24/07/2017

Sempre e sempre me perguntam o significado da expressão “bandidos sociais”, que criei neste espaço como uma maneira de resumir em duas palavras conexas uma fauna que atravanca a vida da sociedade, embora pareça, aos incautos, muitas vezes, o contrário. 

Bandidos sociais sempre no plural, embora no singular também tenha relevância, é uma maneira de dizer que os sabotadores do futuro raramente agem individualmente. Bandidos sociais foram feitos para se juntarem, por mais que tenham resistência a se aceitarem. Eles detestam espelhos. Ainda mais espelhos embaçados, de baixa resolutividade de brilho, ou de brilho falso. 

O pior castigo dos bandidos sociais na disputa por status na sociedade é saberem que praticam um ensaio geral tão manjado que jamais vai virar apresentação de espetáculo algum. Haverá sempre entre eles a síndrome da falsificação de personalidade. Eles querem fazer crer que são, quando apenas parecem ser.  

Para tentar tornar mais pedagógico este texto, eis que pretendo destrinchar os cromossomos dos bandidos sociais. Sim, bandidos sociais são espécime com nuances variadas, embora o núcleo que os conduzem à diversidade seja sempre o mesmo, resumido na falta estrutural de caráter. Quem não tem caráter não tem nada que possa garantir que perseguirá objetivos saudáveis. 

Os mais perigosos da praça 

Os bandidos sociais que atuam em instituições públicas e privadas são os mais perigosos da pátria regional, porque eles se movimentam em territórios mais amplos. Bandidos sociais em outros ambientes não existem. Para serem bandidos sociais eles precisam obrigatoriamente atuar na intersecção entre o público e o privado. Um executivo de uma empresa privada que faça estragos corporativos não passa nem perto em matéria de estragos de um assessor político, por exemplo. Os danos ficarão confinados, na grande maioria dos casos, ao respectivo território corporativo. 

Há excepcionalidades que poderiam ser destacadas para configurar um quadro de banditismo social em organizações privadas, como é o caso da Operação Lava Jato. Mas insisto em afirmar que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Os executivos da Odebrecht que fizeram uma fila indiana para delatarem as falcatruas na Petrobrás não ultrapassaram os limites territoriais que lhes cabiam. Nos casos de empreiteiros e executivos que exerciam funções institucionais, em organizações coletivas, prevalece o critério de abrangência de atuação. 

Na maioria dos casos os bandidos sociais se locupletam da tradição de agremiações sociais, políticas e econômicas, principalmente, para preservarem-se de contratempos. 

Dísticos fraudulentos 

A região e o Brasil como um todo dão importância excessiva aos dísticos, às logomarcas tradicionais. Nossa queda ao servilismo à tradição como símbolo de eficiência, idoneidade e glória é doentia. O modelo da maioria das organizações coletivas já virou o cabo da boa esperança há muito tempo, mas segue com prazo de validade a sugerir vida ainda mais longa. 

É verdade que essas associações diversas em grande escala não gozam de prestígio das classes às quais se dirigem estatutariamente. A maioria dos filiados já passou por experiências decepcionantes quando caiu na besteira de acreditar que poderia resolver problemas e encontrar soluções recorrendo a instituições que pretensamente a representaria. 

Os bandidos sociais mais calejados sabem que integrar uma entidade de classe, qualquer entidade de classe, abre muitas portas. E abrirão mais portas na medida de importância do setor ou segmento que representa. Às favas com os escrúpulos. São numerosos os casos de dirigentes de classes a ocupar escalões das administrações municipais, quando não a contarem com cotas específicas de apadrinhados. Vende-se aos prefeitos de plantão um prestígio que não se confirma na prática. A maioria das entidades não fala em nome de seus supostos potenciais filiados porque tropeçam nos obstáculos da representação com conteúdo transformador. 

Não foram poucos os prefeitos no passado e não serão alguns apenas no presente que vão cair no conto da representação associativa. Eles vão continuar a quebrar a cara ao acreditarem que, juntando-se às chamadas lideranças de classe, alcançarão o conjunto. Os quadros associativos dessas organizações são quantitativamente inexpressivos, o que impede a disseminação de prometidos suportes políticos. Os prefeitos só se dão conta disso quando quebram a cara nas eleições. Representação é uma coisa, representatividade é outra.  

Individualidade improvável  

Não é fácil ganhar o status de bandidos sociais atuando fora das quatro linhas do gramado de entidades corporativas. O suposto lastro que viria do passado histórico de cada uma dessas instituições é mesmo uma indumentária de autoridade a ser respeitada. Bandidos sociais avulsos precisam ser muito bem dotados de inteligência e pragmatismo, além, é claro, de a todo instante provarem para eles mesmos que a palavra dita agora não têm importância alguma quando as circunstâncias se alteram e uma nova narrativa ganha espaço. 

Bandidos sociais isolados ou em agrupamentos temáticos sabem que é preciso não dar a mínima possibilidade à organização de forças reativas a ponto de colocarem em risco o latifúndio que abocanharam. Ao menor sinal de perigo a melhor saída sempre será combater os independentes, como são chamados aqueles sem compromisso com alternativas de compartilhamento de poder e dinheiro instaladas. 

Bandidos sociais que se prezam reagem às ameaças. Cada um no seu respectivo quadrado, claro, porque não existe grau de confiabilidade entre os bandidos sociais. Mas se pressentem que o míssil adversário é poderoso, eles não têm dúvidas em associarem medidas. Atacam com artilharias pesadas. Nestes tempos de tecnologias digitais portáteis, disparam mensagens apócrifas para tentar manchar a honra dos opositores. São artilheiros digitais implacáveis.

Sei que nestas alturas do campeonato os leitores já identificaram muitos bandidos sociais da região. Pensem um pouco mais e avaliem o quanto eles se aproximam do Poder Público. A preferência dos bandidos sociais de organizações de classe é o centro do poder administrativo municipal. A cidadela precisa ser controlada. 

Interesses combinados

Há interesses mútuos em jogo. Há inimigos do passado que viram amigos inseparáveis até que o mandato do prefeito de plantão termine. Os bandidos sociais do setor econômico raramente perdem nesse jogo de cartas. Os bandidos sociais de agremiações partidárias gozam de prestígio enquanto o calendário eleitoral os favorece. 

Os bandidos sociais também são camaleônicos. Alguns disparam entre os parceiros mensagens de louvação à sensibilidade social de que se julgam portadores. São benemerentes na distribuição de merrecas aos mais pobres e desvalidos. Esquecem que o valor da benemerência passa por dois filtros inseparáveis e destruidores: o volume distribuído em relação à riqueza acumulada e a origem dos valores repassados. Por trás de um benemerente a probabilidade de que exista um bandido social é enorme. Aqui e no mundo. A diferença é que aqui poucos têm coragem de apontá-los, mesmo que de forma indireta. 

A vida na região, entretanto, não é um faroeste amalucado em que só se encontra espaço para quadrilhas de bandidos sociais. Há mocinhos sociais identificados com certa facilidade para quem já está escolado, mas na maioria dos casos é melhor mesmo se precaver. Há lobos em pele de cordeiro. Comparativamente, os bandidos sociais são batalhões prontos a dizimar os mocinhos sociais que não passam de gatos pingados. 

Numa região em que a mobilidade social virou passado e tudo indica que não voltará jamais diante do quadro de esvaziamento econômico, há cada vez mais pretendentes a ocupar a escala de valores morais e éticos dos bandidos sociais. No salve-se quem puder que infesta a Província dos Sete Anões, a resiliência dos mocinhos sociais sucumbe ante a resistência e a impetuosidade dos bandidos sociais. 

O jogo é covardemente desigual porque as cidadelas estão todas tomadas. Não há quase espaço à meritocracia. Os mocinhos sociais são escorraçados ao menor sinal de inconformismo. Pratica-se um despudorado jogo de exclusão dos resilientes. Os bandidos sociais são persistentes entre outros motivos porque sabem que têm tudo para vencer sempre. Até que a biruta, quem sabe, resolva virar de vez.  

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