Sociedade

Estão matando gente demais
na Província. Vamos reagir?

  DANIEL LIMA - 26/07/2017

Isso mesmo: está morrendo gente demais de morte matada na Província dos Sete Anões. O que se passa com a quantidade de homicídios no primeiro semestre deste ano quando comparada ao primeiro semestre do ano passado? Será que voltaremos aos tempos pré-assassinato do prefeito Celso Daniel, quando a região, a metrópole e o Estado de São Paulo viviam calamidade pública e o titular do Paço Municipal tornou-se a mais famosa vítima da delinquência numa modalidade felizmente fora de moda, no caso os sequestros? 

Não acredito que voltaremos ao final da última década do século passado, começo da primeira década do novo século, mas não custa alertar e reagir. Tem gente morrendo demais na Província. Relativamente, muito mais que na Capital vizinha e no Estado como um todo. A crise econômica com carga sobressalente de desemprego e de desesperança tem a ver com os dados, mas não explica tudo, porque o desastre de homicídios seria generalizado. E está localizado sobretudo na região. 

As autoridades policiais, frequentemente ouvidas pelo Diário do Grande ABC, desfilam propostas, projetos, ações, mas os números estão aí a incomodar. 

Está no Diário do Grande ABC de hoje (sempre sem a contextualização histórica que o assunto merece porque o assunto não se restringe à agenda de criminalidade, mas invade a grande área da sociologia) que matamos 103 pessoas no primeiro semestre deste ano na Província, contra 77 no mesmo período do ano passado. Um aumento de 33,77%. Na cidade de São Paulo houve decréscimo de 13,53% (451 homicídios no ano passado contra 390 neste ano) e no Estado de São Paulo o aumento foi desprezível, de 0,45% (1.784 mortes no primeiro semestre do ano passado ante 1.776 neste ano). 

Bem abaixo de 2001

Se prevalecerem no segundo semestre os números do primeiro, teremos 206 assassinatos na temporada na região. Para os leitores terem uma ideia do que vivemos em 2001, ano imediatamente anterior ao assassinato de Celso Daniel, em janeiro de 2002, a montanha de cadáveres vítimas de homicídios na região chegou a 949 registros. 

No ano passado, 2016, contabilizamos 180 vítimas fatais na região. No Estado de São Paulo foram 12.475 assassinatos em 2001 contra 3.674 no ano passado. Uma queda de 70,55%. Um pouco menor que o despenhadeiro da região, de 81% na mesma comparação. 

Toda essa diferença entre 2001 e 2016 (e também nos anos sequenciais a 2002) se deve aos estilhaços políticos provocados pelo assassinato de Celso Daniel. O crime cometido por bandidinhos pés de chinelo, conforme definição do chefe da Polícia Civil no Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), levou o então e o atual governador Geraldo Alckmin a tomar duas providências, premido também pelo ano eleitoral.

A primeira foi melar a verdade dos fatos de que o prefeito de Santo André foi assassinado por conta do desarranjo completo da politica de Segurança Pública, principalmente na Região Metropolitana de São Paulo. A segunda foi demitir o secretário da área, Marco Vinício Petrelluzzi, defensor dos chamados Direitos Humanos, e promover a ascensão do rigoroso promotor de Justiça Saulo de Castro Abreu, que adotou ações agressivas. 

Faço questão de realçar o contexto daquele momento de criminalidade fora do controle no Estado de São Paulo porque os idiotas de sempre usam e abusam de mentiras no caso Celso Daniel ao desprezarem contrapontos históricos respaldados por dados insofismáveis. 

Descolamento preocupa 

Mas, voltando aos números deste semestre, do crescimento dos casos de assassinatos intencionais: está na hora de o Clube dos Prefeitos tomar providências. O descolamento dos dados da Capital e do Estado exige redobrada atenção e, portanto, medidas corretivas de rota. 

No primeiro semestre do ano passado representamos 17% dos assassinatos no confronto com a Capital do Estado. Neste ano, no mesmo período, chegamos a 26,42%. Em relação ao Estado, passamos de 4,31% para 5,80%. Em 2001, ano anterior à morte de Celso Daniel, os crimes de homicídios na região representaram 7,60% dos registros no Estado. 

Talvez o maior desafio que as autoridades públicas e policiais da região precisam superar nesta temporada seja detectar até que ponto o vertiginoso e problemático crescimento de homicídios na região é consequência de circunstâncias que poderão ser superadas sem maiores sofrimentos ou se estamos invadindo a área de um drama estrutural, como no passado. 

Estaremos vivendo um período de turbulência passageira que vai passar ou a tendência de influenciadores da crise econômica despertou o monstro das desigualdades sociais e de outras sequelas invasivas e longevas? 

Vejo com inquietação o descolamento entre ações político-partidárias do Clube dos Prefeitos e o ambiente criminal na região. Já faz seis meses que se registra crescimento da criminalidade na forma mais cruel que as estatísticas não têm como escamotear (assassinatos se anotam obrigatoriamente) e nenhuma ação efetiva de fôlego se deu no âmbito do Clube dos Prefeitos para debater o assunto, com consequentes medidas profiláticas. 

Estamos fora do lugar na Região Metropolitana de São Paulo e também no Estado. Os números provam isso e, mais que isso, fazem um alerta permanente. Há anomalias sociais que precisam ser detectadas e minimizadas, senão neutralizadas. 

Desastre e alívio 

A morte de Celso Daniel causou consequências político-administrativas que ultrapassam todos os limites do razoável em termos de perda de qualidade de projeto de uma Província dos Sete Anões que pudesse voltar a ser Grande ABC. Entretanto, e paradoxalmente, significou impacto de extraordinária eficiência das ações policiais – independentemente de alguns detalhes que convém não repetir neste artigo. 

O estrondo fez com que o governo do Estado se mobilizasse num cavalo de pau de reconstrução das forças responsáveis pela Segurança Pública. Esse é um dos troféus que o governo tucano pode exibir à sociedade, embora com condicionantes que, insisto, prefiro não reafirmar neste momento. Por isso o avanço das mortes matadas na região precisa ser contido. 

O território da Província dos Sete Anões está claramente desguarnecido nesta temporada no campo criminal. Identificar os buracos materiais e organizacionais que estão nos levando à bancarrota no ambiente social é prioridade regional. Esse sobrepeso na imagem já desgastada de uma região que perde competitividade econômica a cada novo ano deve ser vigorosamente rejeitado. 

O Clube dos Prefeitos do lobby de comissão de frente carnavalesca em Brasília não pode se descuidar da retaguarda de qualidade de vida regional que recomenda ações locais sem salamaleques políticos e negociação de emendas parlamentares. 

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