Sociedade

São Caetano tem motivos para
festejar mais um aniversário?

  DANIEL LIMA - 28/07/2017

Claro que sim. Se São Caetano não tivesse motivo para comemorar mais um aniversário, o que seria então dos demais municípios de uma região outrora industrializadora de mobilidade social e hoje fomentadora de imobilidade urbana? A grandeza de São Caetano vem do passado e segue vigorosa no presente. Mas isso não significa que o futuro deva ser subestimado. A metrópole é uma faca de dois gumes econômicos para São Caetano, porque a ameaça e a incrementa. 

Num desdobramento do Índice de Vitalidade do Mercado de Trabalho Formal, lançado ontem nesta revista digital, penetro nos dados municipais do G-11, o grupo formado pelos sete representantes da região, a Capital do Estado e as vizinhas e concorrentes Barueri, Guarulhos e Osasco. São Caetano virou âncora desse artigo pela oportunidade que o calendário oferece. 

São Caetano fica em segundo lugar no ranking. Só perde para Barueri, endereço em que a velha economia de fábricas se junta à nova economia da Tecnologia da Informação num desenho mais que lógico de sustentabilidade social acima da média nacional. 

Tanto os números de incidência do mercado de trabalho formal de São Caetano quanto de Barueri estão artificialmente inflados, mas não há mecanismos disponíveis que reproduzam o tamanho real das duas economias nessa importante vertente. Há muitas empresas de papel tanto num quanto noutro Município. Mas há evidências que colocam São Caetano bem acima da artificialidade. 

Tortorello em ação 

A guerra fiscal de meados da última década de 1990 sedimentou essa pedalada estatística. A redução de alíquotas do ISS (Imposto Sobre Serviços) atraiu centenas de empresas a Barueri e a Santana do Parnaíba. São Caetano de Luiz Tortorello entrou no jogo e deixou os demais municípios da região para trás. 

São Caetano deveria mirar baterias de benchmarking em direção a Barueri. Não que devesse necessariamente copiar o modelo econômico do vizinho não tão próximo, até porque há inúmeros contrapontos a aconselhar cuidados especiais, mas parece claro que é possível buscar conceitos que parecem mais sólidos do outro lado da Capital do Estado. A economia de Barueri tem-se comportado ao longo das duas últimas décadas como um exemplo de crescimento a ser seguido. 

Os números mais recentes do PIB (Produto Interno Bruto) dos Municípios são esclarecedores a respeito da capacidade de Barueri criar riquezas. O total de R$ 46.151.952 bilhões registrados em 2014 (últimos dados apurados pelo IBGE) estão bem acima dos números de São Caetano, com R$ 16.153.419. Quando se vai a um indicador mais confiável, que é o PIB per capita, Barueri registrou R$ 177.812, ante R$ 102.754 de São Caetano. Uma diferença de 42,21%. Não é pouca coisa. Os números de São Caetano são brilhantes para a realidade regional, estadual e nacional -- mas estão muito aquém dos de Barueri. 

Esses dados se refletem no Índice de Vitalidade do Mercado de Trabalho Formal. São Caetano conta com 105.732 registros em carteira de trabalho, o que significa 66,25% da população de 159.589 habitantes. Ou seja: para cada grupo de 100 moradores, São Caetano oferece 66,25 empregos. Já Barueri conta com 242.572 carteiras assinadas para uma população de 264.935 pessoas. O índice chega a 91,56%. Bastante acima de São Caetano, portanto.

Filões a explorar 

A Administração de José Auricchio Júnior talvez devesse olhar um pouco mais à Oeste da Região Metropolitana de São Paulo. Barueri é uma ilha de prosperidade que pode ensinar muito não só ao prefeito de São Caetano, mas também aos demais da região que vivem numa pasmaceira de dar dó.

Talvez a chave de ignição de novos tempos econômicos na região possa ser acionada por sentimento de inveja positiva de Barueri. É verdade que já perdemos a guerra pelo nicho de Tecnologia da Informação, mas ainda é possível descobrir novos filões. 

A sugestão de Arranjo Produtivo Local no setor médico, especialmente no atendimento ao público de 50 anos ou mais de idade, é alternativa que precisa ser implantada de forma vigorosa. Uma força-tarefa, por assim dizer, deveria ir a campo. Com gente especializada em competitividade municipal.  Já que o Clube dos Prefeitos é incapaz de encontrar esse caminho, que São Caetano o faça.

Como escrevemos, o Índice de Vitalidade do Mercado de Trabalho Formal de São Caetano alcança 66,25%. Está muito acima da média regional, de 24,82%. São Caetano soma 22.773 carteiras assinadas no setor industrial.  O peso do terciário na composição do emprego em São Caetano também está muito acima dos demais municípios da região. O setor industrial representa apenas 14,27 de cada 100 moradores, contra 51,98 das demais atividades.

Luiz Tortorello deixou uma herança compensatória às perdas industriais. As medidas custaram mais fissuras na regionalidade, claro, mas quem disse que se não o fizesse a regionalidade seria diferente da que está aí? 

Poderes limitados 

A parte que cabe a São Caetano no latifúndio de empregos formais da Província dos Sete Anões, conforme dados mais atualizados, de junho deste ano, não passa de 14,83%. Esse é o problema da região. Fosse São Caetano mais representativa em demografia e oferecesse os números relativos atuais, a realidade seria outra. O problema é que a população de São Caetano não chega a 6% do total de residentes na região e o PIB não ultrapassa a 13%.  

O que fazer se São Bernardo detém a maior fatia de empregados formais na região? São 247.111 carteiras assinadas -- 34,68% do total de postos de trabalho e 30% da população da Província? Uma São Bernardo cujo Índice de Vitalidade é apenas levemente superior à média regional, com 29,86 de trabalhadores para cada 100 moradores. 

A surpresa para quem acredita que São Bernardo tem incidência maior de trabalhadores industriais do que São Caetano se materializa nos números: enquanto a Capital Econômica da região marca 9,04% de trabalhadores no setor de transformação para cada 100 moradores, em São Caetano há 14,27%. 

Quem acha que São Bernardo reúne proporção baixa de empregos industriais para cada 100 moradores, deveria dar uma olhada em Santo André, o antigo “viveiro industrial”. Os 27.223 empregos industriais representam apenas 3,80% do Índice de Vitalidade. Quanto se somam todas as atividades, Santo André sobe na inserção no mercado de trabalho para 26,46%. Também pouco acima da média regional e um pouco abaixo da média de São Bernardo. 

Santo André em terceiro 

Santo André ocupa o terceiro lugar no ranking do Índice de Vitalidade do Mercado de Trabalho Formal na Província dos Sete Anões, mas quando se expande a comparação ao G-11 da Metrópole, é superada por São Paulo e Barueri. Santo André está levemente acima dos 21,09% registrados por Diadema (88.113 trabalhadores para uma população de 417.842). E muito acima dos 16,02% de Ribeirão Pires (19.520 trabalhadores para 121.837 habitantes), Mauá com 12,94% (59.806 carteiras assinadas para 462.029 habitantes) e Rio Grande da Serra com 6,14% (3036 postos de trabalho formais para 49.414 habitantes). 

Guarulhos oferece números de vitalidade no emprego formal próximos de Santo André, com 23,34% de participação em relação à população, resultado de 309.233 postos de trabalho ante 1.324.781 habitantes. Osasco também flutua nas imediações de Santo André e da média da região, com 21,28% de índice de vitalidade, com 148.229 carteiras assinadas para 696.382 habitantes.

A cidade de São Paulo, absoluta nos números absolutos (uma redundância proposital) paga o preço do gigantismo, embora apresente média superior à média da Província no índice de vitalidade, com 34,77 empregos com carteira assinada para cada grupo de 100 moradores. São 4.186.009 empregos formais, dos quais 429.488 no setor industrial. Mais que o dobro da Província. 

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