Economia

Província é companhia aérea
que faz 375 vítimas a cada mês

  DANIEL LIMA - 01/08/2017

Há 31 anos e meio, persistentemente, a Província dos Sete Anões patrocina uma das maiores carnificinas econômicas do País. Fosse uma companhia aérea, como sugiro no título deste artigo, a cada 30 dias repetidamente nesse período teriam morrido 375 passageiros de primeira classe. Quem são os passageiros de primeira classe? Os trabalhadores do setor industrial. Em dezembro de 1985 contávamos com 337.790 carteiras assinadas no setor de transformação. Em junho deste ano contabilizávamos apenas 195.968. Façam as contas: são 378 meses nesse período e uma quebra de 141.822 trabalhadores. Ou média mensal de 375,19. 

Em qualquer lugar civilizado do mundo, no qual a responsabilidade social não é retórica vazia, as forças institucionais já teriam movido mundos e fundos para encontrar uma saída que estancasse a hemorragia. 

Entretanto, como a Província dos Sete Anões é uma terra sem juízo e sem coletivismo, embora o jogo de cena tente driblar a sociedade desorganizada, o que temos para amanhã será o que cultivamos ontem e desprezamos hoje: mais camadas sobrepostas de desemprego no setor que mais bem remunera os trabalhadores. Na média, são 40% maiores os salários médios do setor industrial. Sem contar vantagens paralelas em forma de plano de saúde e outros apetrechos trabalhistas.  

Alertas frequentes 

Não seria a crise atual que abate o País e particularmente expõe ainda mais as vísceras de empobrecimento da região que levaria este jornalista a cavoucar dados estatísticos oficiais para esfregar na cara das autoridades públicas e de supostas lideranças empresariais, sociais e sindicais. Longe de mim o oportunismo de quem fica de tocaia à espera de uma prova do crime. 

Mesmo no período mais vigoroso – embora deliberadamente artificializado -- da economia nos últimos tempos, do segundo mandato do petista Lula da Silva, quando a média de crescimento do PIB superou 4%, já estava aqui no meu canto sagrado de interesse público a alertar sobre os riscos do dia seguinte. Estão aí o mercado imobiliário movido a especulação irresponsável e a chegada de novos shoppings que não me deixam mentir. 

Tudo caçapa cantada com facilidade. A maior moleza do mundo é projetar a Província dos Sete Anões dos próximos anos. Mesmo se os anos imediatamente anteriores tenham sido de avanços de produção automotiva. 

Duro mesmo é afirmar categoricamente quem será o campeão brasileiro desta temporada. Mesmo com o Corinthians disparado na liderança. Jamais me arriscaria. Fosse quem fosse o Corinthians da vez. 

Santo André é a pior 

Santo André é o caso mais grave de derrocada do emprego industrial, embora esteja em segundo lugar em números absolutos, atrás de São Bernardo. 

Desde janeiro de 1986 Santo André perdeu 37.268 empregos com carteira assinado do setor de transformação industrial. Ou 57,79% do total. Eram 64.491 trabalhadores e restaram 27.223. Há apenas 14,38% de empregos industriais formais para cada grupo de 100 trabalhadores de todas as atividades em Santo André. Uma catástrofe que vai se acentuar porque a antiga Capital Econômica da região viu desmoronar importante vértice da logística incremental de negócios: a centralidade da Avenida dos Estados. 

São Bernardo do sindicalismo mais rebelde e mais dissimulado da Província dos Sete Anões (rebelde no período de afirmação do trabalhismo e dissimulado desde que se preferiu espalhar comitês de fábricas em mais de 100 empresas) perdeu mais empregos industriais que Santo André no período: 73.009 baixas. Eram 147.781 trabalhadores em janeiro de 1986 e, em junho último, 74.772. Em termos percentuais, só é superada por Santo André: foram 49,40% de rebaixamento. Como a participação relativa do emprego industrial em São Bernardo ainda é alta (30,26 para cada grupo de 100 empregados formalizados em todas as atividades) a má notícia é que a sangria vai ser aprofundar, porque a tendência de queda é inexorável. 

São Caetano em terceiro 

São Caetano vem em terceiro lugar na escala de baixas do emprego industrial após 378 meses. Eram 37.128 trabalhadores contra 22.773 desta temporada. Uma queda de 38,66%, com a perda líquida de 14.355 carteiras assinadas. Um pouco acima dos 29,05% de perdas de Diadema, que contava com 61.531 empregos industriais em janeiro de 1986 e em junho último registrava 42.555. São trabalhadores do setor industrial 21,54% do estoque de empregos formais em São Caetano. Em Diadema a proporção é muito maior e por isso mesmo preocupante: 48,29%. 

Ribeirão Pires contava com 9.130 empregados em 1985 e caiu para 6.822 em junho deste ano. Os 2.308 postos de trabalho eliminados significam 25,28% do efetivo de 31,6 anos atrás. Também é elevada a participação do emprego industrial no conjunto de trabalhadores de Ribeirão Pires. São 34,95%. 

Mauá e Rio Grande da Serra são exceções nos estragos industriais. No período de 378 meses os dois municípios registraram aumento do efetivo. Mauá ganhou 24,86% dos assalariados industriais com carteira assinada. Eram 16.287 e passou para 20.275, ou 33,90% do conjunto de assalariados oficiais. Rio Grande da Serra contabilizava 1.286 em 1985 e agora são 1.548 postos de trabalho – 50,99% dos assalariados em todos os setores. Pena que os dois municípios não fazem verão. São 21.823 postos de trabalho do setor na região, pouco mais que 11% do total. 

Perdendo tempo 

Não cansarei jamais de bater na tecla de que as chamadas lideranças políticas, econômicas e sociais da Província dos Sete Anões têm dívida enorme com a sociedade regional, sobretudo com as próximas gerações. A ausência de um plano econômico estratégico que priorize a atividade industrial, reorganizando-a de olho nos novos tempos de inovação e de tecnologia avançada que já chegaram, é um crime de lesa-região. 

A mesmice programática que se repete a cada nova safra de prefeitos é um deboche a ocupar indefinidamente as manchetes de jornais impressos e digitais da região sem que alguém pare para refletir. O descaso do Clube dos Prefeitos é aviltante. Nenhum ganho orçamentário decorrente de generosidades de cartas combinadas com intermediários no Congresso Nacional – como pressupõe a chamada Casa do Grande ABC -- compensará a ausência de um plano de ação estrutural com foco em complementaridades regionais. 

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