Imprensa

Afinal, o que significam as três
matérias mais lidas em julho?

  DANIEL LIMA - 09/08/2017

Leio na primeira página desta revista digital os títulos apontando as três matérias mais lidas no mês passado. a) Paulinho Serra dá golpe nos contribuintes ao aumentar IPTU; b) Versão farsesca da morte do prefeito vira livro (11); c) O que se passa com o Promotor da Habitação Fábio Franchi?

Olhei, olhei e fiz uma reflexão que quero compartilhar com os leitores: por que foram essas e não outras as matérias que deram mais Ibope em junho? Não tenho a mínima ideia, mas como sou metido a besta, não custa especular.

Primeiro devo dizer que não entendo patavina de algoritmos. Até tenho lido muito, muito mesmo, sobre Big Data. Aliás, um de meus filhos faz pós-graduação nessa área. Ele parece se encaminhar para ser bamba no assunto. Na teoria e na prática. Tenho algum conhecimento teórico, de tanto ler sobre impactos da tecnologia da informação na área de comunicação. Mais precisamente na Imprensa impressa às voltas com novos comportamentos dos leitores.  

Feita essa explicação, não me perguntem como se processa o ranking mensal de matérias mais lidas, a cargo da empresa especializada que administra esta publicação. Sei, claro, que tem tudo a ver com a frequência e a intensidade de acesso a cada artigo.

Golpe nos contribuintes

O golpe dado nos contribuintes de Santo André pelo prefeito Paulinho Serra ao elevar a base de cálculo que desembocará na próxima temporada em aumento do valor do IPTU está caracterizado como, no mínimo, um tropeço de comunicação do chefe do Executivo.

Disse pessoalmente ao prefeito de Santo André e repito: não discuto (por enquanto) o mérito do aumento, mas a forma com que a decisão foi conduzida. Tudo foi tratado na calada da noite. Entenda-se calada da noite como expressão metafórica, não necessariamente relacionada ao horário em que se deram as votações no Legislativo.

Fez-se uma operação arrastão junto aos vereadores para aprovar em tempo recorde o projeto de lei. Os jornais mal tiveram tempo de respirar alguma informação substantiva e lá estava a sociedade premiada com novo petardo financeiro.

Primeira conclusão óbvia: mexer com o bolso dos contribuintes sempre dará repercussão. Mesmo numa revista digital que prima pela informação de valor agregado, o que pressupõe número menor de leitores em relação às notinhas curtas e grossas que infestam a mídia em geral. Aliás, há controvérsias sobre isso. No Primeiro Mundo – e também com tendências no Brasil – pesquisas captam número cada vez maior de internautas que dão preferência a análises aprofundadas. Há esgotamento de produtos editoriais fastfoodianos.

Caso Celso Daniel

Também não é nada surpreendente que a sequência de análises do caso Celso Daniel desperte tanto interesse dos leitores. O que tenho para o café da manhã, para o almoço e para o jantar de quem aprecia jornalismo que não se acomoda é uma sucessão de revelações e reiterações do caso Celso Daniel. No caso, em contraposição a um jornalista que editou uma farsa em formato de livro.

Segunda conclusão óbvia: a detecção de que leitores apreciam em jornalista que não é maria-vai-com-as-outras com fundamentação técnica e personalidade intelectual sustenta o interesse de consumo de informações moldados por informações intensamente conflitantes. Existe no caso da série que desenvolvo em oposição ao livro já mencionado reiterada convicção de que nenhum parágrafo infringe a realidade dos fatos. Mesmo sabendo como sei que sou o mais renitente e resiliente profissional de imprensa do País a opor argumentos e provas ao lugar-comum de banalização da versão tóxica de crime político-administrativo. Rio de todos eles, pobres mal-informados.

Mercado imobiliário

Já a cobrança nestas páginas ao promotor da Habitação de Santo André no caso envolvendo a construção de oito torres residenciais ao lado do Shopping ABC, o condomínio Residencial Royale, poderia ser surpreendente, mas pensando bem, não o é. Quem tem a tradição no jornalismo brasileiro (repito, jornalismo brasileiro) de estar permanentemente conectado ao mercado imobiliário? Quem escreve seguidamente sobre o assunto que é de interesse público porque trata de um ramal importantíssimo da economia como também do Sistema Judicial, tantos são os malversadores travestidos de empresários?  O Residencial Royale merece toda atenção nesse sentido.

Posto tudo isso, tenho de agradecer a perspicácia com que os leitores têm-se manifestado da forma que nenhum jornalista jamais deverá deixar de enaltecer: o interesse em conhecer e digerir informações analíticas que fujam completamente do dia a dia rastaquera da maioria dos veículos de comunicação.

E por essas e tantas outras razões que os sites com credibilidade ocupam cada vez mais a preferência do leitorado. Elementar, caros leitores.

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