Administração Pública

Paulinho Serra vira Paulo Serra
se mexer no mercado imobiliário

  DANIEL LIMA - 10/08/2017

Se o prefeito Paulinho Serra diminuir sensivelmente a carga mais que pesada de bandidos sociais do mercado imobiliário de Santo André (alguns dos quais importados da região e da Capital), este jornalista passará a chama-lo de Paulo Serra. Seguiria, portanto, o modelo da maioria da mídia regional, alterado desde que ele se candidatou a prefeito no ano passado. Isto posto, está claro que não me deixo seduzir por marqueteiros, mas por bandoleiros defenestrados.

Paulinho Serra não precisa acabar com os entulhos imobiliários. Isso é impossível. Entretanto, tem obrigação funcional, sabendo o que sabe e estando informado sobre o passado que condena muita gente, de reagir.

Paulinho Serra inerte frustraria as expectativas como o juiz da 3ª Vara Criminal de Santo André, Jarbas Luiz dos Santos. O meritíssimo me condenou a oito meses de prisão por antecipar e consolidar verdades inconvenientes do Clube dos Construtores subjugado pelo então presidente eterno Milton Bigucci. E não me deu ouvidos durante aquele interrogatório fillipiniano quando afirmei dispor de informações e provas sobre os bandidos sociais imobiliários.

Leve esperança 

Tenho não mais de que leve esperança de que Paulinho Serra vai agir, após me garantir iniciativas na pré-entrevista de sexta-feira passada quando conversamos sobre um dos escândalos imobiliários no universo do caso Semasa – a construção de oito torres residenciais de classe média ao lado do Shopping ABC, o condomínio Residencial Royale. Há dezenas de empreendimentos igualmente abusivos à legislação, conforme denunciou a este jornalista o denunciante do caso Semasa, advogado Calixto Antônio Júnior, e também o então superintendente do Semasa, Ney Vaz. 

Basta querer e estará tudo muito bem encaminhado. Mas como não sou ingênuo nem candidato a Idiota do Ano, mantenho os pés atrás. Acho que Paulinho Serra não topará mergulhar nessa imundície. Há entre aliados que o ajudaram a ganhar as eleições gente da pior espécie imobiliária. 

Gente que sabe onde mexer os pauzinhos. Gente que aparece nas redes sociais como benemerentes, mas não passa de extensão de ramais mais que tóxicos em matéria de ética e moralidade empreendedora. Gente que, inclusive, está por trás do movimento lobista de criminalização deste jornalista. Gente da pesada que, inclusive, compartilhou ontem de manhã o evento promovido pela Prefeitura de Santo André no Teatro Municipal. 

Caso Semasa emblemático 

Se o Ministério Público Estadual de Santo André não levou adiante o caso Semasa ao salvar a pele de todos os bandidos sociais envolvidos nas traquinagens de venda de licenças ambientais de dezenas de empreendimentos imobiliários, o que esperar de mudança?

O interesse é que o mesmo promotor criminal que trabalhou no caso Celso Daniel, e que não economizou alarido público para denunciar como criminoso um inocente porque assim o governo estadual tucano pretendeu sempre, esse mesmo promotor criminal não enxergou um palmo de safadeza entre os empresários que, juntamente com servidores públicos e apaniguados políticos, assaltaram o Semasa. 

Não é preciso recorrer à literatura mais tradicional de crimes de bandidagens para saber que algo há de muito errado na conclusão do Ministério Público Estadual. Basta ouvir o que dizem os representantes da força-tarefa da Lava Jato sobre dezenas de inquéritos instaurados e concluídos. Recentemente o juiz Sergio Moro enfatizou que não existe corrupção sem os dois lados do balcão, dos servidores e dos empresários. Santo André tem um representante do Ministério Público, Roberto Wider Filho, que preferiu caminho inédito de corrupção unilateral.

Perguntaria o leitor mais meticuloso que tipo de ação o prefeito Paulinho Serra poderia liderar para reduzir a farra dos bandidos sociais imobiliários em Santo André. Simples: basta entender-se com o Ministério Público, sobretudo com o titular da área de Cidadania, sobre o qual tenho as melhores referencias, e montar força-tarefa inclusive com representantes da sociedade (alguém da Ordem dos Advogados do Brasil que não frequente os escaninhos do ex-presidente vendedor da farsa de moralidade) e dar ampla publicidade às ações. 

Quem sabe o denunciante cujo depoimento ao Ministério Público Estadual virou segredo de Justiça, possa colaborar e ter as complicações com o Judiciário amenizadas, entregando o serviço completo do qual teve conhecimento prático durante a Administração de Aidan Ravin? 

Usos e abusos 

Se o denunciante Calixto Antônio Júnior for inviável por razões judiciais, há disponível na praça, pronto para contar tudo o que sabe, o ex-superidentente do Semasa, Ney Vaz. São poucos com intimidade no uso e ocupação de solo em Santo André como Ney Vaz. Foi ele quem me informou sobre o escândalo do Residencial Ventura, uma associação da Família De Nadai com a Even Incorporadora. O condomínio foi construído no Bairro Jardim, em terreno constatado como contaminado ambientalmente. Foram 70 anos de indústria química ali. 

Fui condenado em duas instâncias denunciar o esquema. Apenas em terceira instância fui salvo, e mesmo assim por conta de erro processual tão evidente quanto inexplicavelmente subjugado à farra de interpretação que antecipava à época a sentença me imputada recentemente. 

Não faltam alternativas para Paulinho Serra virar Paulo Serra sem o marketing adotado pelos jornais e sites na região. 

Eventos e legado 

O evento que a Administração do tucano realizou ontem de manhã no Teatro Municipal de Santo André tem seu valor, mesmo exageradamente triunfalista para um Município que não honra mais o próprio hino oficial. 

Paulinho Serra precisa entender que a marca de uma Administração não se instala na alma dos moradores apenas por conta de eventos. Há imperiosidade de se adotarem medidas profiláticas que, entre outras virtudes, melhorariam substancialmente o ambiente de negócios no Município e deixem, portanto, um legado a novas gerações. 

A máfia informal que controla o uso e ocupação do solo de Santo André não é muito diferente de outras máfias do mercado imobiliário na região. Dar-lhes tratamento de choque e abrir as portas da informação para a sociedade seriam passo imenso a novos tempos. 

Falar em novos tempos em Santo André e na região sem dar um peteleco nesses espertalhões que passaram incólumes pelo escândalo do Semasa é assinar atestado de desprezo ao interesse público. Sonho com o dia em que utilizarei o nome de batismo de Paulinho Serra neste espaço. Mas ele precisa dar uma forcinha para isso. 

Os bandidos sociais do mercado imobiliário, minoria de uma atividade em que a maioria sofre os efeitos perversos da concorrência desleal, não podem continuar livres, leves e soltos. E ainda posando de beneméritos. 

Vai Paulinho. Deixe de ser diminutivo como tantos outros o foram mesmo sem terem sido na identidade nominal. 

Uma Operação Andaime em Santo André, liderada pelo prefeito, é o sonho de consumo de todos os ingênuos da praça. 

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