Sociedade

Morando quer Policia Federal,
mas esquece o próprio quintal

  DANIEL LIMA - 28/08/2017

Deu no Diário do Grande ABC de sábado que o prefeito Orlando Morando quer uma delegacia da Polícia Federal, preferencialmente em São Bernardo, para atender a Província dos Sete Anões. Província dos Sete Anões é a designação deste jornalista para o outrora Grande ABC. A ideia de Morando é excelente. Mas há temperos éticos ao alcance de mãos e mentes domésticos que poderiam anteceder a medida sugerida, que depende de terceiros. 

Por exemplo: criar uma Controladoria-Geral independente na Prefeitura de São Bernardo e espalhar a ideia, como prefeito dos prefeitos do Clube dos Prefeitos, aos demais territórios da região.

Uma Controladoria-Geral sem vínculos de subalternidade ao chefe do Executivo é o sonho de consumo da cidadania tão precária na região. Controladorias ou corregedorias de araque servem para enganar os trouxas porque vendem gato por lebre. Tanto quanto ouvidorias ramificadas em interesses políticos de plantão.

Nenhum prefeito da região teria peito suficiente para atender a esse reclamo porque saberiam todos que teriam complicações não necessariamente porque sejam agentes de transgressões -- é a máquina pública que exige cuidados extremos e nenhum estaria disposto a romper laços com apoiadores tradicionais e de ocasião que fazem no Estado lambanças geralmente impunes. 

Pressões de aliados 

Tenho razões de sobra para entender que Orlando Morando não está disposto, para valer mesmo, a moralizar a gestão pública que recebeu de herança do petista Luiz Marinho e, tampouco, em cortar da própria carne de eventuais incorreções.

O exemplo mais emblemático de que a gestão de Orlando Morando está no pedaço regional para ser seletiva no apontamento e também em eventuais ações profiláticas herdadas do petismo é o caso do condomínio Marco Zero, da MBigucci, forradíssimo de irregularidades. O prefeito Luiz Marinho encobriu as falcatruas do edital, suficientes para colocar aquela roubalheira nos devidos trilhos. 

Basta uma medida do prefeito Orlando Morando para acabar com a farra daquele investimento viciadíssimo, conforme está mais que materializado no denso trabalho jornalístico que executei e, também, no pronunciamento material dos assessores do então prefeito Luiz Marinho. As provas do crime estão lá, se preferirem desconsiderarem as provas gigantescas que produzi. 

Referência aguardada 

Tão denso e tão forte foram aquelas matérias jornalísticas que jamais a MBigucci me acionou na Justiça. E se o fizer se dará muito mal. A debilidade de argumentação não resistirá a investigação para valer do Ministério Público e quem sabe da Polícia Federal que Orlando Morando anuncia querer tanto ver na região. 

Ainda tenho esperança de que Orlando Morando vire referência de algumas coisas produtivas na região durante o mandato de quatro anos. Não solapo a expectativa de frutificarem iniciativas, por mais que o titular do Paço de São Bernardo desempenhe potencial estonteante de gerar frustrações. As iniciativas tomadas no campo da regionalidade são regressivas ao estágio de pré-provincianismo. Praticamente esfacelou a Agência de Desenvolvimento Econômico. Não bastasse, a pretexto de nacionalizar a entidade, esvaziou o Clube dos Prefeitos com um braço mequetrefe de representação em Brasília tendo-se como perspectiva o crescimento sistêmico da região.

Poderia abrir um guarda-chuva de frustrações originário das decisões de Orlando Morando como prefeito e como prefeito dos prefeitos. Não é o caso deste artigo. O tucano esmera-se em produzir espumas e em cultivar insensibilidades. 

Orlando Morando produz espumas, por exemplo, quando avoca para si (depois foi obrigado a voltar atrás porque este jornalista colocou os pingos nos respectivos is) os investimentos da Volkswagen em dois novos modelos numa fábrica então cada vez mais próxima da inutilidade. Esse mérito, a duras penas, foi concebido pelos executivos da multinacional alemã em acordo dolorido com os metalúrgicos de São Bernardo. O fair-play entre alemães e cutistas não resistiu à realidade que indicava uma fábrica a caminho do encerramento de atividades. 

Orlando Morando cultiva insensibilidade quando subestima o empobrecimento contínuo de São Bernardo e da região, sobretudo nos últimos três anos, e promove festa de arromba no Pavilhão Vera Cruz para comemorar mais um aniversário da cidade. Tudo com requintes de marketing Doriano. Marketing Doriano é uma corruptela do estelar João Doria, profissional da prestidigitação administrativo-política mais retumbante destes tempos.  

Por enquanto, Orlando Morando constitui-se zelador-chefe de São Bernardo. E mesmo assim com buracos a tapar no sentido mais amplo da expressão. Confia-se plenamente, e os demais titulares dos paços também, no marketing de transformar varejismo em reforma estrutural. Isso é conversa para ludibriar incautos. Por mais que sejam importantes ações de zeladoria – e as pesquisas indicam essa demanda imediata da sociedade – essa modalidade de gestão pública é tiro curto. Não resistirá nestes tempos de tecnologias de comunicação móveis, a pautas mais densas. As redes sociais constroem e destroem verdades da mesma forma que não dão tréguas a orquestrações sem sustentação material e moral. 

Sei que sei porque sou bem informado e sou bem informado porque tenho fontes em diversos escalões partidários e ideológicos que o prefeito de São Bernardo começa a sofrer desgaste nos bastidores administrativos. Já há dissidentes silenciosos que, mais dia menos dia, poderão alardear insatisfação pública. 

Se é verdade que é natural esse tipo de esgarçamento, porque a lua de mel dos primeiros meses sempre acaba, não é comum, entretanto, que os sinais não sejam detectados por quem está no comando do Município. Orlando Morando não teria sensores que o colocariam em dia como o andamento dos casos de rupturas prováveis. Ou está bem informado e, para enfrentamento indireto, tem-se esmerado em fazer dos jornais da região seu campo de operações de marketing. Como no caso da delegacia de Polícia Federal para a região. 

Faltam contrapontos 

O contraponto de completa ausência de medidas próprias, no interior da Administração de São Bernardo, e também no Clube dos Prefeitos, não consta da agenda do prefeito, até porque indigesta. 

De qualquer maneira, seria ótimo se a Polícia Federal para a região viesse. Assim será possível preparar uma lista de escândalos regionais à espera de investigações e penalidades. A começar pelo Marco Zero da Vergonha, protegidíssimo pelos petistas que passaram pelo Paço Municipal e, até prova em contrário, também pelo atual ocupante. Tanto que não se furtou a participar da cerimônia de inauguração do empreendimento recentemente. 

 Sei lá se o vereador Julinho Fuzari também esteve presente. É provável que tenha estado. Quando do estouro do escândalo ele alardeou uma CPI no Legislativo para apurar as irregularidades. Não passou disso. Não à toa CIP é sempre vista como fonte de grandes acordos. 

Se a Polícia Federal desembarcar na região com o espírito revolucionário da Polícia Federal da Operação Lava Jato, teríamos um presente divino. Provavelmente jornalista independente não seria ameaçado de prisão por uma sentença judicial que beneficiou uma entidade (Clube dos Construtores) persistente causadora de estragos sociais.  

Leia mais matérias desta seção: