Administração Pública

Prefeitos na mira de redes
sociais e da Rede Globo

  DANIEL LIMA - 04/09/2017

Os prefeitos da Província dos Sete Anões, outrora Grande ABC, não terão vida mansa nestes tempos de aplicativos de celular em forma de publicações, de microemissoras de rádio e de televisão e tampouco com o empenho da Rede Globo, principalmente, em fazer da Região Metropolitana de São Paulo pauta preferencial de jornalismo na hora do almoço. 

Exatamente no período em que pedalo minha bicicleta ergométrica, mais frequente porque me recupero para voltar às ruas, a TV Globo tem sido constante em reportagens direcionadas a problemas de zeladoria que tanto pesam no bom humor das populações. A Província recebe sistematicamente os jornalistas da TV Globo. Problemas corriqueiros e de impacto localizado à imagem de gestores públicos ganham ares de clássico de direitos de cidadania. 

Há vários pontos que devem ser considerados pelos prefeitos de plantão na região e os comandantes dos jornais locais. Nas duas situações a notícia não é das melhores. 

Domesticação em xeque

Para os prefeitos é complicado acreditar que bastará domesticar a mídia regional para se dar bem na corrida por credibilidade e aprovação. Pode parecer que questões pontuais de entulhos fora do lugar, de ruas esburacadas, de obras paralisadas, de tudo isso e muito mais, não tenham peso relevante. Mas têm sim. Ainda mais que os prefeitos locais, à falta de recursos orçamentários, praticamente estão barrados de grandes projetos. A soma de quinquilharias que tanto agitam a vida de moradores aqui e ali, e que fermentam ambiente geral de insatisfação, ganha ressonância e causa estardalhaços imensuráveis. Opositores políticos reverberam o noticiário televisivo da Capital nas redes sociais instrumentalizadas localmente. 

Antes um recurso episódico, está-se tornando frequente e cada vez com mais qualidade técnica. Ainda não temos o que os especialistas chamam de jornalismo cidadão em profusão, mas há registros de ações midiáticas produzidas por gente com interesses específicos, sobretudo partidários.

Para os veículos de comunicação locais o descrédito pode ser um passo incontrolável à medida que casos mesmo que restritos a determinadas localidades, mas de influência no ambiente municipal, ganhem proporções além da conta quando viram informação qualificada num meio de comunicação da robustez da Rede Globo. 

Agentes propagadoras 

Minimizar ou mesmo omitir deficiências e erros dos administradores públicos pode pegar mal aos jornais da região. Os leitores que também são telespectadores da Globo na extensão familiar vão começar a desconfiar dos critérios de pesos e contrapesos utilizados de cobertura jornalística e edição. As donas de casa são propagadoras de informações familiares; e são a elas que a TV Globo dirige o noticiário do meio dia. 

O caso das unidades de saúde fechadas pelo prefeito Paulinho Serra (e aqui, por enquanto, não vai qualquer juízo de valor sobre a medida, embora tenham sido emitidos sinais de que se improvisou e se omitiu ao se acreditar que tudo passaria em branco) virou assunto da TV Globo muito antes de os jornais colocarem envergonhadamente o bloco nas ruas. 

Salvo engano, todos os veículos da região sentiram-se acuados ante a repercussão do caso, que, claro, extrapolou alguns minutos da programação da maior produtora de conteúdo jornalístico da televisão brasileira. Daí ao recrudescimento nas redes sociais locais foi um passo. 

Mais fragmentação 

Vivemos uma sociedade fragmentada em tantos aspectos e a política provavelmente é a mais transparentemente em conflito. Particularmente na Província, os efeitos que já se manifestam de conflitos partidários e administrativos vão acrescentar novo tijolo no edifício de enfraquecimento de uma regionalidade por si só carente de conexão de verdade desde que inventaram que somos a soma de sete municípios. 

A luta político-partidária regada a ideologias incandescentes vai inviabilizar ainda mais os objetivos de integração regional. Os administradores públicos estarão cada vez mais inquietos com temáticas pontuais, preocupadíssimos com o monitorar e com o equacionamento de demandas em xeque. Basta acompanhar o noticiário dos jornais locais para constatar o volume diário de informações que dão conta de ações tópicas, enquanto as grandes questões estruturais, de médio e longo prazo, são jogadas às traças.

Se nos tempos em que as tecnologias de informação não contavam com o manancial de alternativas e qualidade de agora os debates sobre a importância de uma regionalidade potencializada já se configurava espécie de heresia, elevando Celso Daniel à condição especial e exclusiva de único prefeito dos prefeitos de verdade, o que esperar agora que o circo de narrativas pegou fogo? 

IPTU sem transparência

O tiroteio é geral mas as versões que embaralham os fatos não são uma terra a ser adubada indefinidamente para confundir a plateia. Na medida em que fontes de tradição e respeitabilidade no campo jornalístico ganham entranhas sociais, em quantidade nas periferias e em qualidade nos formadores de opinião (o segundo caso é específico desta revista digital), os muros de contenção de incômodos que determinadas publicações sempre levantaram serão demolidos. 

O que quero dizer com tudo isso? Os jornais da região precisarão redobrar cuidados para não sofrerem novos impactos de demandas da sociedade consumidora de informações. 

Um exemplo é o caso do aumento abusivo do IPTU em Santo André (estou preparando uma análise a respeito que vai deixar o prefeito Paulinho Serra entre a cruz do açodamento financeiro e a espada da formatação do projeto de lei que enganou o eleitorado). Por mais que tenham escondido, quando não sonegados detalhes da operação que assalta os contribuintes de Santo André, os jornais não obterão sucesso na empreitada. Cresce a massa de insatisfeitos alimentados pelas redes sociais. Trata-se de corrida contra o tempo. Quanto mais a próxima temporada de cobrança do imposto chegar, em janeiro, mais a população vai se dar conta de que lhe pregaram uma molecagem. 

Cofres debilitados 

Não deixo de reconhecer que a atual leva de prefeitos da região foi colhida no contrapé orçamentário. Pegaram uma bomba em forma de recuo de receitas em contraposição às exigências de uma sociedade que quer expectativas atendidas a qualquer custo, menos com novos impostos. 

É muito pouco provável que os prefeitos atuais consigam nos próximos dois anos, além do atual, dar um nó nas expectativas do eleitorado que também é contribuinte. Talvez somente no último ano de gestão tenham algum fôlego. 

Vivemos um conto de fadas durante os anos falsamente dourados de receitas tributárias do governo Lula da Silva. Prometeram-se muitas obras na região e o que temos são esqueletos à espera de decisões que exigem muito investimento. Não bastasse isso, o peso relativo do setor industrial continua elevado e monstruosamente convidativo a novos desfalques, seguindo a rotina nacional. A lógica de quem tem mais sofre mais num Pais marcado pela desindustrialização constante é cruel. O paradoxo industrial nos tira o sono.

A Rede Globo e as redes sociais vão deitar e rolar por muito tempo, com tendência de elevação dos níveis de insatisfação da sociedade. É melhor os jornais locais atentarem à mudança de rota que, de insinuante num passado recente, agora ganha formas mais robustas e inquietantes. Quem não se aperceber vai cair em descrédito numa velocidade movida a tecnologia de ponta em associação a uma voracidade quase insana de invasão às entranhas do poder.  

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