Imprensa

Doutor Jarbas deveria ler
Azevedo e Safatle na Folha

  DANIEL LIMA - 22/09/2017

Nenhum dos dois me agrada, mas faço questão de consumi-los sempre, assim como tantos outros articulistas das mais variadas especialidades. Inclusive de cinema e televisão, além de futebol, que tem o mestre Tostão acima de todos. O doutor Jarbas Luiz dos Santos, da 3ª Vara Criminal de Santo André, deveria fazer o mesmo. Quem sabe, caso siga meu conselho, o conselho de um réu que ele puniu com oito meses de prisão em regime semiaberto (sobretudo porque não entende do riscado da liberdade de expressão), o doutor Jarbas se torne um meritíssimo melhor. Pelo menos não cometeria barbaridades. 

Os colunistas da Folha de S. Paulo, Reinaldo Azevedo e Vladimir Safatle, distribuem bordoadas no Supremo Tribunal Federal e nas Forças Armadas. Jamais aporia minha assinatura em qualquer um dos textos, mas respeito o direito de escreverem o que acharem melhor. A credibilidade é o preço de quem se manifesta, não uma sentença judicial descabida. O doutor Jarbas deveria saber disso. 

O militante Reinaldo Azevedo, que vê em Michel Temer o mais puro dos presidentes, como se não fosse metade da laranja podre dos governos petistas de coalização, e o radical chique Vladimir Safatle, ultrapassam meus limites ideológicos. Mas se o fazem, que continuem a fazer. Pior que um articulista que consumimos mesmo sem admirar é um articulista banido das lides jornalísticas porque um juiz metido a besta no sentido de interpretação da liberdade de expressão resolve interferir. 

Paulada de Reinaldo Azevedo

Sem retirar do contexto, como o fez ardilosamente o corpo de advogados emprestados pelo conglomerado MBigucci ao Clube dos Construtores na queixa-crime contra mim, reproduzo alguns parágrafos do artigo de hoje de Reinaldo Azevedo sob o título “Jurisprudência da ingovernabilidade”.

 Mais grave do que um Ministério Público Federal que adere a práticas criminosas sob o pretexto de combater o crime, é um Supremo Tribunal Federal que cobre com a toga a sua própria covardia. Os doutores se esmeram na servidão voluntária. A instância máxima do Judiciário, em parceria com o MPF, está criando a jurisprudência da ingovernabilidade. A defesa do presidente Michel Temer enviou dois pleitos à Corte (...). O que esperar de quem só é relator do caso JBS porque se fraudou o princípio do juiz natural? Ou me digam o que tal caso tem a ver com Petrobras? Janot, o acusador, escolheu o juiz. E o STF agasalhou a fraude, coonestado, de saída, por Cármen Lúcia. Jurisprudência da ingovernabilidade. (...) O STF decidiu que uma denúncia que fere a Constituição pode depor um presidente da República. Decidiu que não tem autoridade para impedir o trâmite de um ato que esmaga a sua própria autoridade. Decidiu, em suma, dar um autogolpe. Não para assumir o poder, mas para se pôr de rastros. Essa é a jurisprudência da irresponsabilidade – escreveu Azevedo. 

Paulada de Vladimir Safatle

Agora vamos a alguns dos trechos do texto de Vladimir Sataflet sob o título “O Exército e o verdadeiro caos”: 

 Talvez não exista momento mais propício do que este para se lembrar da frase de Adorno e Horkheimer, para quem há horas em que não há nada mais estúpido do que ser inteligente. A frase se referia à incapacidade de setores da sociedade alemã de encararem claramente os signos dos anos 1930 e pararem de procurar explicações sutis e inteligentes sobre a impossibilidade de o pior ocorrer. (...) De fato, nosso país tem ao menos a virtude da clareza. E foi com a clareza a guiar seus olhos redentores que o general Antonio Hamilton Mourão revelou aos brasileiros que as Forças Armadas têm um golpe militar preparado, que há uma conspiração em marcha a fim de destituir o poder civil. Para mostrar que não se tratava de uma bravata que mereceria a mais dura das punições, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas descartou qualquer medida e ainda foi a televisão lembrar que sim, as Forças Armadas podem intervir se o “caos” for iminente. O “caos” em questão não é a instauração de um governo ilegal e brutalizado saído dos porões das casernas. Ao que parece, “caos” seria a situação atual de corrupção generalizada. Só que alguém poderia explicar à população de qual delírio saiu a crença de que as Forças Armadas brasileiras têm alguma moral para prometer redenção moral do país? (...) As Forças Armadas nunca foram uma garantia contra o “caos”. Elas foram parte fundamental do caos. – escreveu Safatle. 

Provincianismo demais 

Quando escrevo que o doutor Jarbas Luiz dos Santos deveria se inscrever no projeto do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) para inteirar-se sobre a prática de jornalismo e, consequentemente, de liberdade de expressão e de liberdade de imprensa, quando não de liberdade de opinião, apenas estendo um conceito que é daquele organismo que supervisiona o Judiciário do País e, por isso mesmo, reconhece publicamente que há representantes do setor muito aquém do esperado num regime democrático. 

O que o meritíssimo de Santo André cometeu contra este jornalista foi um atentado que começou antes da audiência, foi violentador durante a audiência e se consolidou estapafúrdio na sentença propriamente dita. 

O Clube dos Construtores dirigido então pelo famigerado empresário Milton Bigucci é muito mais que mequetrefe chinfrim e inútil. Talvez peça reforço a Reinaldo Azevedo e a Vladimir Safatle para qualificar a entidade de forma mais apropriada e contundente. Afinal, o Complexo de Gata Borralheira coloca sobre este jornalista um peso de submissão cultural típico dos provincianos. 

Os mesmos provincianos que a mim criticam porque mexo direta ou indiretamente com seus aliados locais, admiram os mais contundentes articulistas de publicações do entorno, da Capital, porque eles mexem com gente distante dos interesses locais. 

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