Caso Celso Daniel

Versão farsesca da morte
do prefeito vira livro (13)

  DANIEL LIMA - 27/09/2017

O jornalista Silvio Navarro consumiu todas as páginas do livro “Celso Daniel, política, corrupção e morte no coração do PT” para cristalizar uma mentira conceitual que, de tão repetida antes mesmo de lançar aquela sequência de páginas recheadíssimas de ficção, tornou-se verdade aos olhos, ouvidos e mentes populares. 

Que mentira é essa que vira verdade? A de que o empresário e primeiro-amigo do então prefeito de Santo André fora o mandante do assassinato que abalou o Brasil naquele 20 de janeiro de 2002, domingo, quando foi anunciado que aquele corpo estendido numa estrada de terra batida na periferia da Região Metropolitana de São Paulo era de Celso Daniel. O primeiro-amigo é Sérgio Gomes da Silva. Há exatamente um ano ele morreu num leito de hospital.

Sérgio Gomes da Silva recebeu da força-tarefa do Ministério Público o codinome estigmatizador de “Sérgio Sombra”. Tudo para caracterizar a imagem de um bandido a ser crucificado em todas as praças. Sérgio Gomes era conhecido nos bastidores da Prefeitura de Santo André como Sérgio-Chefe. “Sombra” não constava das relações oficiais de Sérgio Gomes. Integrava o léxico de alguns adversários do petista. Era próximo de Celso Daniel como ninguém.  

Sempre que se falar da atuação de Sérgio Gomes da Silva no caso Celso Daniel é preciso lembrar que tanto a Policia Civil de São Paulo, em três investigações, quanto a Polícia Federal, em uma, jamais o apontaram como mandante do crime, como insistiu literalmente até a morte o Ministério Público Estadual. E insistirá sempre que o crime for objeto de tratamento da mídia. 

Bode expiatório do MP

Sérgio Gomes da Silva foi o bode expiatório de uma operação que logrou inteiro êxito, determinada pelo grupo de estratégia política do governador Geraldo Alckmin logo após a estrondosa repercussão do sequestro seguido de assassinato.

A criminalização de Sérgio Gomes da Silva, que passou as últimas horas daquela sexta-feira com o então prefeito de Santo André, num restaurante da Capital, foi a fórmula encontrada pelos tucanos para jogar a bomba da espetacularização do crime no colo petista. E também, ou principalmente, uma réplica de guerrilha eleitoral de lideranças petistas por conta do estado lamentável do setor de Segurança Pública no Estado. Na guerra político-eleitoral (as eleições para governador do Estado e para a presidência da República seriam disputadas oito meses depois) quem pagou caro foi Sérgio Gomes da Silva.

Não se encontrará jamais no livro de Silvio Navarro um capitulo que, mais que o registro, contextualize o assassinato de Celso Daniel ao ambiente de Segurança Pública em frangalhos que, principalmente a Região Metropolitana de São Paulo, vivia. Era o caos. A morte de Celso Daniel teve repercussão internacional e levou o governador a alterar a política no setor. Substituiu um secretário defensor dos Direitos Humanos desde os tempos de Mário Covas, titular do Palácio dos Bandeirantes, por um secretário de linha-dura. A imprensa favorável à versão de crime de encomenda, municiada pela força-tarefa dos promotores criminais instalados em Santo André, raramente situou o crime ao estado de penúria do ambiente criminal sobretudo na Região Metropolitana de São Paulo.

Ambiente criminal desprezado

O jornalista que produziu um livro pontuado de imprecisões, omissões e tantas outras imperfeições para vender a mensagem de que o crime fora cometido intelectualmente por Sérgio Gomes da Silva, por conta das então supostas propinas na Prefeitura dirigida por Celso Daniel, reservou poucas linhas ao ambiente criminal de São Paulo naquele janeiro de 2002. Leiam: 

 No Estado de São Paulo, a segurança pública era justamente o calcanhar de Aquiles do PSDB na época, às voltas com índices de criminalidade alarmantes. Na virada do século, o território paulista vivia uma onda crescente de sequestros. Foram 321 casos em 2002, contra 227 em 2001 e 63 em 2000. Quem morava em São Paulo andava perturbado com o temor de acordar num cativeiro e os meios de comunicação lembravam isso todos os dias. A capa do jornal Folha de S. Paulo da segunda-feira, dia 21, foi praticamente toda dedicada ao crime. “Morte de prefeito sequestrado piora crise na segurança de São Paulo” era a manchete. (...) O PSDB estava muito preocupado com o impacto daquele crime nas urnas. Tanto que o próprio governador paulista, ao lado de seu secretário de Segurança Pública, Marcos Vinício Petrelluzzi, que deixaria o cargo em 22 de janeiro, não descartou a tese petista de que a morte poderia ter razão política; “Não podemos ignorar que é o segundo prefeito importante do partido assassinado – disse Alckmin”. 

Editorial da Folha de S. Paulo 

Silvio Navarro poderia ter rebocado às páginas do livro o Editorial da Folha de S. Paulo daquela edição de 21 de janeiro de 2002. Leiam o que a Folha escreveu sob o título “Segurança no cativeiro”: 

 O sequestro e a morte do prefeito de Santo André, Celso Daniel, encaixam-se perfeitamente na sequência de atos audaciosos e brutais que o crime organizado vem perpetrando no Estado de São Paulo. Se houve motivação politica no assassinato, hipótese que não pode ser descartada, então algo de inominável gravidade terá sido acrescido à vida pública do país. Na noite de sexta-feira, Celso Daniel foi sequestrado na zona sul da cidade de São Paulo. Na final da manhã de ontem, seu cadáver foi encontrado em Juquitiba (a 78 quilômetros da capital), crivado de balas. Dos sequestradores pouco se sabe. De suas intenções, idem. Ao que consta, nenhum contato foi feito com a família do prefeito do PT. Houve ligações de um grupo obscuro para o telefone celular do senador Eduardo Suplicy. Mas as autoridades as tomaram como uma ação de pessoas que nada teriam a ver com o crime, mais uma ousadia oportunista da bandidagem. 

Mais Editorial da Folha 

 Em setembro, outro prefeito petista, Antonio da Costa Santos, de Campinas, foi morto a tiros em circunstâncias até agora não esclarecidas. Essa coincidência impele as autoridades policiais a investigarem também a hipótese de crime político. Como sempre, depois de arrombada a porta, se recorre ao cadeado. Foi preciso que a ousadia do banditismo organizado chegasse ao ponto de sequestrar e assassinar o político que cumpria seu terceiro mandato na direção da maior cidade do ABC Paulista para que o governo do estado se movesse. Geraldo Alckmin marcou para hoje uma reunião em caráter de urgência com o presidente Fernando Henrique Cardoso. Lá pretende apresentar novas propostas para a segurança pública. Mais policiais nas ruas, recompensa para quem denunciar criminosos e unificação das policias estariam entre elas. É tarde, infelizmente, para preservar a vida de Celso Daniel e a de tantas outras vítimas da violência que se expande sem parar nas grandes cidades brasileiras. Mas é preciso reagir.

Artigo de Vinícius Freire

É claro que o escopo do livro escrito por Silvio Navarro não abria espaço ao contraditório e, principalmente, à realidade dos fatos nos sentido mais amplo da expressão. Na mesma Folha de S. Paulo daquela segunda-feira, 21 de janeiro de 2012, o jornalista Vinicius Torres Freire escreveu sobre o assassinato de Celso Daniel sob o título “Terror e terrorismo em São Paulo”. Leiam: 

 “O que mais pode acontecer” e “Pode ter sido qualquer coisa” são uma pergunta e uma resposta que escapam a toda hora da boca dos brasileiros aterrorizados pela bandidagem descarada, os paulistas em particular. Muita vez ditas em tom de incredulidade rotinizada e vazia, tais palavras no entanto parecem muito adequadas a nós, que nos assemelhamos a pessoas em estado de choque, brutificadas por medo ou violência tão difusos quanto absolutos. É o balbucio dos desorientados, de quem não vê mais razão ou saída para o terror que é ou pode ser vítima, aleatório e desvairado. O terrível assassinato de Celso Daniel pode ser obra de terrorismo político. Que dois prefeitos do PT tenham sido mortos em cinco meses pode ser também obra de coincidências, pois tanta gente é violentada e morte. Qualquer terror parece possível mas, ainda que bestificados, sabemos de onde ele vem. Vem da desmoralização de normas e de instituições, em parte tomadas pelo crime, público ou privado. Da tolerância com facínoras, em especial da tolerância exemplar com facínoras ricos e poderosos. Da fartura de armas de fogo.

Mais artigo de Vinicius Freire 

 A política é podre e apodrece na mansuetude com que é tratada pelos governos, vide a leniência tucana com insubordinações e ousadias de policiais paulistas; vida fábulas como o “plano de segurança” de FHC natimorto há dois anos. A bandidagem ri desabrida das cadeias de onde foge, voando ou sob a terra, ou que toma em rebeliões rotineiras e controla com a carceragem cúmplice. A desordem se vê na criação de milícias particulares à matroca – privatizaram a polícia. Difunde-se com narcomáfias, umas já instaladas em governos, parlamentos e Justiças. O horror vicejou enfim na grande desesperança do Brasil de 20 anos de crise, no cinismo que prosperou quando a expectativa de vida decente tornou-se objeto de ridículo, pois gerações cresceram em meio à desigualdade social extrema, expropriadas de valores, dignidade e de futuro, no país mais injusto do mundo. 

Artigo de Fernando Rodrigues 

Ainda naquela edição de 21 de janeiro de 2002, um dia após o enterro do corpo de Celso Daniel, é bom lembrar insistentemente, também na página de artigos da Folha de S. Paulo, o jornalista Fernando Rodrigues escreveu sobre o caso, sob o título “O assassinato e a eleição”. É claro que Silvio Navarro não fez qualquer menção ao artigo. Leiam: 

 Uma morte pode alterar o desfecho de uma eleição. Em 1988, a Prefeitura de São Paulo estava nas mãos de Paulo Maluf. As mortes de três operários em Volta Redonda, numa greve da CSN, ajudaram a então petista Luiza Erundina a vencer a disputa na reta final. É evidente que Erundina não foi vitoriosa por causa de Volta Redonda. Mas é inegável a ajuda indireta que o lamentável episódio lhe prestou. A morte do prefeito de Santo André, Celso Daniel, de forma bárbara, terá consequências políticas neste ano eleitoral. Ainda é impossível precisar quais serão os efeitos nas urnas. Só não resta um centímetro de dúvida sobre o uso eleitoral – aliás, legítimo – que o PT fará daqui para a frente do debate sobre segurança pública. É justo o PT priorizar o assunto. Trata-se de uma das principais preocupações da sociedade em grandes centros. Além disso, vários petistas foram vítimas diretas da violência no Estado de São Paulo. Já há dois prefeitos mortos (de Santo André e de Campinas). Outros dois estão vivos, mas foram alvos de atentados (nas cidades de Catanduva e Embu). 

Mais artigo de Fernando Rodrigues 

 “Vamos mobilizar a sociedade. A segurança pública tem de virar prioridade” diz o presidente nacional do PT, deputado José Dirceu. “Vamos convidar a população a usar roupas brancas. Vamos fazer manifestações. Pedir que o comércio feche as portas por um período como forma de protesto”, exemplifica o deputado Aloizio Mercadante, candidato ao Senado pelo PT de São Paulo. E não é só isso. “Está prometido”, disse o deputado José Genoino, candidato petista ao governo de São Paulo, ao responder a um pedido do locutor esportivo Milton Neves, numa entrevista ao vivo para a rádio Jovem Pan, no início da tarde – pouco antes do jogo do Corinthians. A promessa ouvida pelos torcedores: apresentar um projeto de lei para aumentar a pena de prisão contra sequestradores. O PT, aos poucos, encontra seu novo discurso deste século 21. 

Editorial do Estadão 

Para completar, embora a oferta de exemplares de manifestações de jornalistas e especialistas em segurança pública seja imensa quando do assassinato de Celso Daniel, o jornalista Silvio Navarro poderia ter recorrido ao Editorial (espaço nobre de opinião de uma publicação) do concorrente da Folha de S. Paulo, o jornal O Estado de São Paulo, do dia 22 de janeiro, dia seguinte ao enterro do corpo de Celso Daniel. Ali está um retrato bem acabado do estado de penúria da Segurança Pública paulista, situação que, mais tarde, foi confirmada pelas investigações policiais como gênese do sequestro e do assassinato de Celso Daniel. Repasso integralmente aquele Editorial: 

 O sequestro e o assassinato do prefeito Celso Daniel provocaram a justa indignação da população e dos políticos, despertando nos últimos a lembrança de que existem parados no Congresso projetos que poderiam, se estivessem aprovados há mais tempo, ter contribuído para interromper a onda de violência que aterroriza as cidades brasileiras e São Paulo, em particular. O crime hediondo que vitimou Celso Daniel está tendo grande repercussão por ter sido ele três vezes prefeito de Santo André, coordenador da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva e um dos políticos mais populares e queridos do Interior paulista. Muitas outras pessoas tiveram o mesmo destino trágico de Celso Daniel sem que houvesse a comoção popular que marca esse caso. Assaltos, sequestros, homicídios tornaram-se parte do cotidiano dos paulistas e foi preciso que alguém com o perfil do prefeito de Santo André fosse vítima de um crime bárbaro – que assim como o que vitimou o prefeito de Campinas, Antonio da Costa Santos, em setembro, não parece ter tido conotação político-ideológica – para que abalasse a letargia em que as autoridades estaduais pareciam estar diante da ousadia crescente dos criminosos. 

Mais Editorial do Estadão 

 Os níveis extravagantes a que chegou o crime em São Paulo – resultado direto da cumulativa incompetência de sucessivos governos – autorizam dizer que as cada vez mais ousadas façanhas do banditismo até superam, em matéria de vítimas e de efeitos profundos sobre o cotidiano de milhões de pessoas, o ataque terrorista sofrido pelos americanos em setembro. Daí não ser exagerado que o presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Geraldo Alckmin falem, agora, em guerra contra o crime. Mais do que declarar a guerra, no entanto, é preciso travá-la com eficiência e pertinácia – até agora não demonstradas pela polícia – para que os bandidos de toda espécie saibam que os tempos da impunidade acabaram e o crime, finalmente, não compensa. 

Mais Editorial do Estadão 

 É preciso definir e pôr em prática o quanto antes as medidas capazes de prevenir e reprimir, com a máxima dureza autorizada em lei, a escalada de banditismo. Cita o governador paulista a torto e a direito o número de sequestradores presos ou mortos. Mas o fato é que no ano passado houve 307 sequestros no Estado, perto de cinco vezes mais do que em 2000. Há um limite para a sociedade suportar o cativeiro que lhe impuseram os malfeitores, as grades que a cercam em casa e no trabalho, a necessidade de elaborar estratégias de sobrevivência cada vez mais complicadas e psicologicamente onerosas. Há um limite também para a desmoralização do Estado, para o seu fracasso em cumprir o que é literalmente o seu dever elementar – garantir a vida das pessoas. 

Mais Editorial do Estadão 

 Esse limite foi ultrapassado muito antes da tragédia deste domingo. Mas, para não ser apenas uma tragédia a mais, o assassínio de Celso Daniel precisa representar um divisor de águas. Infelizmente, não há razão para apostar nesse resultado. A flacidez, a falta de doutrina, de articulação, de comando, de profissionalismo e de energia no combate ao crime no Estado; o envolvimento de policiais civis e militares com os bandidos; a naturalidade com que a Secretaria de Segurança Pública registra as dezenas de homicídios que ocorrem todo fim de semana na Grande São Paulo; a notícia inacreditável de que, três dias depois do resgate aéreo de dois presos em Guarulhos, a polícia ainda não tinha o retrato falado dos sequestradores do helicóptero utilizado na operação – tudo isso evidencia um descalabro que não mais pode ser tolerado pela população.

Mais Editorial do Estadão 

 Quem viu o governador de São Paulo no domingo falando na televisão sobre as medidas que irá adotar imediatamente para conter a criminalidade ficou com a impressão de que ele estava admitindo tacitamente o descalabro a que chegou a segurança pública em São Paulo. A pena de prisão perpétua para os sequestradores, o bloqueio dos bens das vítimas de sequestros e de seus familiares e o controle da venda de telefones celulares pré-pagos são medidas de regulamentação federal. Mas a oferta de recompensa para quem der informações que levem à captura de sequestradores consta de lei aprovada no ano passado e até agora não regulamentada pelo governador. A contratação de seis mil estagiários para ocupar funções burocráticas que estão sendo desempenhadas por policiais militares – que serão liberados para policiar as ruas – não é ideia nova e sua implementação depende apenas de um ato administrativo do governador. Explica-se a perplexidade de Alckmin diante da brutalidade de que foi vítima Celso Daniel. O que não se explica é a demora em adotar medidas tão comezinhas para aumentar a eficiência do combate ao crime. 

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