Sociedade

Criar versões para gerar fatos é
arte que desafia até especialistas

  DANIEL LIMA - 29/09/2017

No mundo da política, da Administração Pública, mas também da iniciativa privada, sobretudo em instituições representativas de classe, não necessariamente da classe, versões valem mais que fatos quando a falta de transparência impera. Quando não, versões são o primeiro passo à criação de fatos segundo o receituário pré-definido. Por isso, especialistas no assunto encaram tudo como grande desafio. Noticiários das editorias de política na região são uma fonte comprovada do conceito de que nem tudo que reluz hoje é ouro, mas pode ser ouro amanhã. 

Há quem prefira chamar de fofocas ensaios especulativos, mas quando a iniciativa é de profissionais que pretendem construir realidades, é melhor não subestimar a capacidade de manipulação, retirando-a, portanto, do quarto de despejos de improvisações. O jogo de sedução que conecta versões a fatos desejados não merece ser catalogado como reverberação de candinhas. É maquiavelismo autêntico. 

Na Província dos Sete Anões, outrora Grande ABC, há especialistas na arte de vender gato por lebre. Também não faltam trapalhões que transformam ouro naquela coisa que os animais costumam fazer nos pastos além de pastar propriamente dito. 

São inúmeros os contendores regionais à orquestrar ações que dependem da produtividade das especulações para chegar ao ponto que eles querem, ou seja, a decisões. Para os articuladores de experiências que levam em conta o conhecimento agregado dos personagens em ação ou omissão, o planejamento é uma etapa tão certa quanto irreversível à conclusão da iniciativa.

Conhecimento agregado entre os núcleos de iniciativas que se pretendem materializáveis é um conjunto de informações que procuram antecipar reações e iniciativas de marionetes do enredo desenhado. Trocando em miúdos: sem conhecer os adversários e os aliados qualquer tentativa de vencer o jogo de dominó de poder fracassará.

Muitas decisões que aparentemente soam como estupidez são apenas um retalho do enredo construído maliciosamente para virar o que se pretendia, ou seja, uma resolução. 

Limites operacionais 

Mas é preciso levar em conta que o mundo da especulação notadamente na Administração Pública não é uma combinação matemática que, acionada a chavinha, tudo se dará conforme o projetado. Mesmo especialistas que se baseiam no que chamaria de banco de dados comportamental dos envolvidos no projeto de vez em quando caem do cavalo. Antídotos são contrapostos por aqueles que já os conhecem. 

Seria algo como um time de futebol que, por se destacar numa competição passa a ser vigiadíssimo pelos concorrentes. As principais jogadas ofensivas e defensivas passam a ser executadas nos treinamentos justamente com vistas à neutralização. As individualidades mais influentes nos resultados do coletivo também merecem maiores cuidados. 

Ainda no campo do futebol, a metáfora mais interessante para o entendimento do comportamento da sociedade em microrganismos específicos, aí está o Corinthians que não me deixa mentir. Adversários passam horas a observar vídeos que esmiúçam cada minuto dos jogos mais importantes da equipe no primeiro turno do Campeonato Brasileiro, no qual deitou e rolou com a maior campanha da história. 

O Água Santa de Diadema é um exemplo doméstico do quanto o futebol é meritocrático e não perdoa ineficiências. No ano passado a equipe goleou o Palmeiras por quatro a zero logo nas primeiras rodadas da Primeira Divisão de São Paulo, mas não demorou para ser sequestrada taticamente pelos adversários. A equipe só contava com uma jogada ofensiva que se traduzia em gols. Eram lançamentos em diagonal para os dois atacantes sempre abertos pelas extremas e que corriam às costas dos zagueiros. Sem a opção, o time foi caindo de tal forma que acabou rebaixado. 

Diferente do futebol 

O contraste entre o mundo do futebol e o mundo da política é que o primeiro é inevitavelmente transparente. Não há como esconder o jogo. A televisão e os observadores formam batalhões de prontidão. Munidos de planilhas e de tecnologias avançadas, tudo é rastreado. 

Na política, as sombras, os bastidores bem protegidos, são o ambiente natural. As armas são rigorosamente escamoteadas. Mas, mesmo assim, como nem sempre as artimanhas são renovadas, ou também porque há vazamentos de terceiros que pretendem garantir as pontas do jogo de vantagens, tudo pode ser detectado. Ou também tudo pode ser confirmado. Há vazamentos que não são outra coisa senão a manifestação de propósito para iludir o outro lado. 

Embora aparentemente especialidade menos emocionante do jornalismo diário, a cobertura política feita por quem a torna objeto de desejos que quebrem a rotina de coberturas burocráticas se transforma em algo muito acima das expectativas. Mas é delicadíssima a função, sobremodo porque a separação de fatos e de versões desemboca muitas vezes no mesmo recipiente em que é necessário separar alhos de bugalhos. Qualquer equívoco será fatal. 

Reavaliação permanente 

Sem fontes confiáveis – e fontes confiáveis são testadas permanentemente, inclusive com algumas pegadinhas para a certificação de que não se está entrando numa fria – não há jornalista que alcance credibilidade dos consumidores de informações. Jornalistas de atividades político-institucionais precisam ter requisitos dos meias-armadores clássicos que desapareceram do futebol brasileiro de muita correria e determinação tática. Ou seja: é indispensável que reflitam e programem as ações a cada novo movimento das pedras dos interesses em alinhamento ou em choques a mover quem atua de olho no poder. 

É muito pouco provável que jornalistas que atuam na área política saibam distinguir sem riscos o que é verdade e o que são especulações nestes tempos em que o que parece boataria invade os escaninhos do poder. É verdade que não faltam ferramentas tecnológicas para agilizar diálogos com políticos em cena, compensando em parte a queda da mobilização pessoal de contatos frente a frente. Mas essa compensação carrega no ventre de complicações o vírus do distanciamento físico. Nada supera o contato olho-no-olho, o qual estabelece certa intimidade entre a fonte e o profissional de comunicação. 

Os grandes escândalos nacionais a bordo da Operação Lava Jato poderiam ter sido antecipados por jornalistas que frequentam corredores do poder. É inexorável que tudo passe pelos corredores do poder. Assim como um jornal ou um revista revela a cada edição as intenções nem sempre escancaradas mas que estão ali, subjetivamente ou não nas entrelinhas físicas e conceituais, os donos do poder também expõem inadvertidamente ou não as recompensas de que usufruem. 

Olho no olho e muita paciência na apuração dos fatos são a melhor receita para evitar atropelos. E, principalmente, para o exercício de jornalismo mais condizente com os novos tempos de leitores mais influentes. 

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