Economia

Por que a recessão econômica
não arreda pé de São Caetano?

  DANIEL LIMA - 18/10/2017

Quem será capaz de explicar as razões que transformaram São Caetano num fenômeno negativo nos últimos 12 meses, completados em agosto, quando se observa com cuidado especial o movimento das pedras do emprego industrial com carteira assinada, que é emprego de qualidade? 

Dos grandes municípios da região (ou seja, fora a pequenina Rio Grande da Serra, cujos números estão sujeitos a chuvas e trovoadas circunstanciais) São Caetano é o único que ainda não dá mostras de que tenha deixado a recessão econômica longe de suas fronteiras. 

Recessão econômica não se restringe ao mercado de trabalho formal, mas tem no mercado de trabalho formal um dos indicadores mais consistentes. Em condições normais, é um farol a iluminar o futuro e a explicar o passado. Cairá do cavalo da imprecisão quem pretender tomar o pulso econômico da Província dos Sete Anões, outrora Grande ABC, sem recorrer à linha histórica do emprego industrial. 

Enquanto Santo André derrubou para praticamente zero o desencaixe nos empregos industriais nos últimos 12 meses, a contar de setembro do ano passado, São Caetano deu um salto mais que triplo. Quando agosto do ano passado terminou, Santo André que já foi um viveiro industrial (mas que agora conta com apenas 13,63% de emprego formal no setor em relação às demais atividades econômicas) contabilizava perda líquida de 10,94% dos trabalhadores em 12 meses. Ou seja: de setembro de 2015 a agosto do ano passado. No mesmo período, São Caetano apresentava índice quase zero, de 1,67% negativo. São Caetano, portanto, ganhava de goleada em empregabilidade industrial. 

Mudanças domésticas 

Santo André não era uma exceção de desespero do emprego industrial com carteira assinada na região. São Bernardo registrava 8,30% de perda líquida, ou seja, entre contratações e desligamentos no período. Diadema chegava a 11,03%, Mauá a 8,13%, Ribeirão Pires a 11,88% e Rio Grande da Serra a 2,73%. Números escabrosos. 

Traduzindo: num ranking de emprego industrial com carteira assinada que tenha agosto do ano passado como base de cálculo, levando-se em consideração os números acumulados durante 12 meses, São Caetano apresentava os melhores resultados da região. Era um oásis em meio à tempestade. Os números nacionais também perdiam feio para a Capital de Qualidade de Vida da região: 6,06% da força de trabalhadores industriais do País, em média, foram dispensados das fábricas entre setembro de 2015 e agosto do ano passado. 

Vistos os dados de agosto do ano passado, acumulados nos então 12 meses, chegamos à comparação com agosto deste ano, acumulados a partir de setembro do ano passado. Nesse período o Brasil deu um tapa na cara dos políticos corruptos que saíram e que continuam no poder federal: a economia reagiu o suficiente para sair da UTI. Tanto que a perda líquida de emprego industrial caiu a 1,67% no País. Uma variação menos dramática, portanto, que os 6,06% de agosto de 2016. Nesse novo período de 12 meses, perderam-se no País apenas 124.495 postos de trabalho. Apenas, no caso, deveria ganhar aspas, porque qualquer emprego destruído sempre será um estrago social. 

Automotivo explica 

Se o emprego industrial com carteira assinada melhorou no Brasil nos últimos 12 meses até agosto último, teria de melhorar na Província, entre outras razões porque o setor automotivo nacional reage o suficiente para se prever que, quando dezembro chegar, crescerá pelo menos 20% em relação ao ano passado. A expectativa de melhora no mercado de trabalho da região está se confirmando. Menos em São Caetano. 

Santo André reagiu de forma espetacular nos 12 últimos meses completados em agosto, após perder 10,94% dos empregos formais no setor no acumulado de 12 meses completados em agosto do ano passado. Agora em agosto registrava apenas 0,01% de déficit líquido no período. Praticamente nada. Em números absolutos, apenas quatro postos de trabalho foram decepados nas fábricas desde setembro do ano passado. Foram 10,93 pontos percentuais de queda em relação ao acumulado em 12 meses até agosto do ano passado. Ou seja: 10,94 menos 0,01 pontos percentuais.

São Bernardo também reage – e nem poderia ser diferente ao se confirmar a alteração na máquina automobilística. De déficit de 8,30% acumulado em 12 meses até agosto do ano passado, caiu para 5,24% desde setembro daquele mesmo ano. Rebaixamento de 3,06 pontos percentuais. São Bernardo não é lá uma Santo André, mas não passa vergonha ante os números gerais do Brasil, com redução de 4,39 pontos percentuais nos períodos analisados. 

Mais municípios

Diadema não repetiu o sucesso de Santo André, mas está bem acima de São Bernardo. O Município que em larga escala depende das montadoras de veículos de São Bernardo reduziu em 7,95 pontos percentuais a perda de empregos industriais formais entre setembro do ano passado e agosto deste ano, quando comparado ao período de setembro de 2015 e agosto de 2016. Eram 11,03% de déficit. Agora são 3,08%. 

Mauá reagiu com força menos impactante do que São Bernardo. Do déficit de 8,13% em agosto do ano passado (sempre no acumulado de 12 meses) sobraram 5,99% em agosto deste ano. São 2,44 pontos percentuais de redução. Parece pouco, mas quando se trata de carteira assinada, vale muito. 

Ribeirão Pires é bem menos representativo em emprego industrial com carteira assinada que Santo André (quase quatro vezes menos, para ser mais preciso), mas reagiu à altura no período de 12 meses até agosto deste ano: rebaixou o déficit para 1,01%. Nada menos que 10,87 pontos percentuais abaixo de agosto do ano passado, construído desde setembro do ano anterior. 

Rio Grande da Serra não deve ser considerada para valer nessa equação porque conta com menos de dois mil trabalhadores industriais com carteira assinada. Em 12 meses somou déficit de 10,44%, contra 2,73% de período semelhante de um ano antes. Um aumento de 7,71 pontos percentuais. 

GM explica 

Chegamos finalmente a São Caetano. A perda líquida de 5,67 pontos percentuais entre os dois períodos só é superada pelo déficit de Rio Grande da Serra. Entre setembro de 2015 e agosto do ano passado, São Caetano da General Motors e de autopeças registrava apenas 1,67% de perda líquida de empregos formais na indústria. Já em agosto deste ano, quando se somam as perdas de 12 meses, o déficit chegou a 7,34%. Um salto enorme que os dados do Ministério do Trabalho e Emprego não detalham por empresas e setores industriais. Mas a experiência não deixa dúvida de que a General Motors, com seu plano de renovação de produtos, está nessa narrativa. Competir é cortar despesas. 

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