Esportes

Clássico não vai fazer falta; o
importante é seguir na Série A

  DANIEL LIMA - 19/10/2017

Não foi abracadabra, tampouco benzedeira ou magia negra: Santo André e São Caetano não vão se enfrentar na Série A do Campeonato Paulista do ano que vem -- e provavelmente passarão a temporada inteira sem confrontos diretos. Os deuses se uniram em favor das duas equipes. Na divisão de grupos sorteados na reunião do Conselho Arbitral da Federação Paulista de Futebol os indicadores técnicos deram uma forcinha. Mas foi o fator sorte que influiu mesmo, porque havia 75% de probabilidades de as duas equipes constarem de agrupamentos diferentes.  Chego a pensar que dirigentes das duas equipes enfeitaram encruzilhadas rogando pela generosidade das bolinhas.  

Sem confronto direto, os seis jogos que São Caetano e Santo André disputarão em casa na fase de classificação vão ser seis jogos normais. Ou seja: não haverá o fator “clássico” a produzir conteúdo específico que normalmente significa colocar em xeque os fatores “campo e torcida”. Ou alguém tem dúvidas de que para o São Caetano e para o Santo André é melhor enfrentar o Novorizontino em casa do que o adversário tradicional?  

São Caetano e Santo André foram beneficiados adicionalmente pelos sortilégios do sistema de distribuição das equipes em quatro grupos de quatro equipes ao se instalarem ao lado do São Paulo e da Ponte Preta de Campinas, respectivamente um dos quatro grandes e a quinta força do futebol paulista. Os demais grandes, Corinthians, Palmeiras e Santos estão nos demais agrupamentos. 

Riscos deletérios 

Vou tentar explicar mais detalhadamente as duas situações que convergem a um destino que espero seja o mais consistente desenlace tanto do Santo André quanto do São Caetano no principal campeonato estadual do País. 

Primeiro, o fato de as duas equipes estarem no mesmo grupo da fase classificatória. A ausência de um clássico impedirá que eventuais destroços de uma derrota sempre emocionalmente mais contundente se desdobrem nas rodadas seguintes. Jogar clássico é sempre um risco. Os efeitos deletérios pós-resultado nem sempre são cicatrizados no curto prazo. 

Outro aspecto que vale a pena ser considerado: quem joga um clássico em casa, numa competição de turno único, pode levar uma senhora desvantagem. Afinal, o jogo deixa de ter características semelhantes de confrontos com equipes do mesmo nível ou mesmo de nível superior, caso dos chamados grandes. Clássico é sempre um jogo mais eletrizante e, por consequência, mais eletrocutador. Ganhou mais o São Caetano com o sorteio, porque se enfrentasse o Santo André no Estádio Anacleto Campanella seria um presente de grego. O adversário costuma se dar melhor fora de casa nesses jogos. 

Sem um clássico pelo caminho, São Caetano e Santo André carregarão uma garantia sólida na fase classificatória, da qual não deverão passar porque São Paulo e Ponte Preta são os favoritos às duas vagas. A vantagem é que jogarão mesmo seis jogos como mandantes e seis jogos como visitantes. A equação parece tão óbvia, quando se trata de 12 jogos na etapa classificatória, mas não o seria se a pedra do clássico estivesse no meio do caminho. Os aspectos emocionais mudam toda a configuração conceitual de mando e de visitante. 

Tiro curto perigoso 

Insisto na importância dos seis jogos como mandantes. Trata-se de uma competição de tiro curto, com baixíssimo grau de recuperação inclusive porque os jogos serão disputados seguidamente, sem folga durante a semana. O calendário é escasso, a Copa do Mundo está aí e não há tempo a perder. 

A festa reservada pelo sorteio será ainda maior se tanto Santo André quanto São Caetano jogarem em casa com apenas um dos demais três times grandes dos demais grupos, já que todos sabem que não enfrentarão nem Corinthians nem Ponte Preta por força do regulamento. Por que jogar em casa diante de equipes estatisticamente vencedoras desses confrontos é mau negócio? Melhor testar – de novo – a sorte fora de casa contra essas equipes. Se há o risco iminente de derrota tanto em casa quanto fora, melhor perder fora. 

Sei lá como o Departamento Técnico da Federação Paulista de Futebol vai distribuir os confrontos das equipes de porte médio (as 11 que completam o agrupamento da Primeira Divisão, excluídas, portanto as quatro maiores já citadas e a Ponte Preta) em relação aos jogos com os grandes. É impossível haver equidade. O que vem a ser equidade? Que todos joguem número igual de partidas contra os quatro grandes.  

Arrecadação e pontuação 

Traduzindo: se todas as equipes de porte médio que compõem o segundo batalhão de participantes da Série A jogassem duas vezes em casa e duas fora contra os grandes, estaria estabelecido o que chamaria de respeito às regras do jogo da igualdade de tratamento.  Mas isso está fora de cogitação porque cada equipe, entre as 11 de porte médio (e mesmo a Ponte Preta, de porte mais avantajado) enfrentará apenas três dos quatro grandes. Quem jogar mais em casa sofrerá potencial prejuízo. Ganha na arrecadação, mas corre o risco de perder na pontuação. 

Não pensem que estava me esquecendo do fator-Ponte como visitante. A equipe de Campinas que disputa a Série A do Campeonato Brasileiro e tomou o lugar da Portuguesa de Desportos como quinta força estadual também jogará seis jogos em casa e seis fora. Cada ponto que tirar das equipes médias da competição (não se esqueçam que São Caetano e Santo André não constam da lista por força do regulamento) melhor para os representantes da região. É mais provável que a Ponte Preta obtenha resultados muito mais interessantes na disputa por uma das duas primeiras vagas do agrupamento em que o Corinthians é o favorito do que os times médios que serão oponentes do Santo André e do São Caetano.  

Portanto, agora a rezadeira tem de ser direcionada à tabela propriamente dita. O sonho de consumo para somar o maior número de pontos possível é jogar apenas uma das três partidas contra os grandes em casa. Somar pontos é fundamental não só para fugir do rebaixamento como também para classificar-se à Série D do Campeonato Brasileiro. 

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