Economia

Modelo fracassa e São Bernardo
lidera em desigualdade salarial

  DANIEL LIMA - 25/10/2017

Essa análise é inédita no jornalismo brasileiro. E não há nada entre acadêmicos que toque levemente no que exploramos. A verdade é a seguinte: a vinculação história de suposto socialismo trabalhista e pretenso capitalismo privado gerou um monstro regional que se repete em algumas outras áreas do Estado que comportam o G-22, o grupo dos 20 maiores municípios paulistas (exceto a Capital) acrescidos de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, que completam o time da Província. O G-22 é criação deste jornalista. São Bernardo é campeã regional em desigualdade salarial. 

São Bernardo dominada pelo sindicalismo anunciado como adepto do socialismo e que tem na cadeia automobilística o principal núcleo de produção supera largamente os demais municípios quando se confronta a média salarial das atividades industriais, comerciais e de serviços dos mais de 700 mil trabalhadores com carteira assinada na região. 

Os números de assalariamentos e desdobramentos devem ser observados com atenção redobrada. Não são dados circunstanciais. Trata-se de acúmulo histórico das atividades econômicas na região. É a sacramentação de uma mistura de livre iniciativa, que marca a ocupação econômica da região, sindicalismo de viés alardeadamente socialista e intervenção de municípios, Estado e União, principalmente. 

Primeira classe 

O desequilíbrio de salários em São Bernardo envolvendo atividades industriais, comerciais e de serviços é um atestado de condenação explícita das relações trabalhistas tão endeusadas. Não à toa a mobilidade social sofre duros percalços há mais de duas décadas. Cansamos de produzir alertas para autoridades públicas e representações privadas que não movem uma palha. Vive-se de olho apenas em benesses pessoais e corporativas. 

O que a união de sindicalistas industriais e organizações empresariais principalmente de grande porte promoveram ao longo dos anos na região foi a construção de uma elite de trabalhadores. Há quase duas décadas produzimos uma Reportagem de Capa na revista LivreMercado e os chamamos sarcasticamente de “trabalhadores de primeira classe”. 

O festejado sindicalismo cidadão, que estaria voltado ao conjunto da sociedade, é uma patifaria retórica de lideranças trabalhistas que se converteram em patéticos agentes públicos eleitos por currais corporativos. Não é muito diferente o entoado capitalismo privado das montadoras, protegidíssimas pelo Estado. Inclusive com medidas provisórias agora desvendadas como fraudulentas. 

A baixa competitividade da indústria automotiva regional parece estar com os dias contados porque começam a chegar para valer investimentos tecnológicos que cada vez mais reduzem quadros de trabalhadores. Entretanto, há equívocos que atordoam a concorrência e os parceiros comerciais. Por isso os efeitos se farão permanentes durante prolongado inverno microeconômico. 

Faltam montadoras 

A média salarial do setor industrial, fator específico do desbalanço interno de São Bernardo e também no enfrentamento regional, não especifica em separado o grupo restrito dos trabalhadores nas montadoras de veículos locais. Os dados não são divulgados oficialmente pelo Ministério do Trabalho. Caso fossem, o buraco que separa indústria, comércio e serviço em São Bernardo e na região seria ainda mais profundo. Estudos recentes de órgãos vinculados a trabalhadores apontaram que a média salarial nas montadoras de São Bernardo supera a R$ 10 mil. Muito acima, portanto, da média industrial em geral. 

Os trabalhadores do setor industrial de São Bernardo recebiam em média, em dezembro de 2016 (últimos dados agregados do Ministério do Trabalho), exatamente 49,18% acima da média do setor de serviços e 58,65% dos comerciários. A média de vencimentos salariais dos industriários de São Bernardo é de R$ 5.552,25, contra R$ 2.821,67 do setor de serviços e R$ 2.657,78 dos comerciários. Estavam registrados 74.939 industriários, 44.813 comerciários e 108.706 trabalhadores em serviços em São Bernardo. 

Quando se comparam os salários do setor industrial de São Bernardo com os demais trabalhadores da indústria de transformação da região a diferença é extravagante. Menos em relação a São Caetano, que tem o peso da General Motors a contrabalançar em parte as montadoras concentradas na vizinha. O salário médio industrial em São Bernardo está 12,62% acima de São Caetano, 29,51% de Santo André, 28,77% de Mauá, 37,47% de Diadema, 43,89% de Ribeirão Pires e 53,24 de Rio Grande da Serra. 

Desequilíbrio completo 

Fosse São Bernardo endereço de equilíbrio econômico na esteira da pujança metalúrgica, sobretudo como efeito das quatro montadoras de veículos (Volkswagen, Mercedes-Benz, Scania e Ford) e uma rede de autopeças multinacionais, as atividades de comércio e de serviços também seriam fortalecidas com médias salariais semelhantes nos confrontos com os demais trabalhadores da região. Mas não é isso que se registra, conforme dados que metabolizei contamos com insumos brutos do Ministério do Trabalho. 

Vejam no caso das médias salariais dos trabalhadores de serviços e de comércio contrapostas ao setor industrial. Mostraremos na sequência que a riqueza salarial do setor de transformação industrial em São Bernardo não se reproduz nas mesmas proporções nas atividades de comércio e de serviços.

No caso do confronto de São Bernardo com Santo André, a diferença de média salarial no setor industrial de 29,51% cai para 8,54% em serviços e 7,40% no comércio. Quanto a comparação é com Mauá, os 28,77% de superioridade industrial caem para 8,61% em serviços e 7,36% em comércio. Com Diadema não é diferente: a vantagem de São Bernardo no assalariamento médio industrial de 37,47% cai para 17,12% em serviços e 3,35% em comércio. Quanto a Ribeirão Pires, São Bernardo transforma a vantagem de média salarial industrial de 43,89% em 16,88% em serviços e 18,47% no comércio. Com Rio Grande da Serra a vantagem industrial de 53,24% cai para 29,13% em serviços e 29,63% em comércio. 

Comércio melhor 

O confronto com São Caetano, também por força da General Motors e autopeças, é menos agressivamente desigual. A diferença de 12,62% de assalariamento médio de São Bernardo cai para 9,14% em serviços. Já na média salarial de comércio, São Caetano é quem tem a vantagem. A atividade paga salários médios maiores que o setor de serviços, uma exceção na Província dos Sete Anões, outrora Grande ABC. 

Isso quer dizer que os comerciários de São Caetano contam com salários médios acima dos trabalhadores do comércio de São Bernardo. Em termos práticos: enquanto a média salarial dos comerciários de São Bernardo em dezembro de 2016 era de R$ 2.295, 66, em São Caetano era de R$ 3.059,64. Uma vantagem de 24,97%. 

Com representatividade de 29,70% de trabalhadores no conjunto de todas as atividades, inclusive públicas (74.939 ante 252.289 carteiras assinadas), o setor industrial de São Bernardo fica com 45,82% da massa de salários (R$ 416.080 milhões de R$ 907.937 milhões). A diferença de 16,12 pontos percentuais é disparadamente mais predominante de massa salarial industrial entre as atividades econômicas. 

Na mesma comparação, o setor industrial de São Caetano (20.106 postos de trabalho) fica com 30,31% do total dos assalariamentos (R$ 97.498 milhões do total de R$ 321.662 milhões), contando com 19,07% de industriários. Uma diferença de 11.24 pontos percentuais. No caso de Mauá, com 20.957 trabalhadores industriais num total de 64.480 carteiras assinadas em todas as atividades (ou seja, 32,50% da força de trabalho), o setor produtivo fica com 43,73% do total de salários (R$ 82.882 milhões de R$ 189.500 milhões). Uma diferença de 11.23 pontos percentuais favorável ao setor industrial. 

Viveiro industrial

Santo André contava em dezembro de 2016 com 25.264 trabalhadores industriais que recebiam o total de R$ 98.878 milhões. Em todas as atividades estavam registrados 195.125 trabalhadores que geraram R$ 534.342 milhões em salários. Dessa forma, a participação de 12,95% no total de carteiras assinados do setor industrial representavam 18,50% de participação relativa no total de assalariamentos – 5,55 pontos percentuais de diferença. Santo André, outrora “viveiro industrial”, conforme exalta o hino oficial, conta com a menor proporção de trabalhadores industriais no conjunto de empregados formais. 

Diadema tem participação elevadíssima de emprego industrial formal nas atividades: são 41.312 trabalhadores do total de 91.960, o que representa 44,92%. Já na distribuição de assalariamento, a diferença a favor dos industriários não é tão proporcionalmente maior: são 50,56% do total de R$ 283.653 pagos em dezembro de 2016 (6,64 pontos percentuais). Os industriários de Diadema ficaram com R$ 143,424 milhões. 

Ribeirão Pires tem participação de 29,93% de trabalhadores industriais (6.552) no total de empregados com carteira assinada (21.890) e 38,06% de participação no volume de salários (R$ 20.412 milhões do total de R$ 53.629 milhões). Rio Grande da Serra completa a lista regional com 40,30% de trabalhadores industriais (1.606) de um total de 3.985 ocupados com carteira assinada. A participação do setor produtivo de R$ 4.167 milhões da massa salarial no total de R$ 8.802 milhões registrados em dezembro de 2016 significa 47,34% do total. 

Vamos voltar a tratar do assunto nos próximos dias, porque há muito mais a analisar. Exemplo? Os demais redutos do G-22 nos quais prevalecem desequilíbrios salariais por conta do setor industrial dominado pela combinação sindicalismo-montadoras. 

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