Sociedade

Sociedade sem vez e voz
no Clube dos Construtores

  DANIEL LIMA - 27/10/2017

Mandachuvas e mandachuvinhas do mercado imobiliário da Província dos Sete Anões, outrora Grande ABC, ainda não aprenderam a compartilhar interesses corporativos com demandas da sociedade. Admito que seria demais, mesmo, que o presidente Marcus Santaguita, há apenas dois anos presidência do Clube dos Construtores, afastasse os efeitos culturais deletérios do antecessor de mais de duas décadas de arbitrariedades. Entretanto, não custa nada o jovem Santaguita, caso permaneça na direção, redirecionar as medidas. 

Marcus Santaguita precisa colocar gente da sociedade para participar dos eventos. Falar em nome da população da região sem lhe outorgar o direito à participação é contrassenso, ou seria mesmo uma fórmula velha e surrada de dar continuidade a políticas diversionistas de Milton Bigucci?

Colocada em campo de jogo essa restrição, que é uma baita restrição, baita restrição porque exprime o divisionismo entre capital, trabalho, gestão pública e sociedade nesta Província, é importante ressaltar, também, que o jovem Santaguita revela-se mais competente (e não precisa muito, hão de convir os leitores) para demonstrar o quanto de atraso o antecessor representou àquela entidade e aos propósitos da região. 

Práticas antiquadas 

O evento do qual não participei (poupo-me de ver certas figurinhas carimbadas que infestam a região em forma de bandidos sociais) foi marcado por organização e participação de classe. É claro que ainda distante do indispensável para que se represente para valer um setor econômico importantíssimo ao equilíbrio social. 

Pena, entretanto, que além de gente tenha faltado uma pauta de debates mais próxima às reivindicações da sociedade por ética e moralidade nas relações entre o mercado imobiliário e o setor público. 

Como se sabe de cor e salteado que o mercado imobiliário é o sistema de empreiteiras de obras públicas em matéria de financiamento de campanhas eleitorais, não custaria nada ter reunido num debate gente que pudesse transmitir aos consumidores de informações algo mais que o aspecto puramente econômico, quando não capitalista no sentido mais estrito do verbete, daquele encontro. 

Escrevi ainda outro dia que pretendo dedicar mais textos sobre o processo eleitoral no Clube dos Construtores. O mandato de Marcus Santaguita está-se esgotando e é bem provável que a reeleição seja encaminhada.  

O dirigente ainda está distante do que se espera como ponta de lança de transformações profundas nas entidades econômicas da região, congeladas em práticas institucionais lançadas como novidades em meados do século passado.

Falta tiro de largada 

 Alguém precisa dar um tiro de largada num processo de renovação do modelo de atuação das entidades de classe, mas até agora esse alguém não é Marcus Santaguita. Mas, quem sabe, venha a ser. Depende do quanto vai ficar prisioneiro nas teias de influências do antecessor. 

Marcus Santaguita precisa se afastar dos deletérios exemplos que ornamentaram num passado ainda recente uma entidade mambembe e mequetrefe, conforme escrevi e não repito no presente exclusivamente porque sou otimista e acredito que o novo presidente está alterando a rota embora ainda de forma bastante tímida. 

Tenho tanto otimismo que não levo a sério em grau elevado as informações de que entre Santaguita e Milton Bigucci e, mais que isso, entre o presidente e a família de empresários do Grupo MBigucci, haveria certa dose de coerção emocional. 

Talvez a expressão não seja exatamente essa, ou seja, “coerção emocional”. Escrevo-a de supetão e, como estou apressado nesta sexta-feira, temo que não seja o que pretendo dizer para atingir o centro do alvo crítico. Mas não está longe disso. 

Pressão emocional 

O que quero dizer é que Marcus Santaguita e alguns diretores do Clube dos Construtores sentem-se pressionados pelo dirigente que reinou naquela instituição sem deixar um legado positivo sequer a ser reverenciado. E que manipulou descaradamente os dados estatísticos, industrializando vendas e lançamentos para aquecer artificialmente o mercado imobiliário. 

Deu no que deu, como estamos vendo em todas as praças da região. Sobram apartamentos e prédios comerciais em quantidade muito além do razoável para quem desprezou macro sinais de recessão que, finalmente, desembarcou no País há mais de três anos. 

A participação dos sete secretários de Desenvolvimento Econômico da Província, num painel específico do evento do Clube dos Construtores, simboliza aspectos contraditórios: eles foram convidados por que precisam ser sensibilizados quanto à importância do mercado imobiliário ao desenvolvimento econômico ou ali estiveram porque seriam a porta de entrada às instâncias maiores dos respectivos municípios? 

Portas fechadas 

Quando se ouve e se lê que o presidente do Clube dos Construtores tem mantido reuniões fechadas com o prefeito Orlando Morando para debater o uso e a ocupação do solo, subsiste uma preocupação: por que a entidade ainda sob os efeitos de Milton Bigucci não elabora reivindicações específicas e as torna públicas antes de encontrar-se com qualquer chefe de Executivo da região? Afinal, se as demandas são legítimas e visam ao interesse do público consumidor do mercado imobiliário, bem como ao conjunto da sociedade, não há razão para mistério. 

Essa prática precisa ser desativada porque é muito permeável a suspeita quando estamos a poucos dias de lamentar o quarto aniversário do escândalo e da ausência de resultados punitivos aos integrantes da Máfia do ISS de São Paulo, da qual, segundo o Ministério Público Estadual, o então presidente do Clube dos Construtores, participava ativamente.

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