Regionalidade

Clube dos Prefeitos faz marola
e os resultados não aparecem

  DANIEL LIMA - 10/11/2017

Tenho um conselho público a Orlando Morando, prefeito dos prefeitos da Província dos Sete Anões, outrora Grande ABC, também prefeito de São Bernardo: contenha o ímpeto para não decepcionar a sociedade. Muitos dos que o antecederam tanto no Clube dos Prefeitos, quanto nos respectivos paços, deixaram legado de desilusão cumulativa que me levou ao ceticismo completo. Já tive períodos de euforia, levado por promessas que viraram lorotas. Mas aprendi. Muita gente pensa semelhantemente. Celso Daniel, que era Celso Daniel, jogou a toalha antes mesmo do terceiro mandato incompleto, pouco tempo antes de morrer. O Clube dos Prefeitos, paradoxalmente, é o cemitério da regionalidade. 

Pouco me lixo se um e outro triunfalista de plantão (geralmente os triunfalistas têm razões nada republicanas e nada cidadãs para festejar) me condenam em encontros sociais e corporativos. Também aprendi que o melhor mesmo para dormir um sono tranquilo e passear com minhas cachorras em reflexões matutinas (esse artigo nasceu de um dos passeios com Lolita e Luly) é não me deixar levar por pressões e ilusões. Por isso, Orlando Morando precisa se acautelar. 

Friozinho na barriga 

Ao ler a manchete de página interna do Diário do Grande ABC de ontem sobre a viagem do prefeito de São Bernardo e titular do Clube dos Prefeitos a Bruxelas, Bélgica, onde oficializou parceria com a cidade de Turim, na Itália, por meio do Programa Internacional de Cooperação Urbana (IUC), senti um frio na barriga. Pronto, aí vem mais uma bomba, pensei. Quando cheguei ao trecho da reportagem em que Orlando Morando disse textualmente: “Trata-se de um programa de desenvolvimento macro, que resgata a origem de como foi pensada a entidade: contemplando toda a região” -- o frio na barriga quase virou disenteria. 

Segundo o Diário do Grande ABC informou didaticamente, o Programa Internacional de Cooperação Urbana foi idealizado pela União Europeia e procura capacitação técnica entre municípios da Europa, América Latina e Caribe. A ideia do Clube dos Prefeitos é aproveitar o intercâmbio para trocar experiências com outros países sobre a solução de problemas clássicos nas sete cidades, como enchentes e o transporte público, com ênfase no transporte sobre trilhos. 

Também publicou o Diário do Grande ABC que a escolha de Turim se daria porque o Clube dos Prefeitos vê que a cidade guarda semelhança com os municípios da região, principalmente no que se refere à produção industrial, já que abriga a sede da montadora de veículos Fiat. Turim conta com 900 mil moradores. Francamente, nem uma coisa nem outra têm a ver com as calças da aplicação de programa de experiência já vivida. Mas deixemos esse aspecto de lado.

Ênfase exagerada

O principal mesmo é que a ênfase que se dá à viagem e à parceria com o programa da União Europeia é exagerada. Trata-se da reprodução midiática mais consolidada do que chamo de Complexo de Gata Borralheira. O prefeito dos prefeitos Orlando Morando viajou acompanhado do secretário-geral da instituição, Fabio Palacio, aquele da gravação involuntária de um comentário em que definia regionalidade em tom de deboche.  

Há vários aspectos que comportariam objeções preliminares deste jornalista, mas não vou aprofundar-me. Está claro, entretanto, que qualquer programa que pretenda consertar os estragos na mobilidade urbana da região (e o noticiário tem colocado esse como um dos pontos principais) terá obrigatoriamente de passar por cima de interesses particulares, sobretudo do mercado imobiliário velho de guerra e de falcatruas. 

Não existirá jamais uma nesga sequer de competitividade urbana da região (no sentido de mobilidade) sem que se coloque a logística interna dos municípios, vasos comunicantes, quando não raízes estrangulantes, sob o comando de um xerife regional de respeito para acabar com a farra do boi que prevaleceu ao longo dos anos com escândalos sufocados por interesses cruzados. Algo que parece ter dado com os burros nágua agora em São Bernardo, por conta da atuação da força-tarefa do Ministério Público Estadual e da Polícia Civil. Uma exceção à regra de impunidades que construíram fortunas de gente que, inclusive, se autoproclama defensora dos excluídos sociais, quando não de criancinhas. 

Arquivo repleto 

Fiz todo esse trololó para chegar ao ponto que, fosse seguir as regras ditatoriais do jornalismo convencional, teria introduzido na abertura deste artigo. O que quero dizer para justificar ceticismo explicito é que cansei de ler, ouvir e comentar a extroversão oficial da região rumo ao Primeiro Mundo. Meu arquivo particular em papel registra todas essas aventuras publicadas pelos jornais e que jamais deram em alguma coisa. 

Aliás, num dos livros que escrevi, “Meias Verdades”, lançado em 2003, reproduzi uma matéria publicada na edição de 21 de abril de 1998 do Diário do Grande ABC, sob o título “EUA e Brasil criam programas pró-região” e o subtítulo “Bill Clinton afirma que o Grande ABC pode usar experiências de cidades como Detroit, nos Estados Unidos, para encontrar saídas contra o desemprego”. 

Reproduzo trechos daquela matéria que os leitores não vão encontrar na Internet. Afinal, são 20 anos que separam aquela manchete da manchete envolvendo, agora, Orlando Morando: 

 O presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, afirmou que pretende criar um programa conjunto com o governo brasileiro para revitalizar o Grande ABC. A afirmação foi feita durante encontro com o presidente Fernando Henrique Cardoso, em Santiago do Chile. Clinton disse que seu objetivo é evitar que ocorra na região o mesmo que aconteceu com a cidade norte-americana de Detroit, que levou 20 anos para se recuperar de um processo de sucateamento industrial e desemprego, iniciado nos anos 60. Clinton e FHC estavam participando da Cúpula das Américas, um encontro com todos os chefes de Estado das Américas do Norte, Central e Sul. “Nos propusemos a conversar sobre um programa para reconstruir as cidades no sentido de criar mais serviços e outros tipos de atividades econômicas, além da industrial” — disse Fernando Henrique Cardoso. Que completou: “Combinei com o presidente Clinton que, se for aos EUA para a reunião da ONU, almoçaremos juntos para que ele me ajude a encontrar subsídios que reduzam o impacto das mudanças na economia do Grande ABC”.  

Hecatombe industrial  

No livro ao qual fiz referência, fiz o seguinte comentário sobre a notícia publicada cinco anos antes: 

 O massacre imposto pela desastrada política macroeconômica de FHC dispensa maiores comentários sobre o tratamento que deu ao Grande ABC, que perdeu 34% de produção de riqueza industrial nos sete primeiros anos de seu governo até dezembro de 2001. Só nesse período foram-se pelo ralo da região 83 mil empregos industriais formais. E nunca mais se ouviu falar na tal intervenção dos EUA para salvar o Grande ABC. Sem contar que FHC só veio ao Grande ABC uma única vez durante seu mandato, exatamente na inauguração da linha de produção do Ford Ka, quando foi barulhentamente atacado por metalúrgicos da CUT, com Vicentinho Paulo da Silva à frente. A notícia publicada com estardalhaço pelo Diário do Grande ABC simplesmente desapareceu da pauta.

Aplicativo mostra 

Para completar, os leitores de CapitalSocial que constam de minha lista do aplicativo WhatsApp vão ter acesso hoje à reprodução em fac-símile da página do Diário do Grande ABC que anunciava o encontro e o anúncio da preocupação de Fernando Henrique Cardoso com a região. Fernando Henrique Cardoso estava no último ano do primeiro de dois mandatos. Precisava fazer uma média geral com a Província, já que, não fosse a herança maldita de Dilma Rousseff, teria mantido intocável o título de pior presidente da história para a Província dos Sete Anões. Não à toa foi escorraçado nas urnas em 2002. Os tucanos apanharam dos descontentes e elegeram Lula da Silva presidente. Até a conservadora, pouco desigual e historicamente antipetista São Caetano deu maioria de votos ao ex-metalúrgico. 

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