Regionalidade

“Vote no Grande ABC” volta
com cara de farsa eleitoral

  DANIEL LIMA - 13/11/2017

Entabula-se nas entrelinhas de um noticiário aparentemente orquestrado para favorecer mandachuvas e mandachuvinhas uma farsa político-eleitoral que tenta pegar carona no sucesso de então do Fórum da Cidadania do Grande ABC. Trata-se do projeto “Vote no Grande ABC”, que, levado a efeito nas eleições a deputado estadual e a deputado federal, garantiu avalanche de votos a ponto de 13 candidaturas regionais se consagrarem nas urnas em 1996. 

O resultado daquela operação partiu de representantes da sociedade envolvidos numa entidade que contava com imenso prestígio e participação. Gente que batia para valer na classe política, contando com o Diário do Grande ABC como porta-voz e integrante ativo do movimento. Participei como jornalista que dirigia a revista LivreMercado. Os arquivos estão aí a qualquer prova: jamais deixei de apontar os problemas daquela instituição. Existe uma divisão nítida do ponto de vista ético-jornalístico: o consumidor de informação não pode ser enganado. 

Quase vinte anos depois, são os políticos, sem o aval de uma sociedade descrente e irritada, que pretendem ressuscitar o movimento. Só faltava essa desfaçatez para que se passe atestado coletivo de burrice e ingenuidade. Não bastasse essa discrepância histórica que alguns tentam manipular, há algo mais grave a ponderar: enquanto há duas décadas o conceito pétreo daquela iniciativa era a regionalidade no sentido mais abrangente possível, agora o que se tem, como expliquei semana passada nesta revista digital, é o divisionismo municipalista a partir de candidaturas abençoados por mandachuvas e mandachuvinhas de Santo André. A patetice não poderia ser mais lamentável. 

Lastro que vem do passado 

O jornalismo regional não conta com nenhum profissional que entenda mais de Fórum da Cidadania do que este que está a escrever. Embora nem todo o acervo de LivreMercado tenha sido transplantado para esta revista digital, consta de nosso arquivo nada menos que 298 matérias que tratam direta e indiretamente daquela instituição. O que quero dizer com isso é que os leitores das demais publicações – como o que se viu na edição de ontem do Diário do Grande ABC – correm o risco de comprar gato por lebre. 

Para que haja entendimento geral do que representou o Fórum da Cidadania na história regional, pincei duas matérias que escrevi no passado para a revista LivreMercado, da qual fui comandante de redação por duas décadas. A primeira matéria foi Reportagem de Capa da edição de dezembro de 1997 (portanto há 20 anos). Vejam os trechos principais e entendam o tamanho do sucesso do Fórum da Cidadania. Mais abaixo vou fazer breve referência à segunda matéria. 

A Reportagem de Capa de LivreMercado daquele dezembro de 1997 contava com o seguinte título: “Fórum da Cidadania é o maior fato do ano”. Leiam os trechos principais: 

 A consolidação do Fórum da Cidadania do Grande ABC é o fato mais positivo da região neste ano que termina. E o mais negativo é a falta de ações para efetiva recuperação do sistema viário da região, sobretudo os acessos pela Avenida dos Estados e Via Anchieta. A escolha dos acontecimentos mais positivos e negativos da temporada, entre 10 de cada relação, coube aos 18 membros do Conselho Consultivo de LivreMercado. (...) Os consultores de LivreMercado não mantiveram qualquer troca de informações sobre a pesquisa. Eles realizaram a avaliação em seus respectivos endereços comerciais e residenciais. Cada consultor recebeu cópia da pesquisa, na qual se reiterava o aspecto sigiloso do trabalho e estipulava as regras de graduação. Cada consultor escolheu os três fatos mais positivos e os três mais negativos da temporada. O primeiro da lista recebeu 10 pontos, o segundo sete pontos e o terceiro, cinco pontos.

Mais Fórum da Cidadania

Dos 180 pontos possíveis, a consagração do Fórum da Cidadania alcançou 76, ou seja, 42,2% do total. Uma superioridade residual sobre o segundo fato mais significativo, a instalação da Câmara Regional do Grande ABC, que atingiu 74 pontos, ou seja, 41% do total. A disputa pelo título de acontecimento mais relevante do ano também envolveu o lançamento da campanha em favor de crianças e adolescentes, liderada pelo prefeito Maurício Soares, de São Bernardo, que alcançou 71 pontos, com 39,4% das indicações. Dos 18 consultores envolvidos na pesquisa, cinco apontaram o Fórum da Cidadania como o fato mais positivo, outros cinco optaram pela criação da Câmara Regional e três preferiram a campanha do Imposto de Renda em prol de crianças e adolescentes. Os demais consultores tiveram opiniões esparsas: três elegeram a reativação do Consórcio Intermunicipal de Prefeitos, um priorizou a criação de Secretarias de Desenvolvimento Econômico em cinco das Prefeituras da região e um focou como mais importante fato do ano os novos investimentos comerciais na região, com o boom dos shoppings.

Mais Fórum da Cidadania

 O item da pesquisa que mais recebeu pontuação como fato positivo depois do Fórum, da Câmara e da campanha Criança Prioridade 1 foi a criação de Secretarias de Desenvolvimento Econômico, com 53 pontos. Com 49 pontos, o quinto acontecimento mais relevante apontado pelos consultores foi a reconstituição e revitalização do Consórcio Intermunicipal de Prefeitos. Com 39 pontos, o sexto lugar foi garantido por novos investimentos comerciais na região. A política seletiva de impostos para incremento de variadas atividades e atração de investimentos alcançou 34 pontos e se classificou em sétimo lugar entre os temas mais significativos. Os outros três assuntos listados — convênio entre Estado, Prefeitura de São Bernardo e iniciativa privada para reativação da Vera Cruz, privatização do sistema de transporte coletivo em Santo André e São Bernardo e constituição do Fórum Permanente de Vereadores — não receberam votos.

Mais Fórum da Cidadania 

 Entre os fatos desabonadores da temporada — também expressos numa lista de 10 pontos –, a falta de ações para recuperar o sistema viário da região, sobretudo os acessos pela Avenida dos Estados e Via Anchieta, recebeu maciça adesão dos consultores de LivreMercado. Do total máximo de 180 pontos, foram alcançados 89, o que representa índice de 49,4%. Seis dos consultores apontaram a saturada malha viária como o mais problemático desafio da região. A segunda maior votação entre os fatos negativos, com 74 pontos, refere-se ao ritmo das reformas fiscais no Grande ABC, sem a sintonia fina com as transformações e ameaças que ocorrem nas montadoras de veículos. Dois consultores colocaram o assunto na ponta de preocupações. Outro assunto bem votado, com 58 pontos: o descuido das administrações públicas locais pela não prioridade do governo do Estado às obras do Rodoanel. Com 54 pontos cada, a demora e timidez nos ajustes estruturais e financeiros das Prefeituras do Grande ABC e a falta de atuação marcante dos deputados da região na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal dividiram posição no ranking dos fatos negativos.  

Mais Fórum da Cidadania 

 Outro assunto que despertou relativo interesse dos consultores, e que representou 37 votos, refere-se à não efetivação da Região Metropolitana do Grande ABC, ao contrário do que aconteceu com a Baixada Santista. A lentidão do Grande ABC em estabelecer metas e ações para exploração do potencial turístico da região (com 15 pontos), a manutenção do divisionismo estratégico-institucional das diretorias regionais dos Ciesps (10 pontos) e a centralização administrativa do prefeito Luiz Tortorello, com domínio em várias organizações do Município (5 pontos), foram os outros temas que caíram em descrédito segundo os consultores. Apenas um assunto não recebeu voto — a manutenção da deficitária empresa de transporte coletivo de Diadema, provavelmente porque se trata de tema estritamente municipal.

A segunda reportagem-análise

Agora, repasso aos leitores os principais trechos da matéria que escrevi ao analisar na edição de março de 2002 de LivreMercado um resumo sobre a atuação do Fórum da Cidadania sob o título “Breve relato sobre a anunciada morte do Fórum da Cidadania”:

 A moribundez do Fórum da Cidadania vai a julgamento no próximo sábado, em assembleia marcada para o Sesi, em Santo André. Há quem pretenda manter o debilitado organismo respirando com aparelhos de interesses localizadamente restritos e que nem de longe se assemelham aos cromossomos múltiplos que o conceberam. Há quem também não demonstre a menor frieza e revele a opção racional de que está na hora de acabar com uma sobrevida vegetal, propondo pura e simplesmente a eutanásia. O fato é que o Fórum da Cidadania já era. Morreu de morte natural como tantos outros movimentos regionais menos espetaculares. Esgotou seu tempo institucional de forma homeopática. Muitos de seus atores demoraram para perceber que o Fórum da Cidadania já convalescia do vírus do esvaziamento enquanto lhe faziam reverência. Os sintomas do aniquilamento de suas articulações não foram diagnosticados a tempo por muitos dos que lhe deram vida. O instinto de preservar de qualquer forma algo concebido por um conjunto de agentes sociais transformou-se em manifestação explícita de catarata analítica. Quando se deram conta, o Fórum da Cidadania já escalara o obituário institucional.

Mais Fórum da Cidadania

 Maior movimento regional de toda a história mais recente do Grande ABC, o Fórum da Cidadania morreu de fato, mas deixou heranças de erros e acertos que não podem ser desprezadas, sob o risco de não se aprenderem as lições e de não se permitir a lógica de que há sempre vitórias em cada derrota. Acertou na mosca o Fórum da Cidadania quando um de seus pressupostos básicos juntava os contrários. Empreendedores e sindicalistas, por exemplo, ocuparam o mesmo espaço de debate durante bons tempos. Errou fragorosamente o Fórum da Cidadania quando não teve a acuidade tática de calibrar o conceito de consensualidade sob o prisma de evolução mais madura das relações, e não, como se perpetrou, com objetivos meramente de negociações internas, que nem de longe eram os mais interessantes.

Mais Fórum da Cidadania 

 Acertou também o Fórum da Cidadania ao obrigar o rodízio de ocupação da coordenadoria-geral, distribuindo o poder superior a representantes de diferentes atividades, inclusive ao sindicalista Carlos Augusto César Cafu. Errou o Fórum da Cidadania ao delegar para o assembleísmo barulhento as decisões estratégicas que caberiam a um grupo de pensadores regionais. Substituiu a democracia representativa pelo democratismo convulsivo. Incorreu, portanto, nas mesmas falhas de organizações públicas que suas lideranças sempre criticaram. Acertou o Fórum da Cidadania quando procurou provocar o surgimento de novas lideranças regionais, egressas de entidades dos mais diferentes espectros comunitários. Errou o Fórum da Cidadania quando não teve capacidade de filtrar essas representações e, principalmente, ao permitir que interesses corporativos se sobrepusessem ao programa da instituição.

Mais Fórum da Cidadania 

 Acertou o Fórum da Cidadania quando de sua criação ao mexer com os brios e os egos dos políticos de plantão, atribuindo-lhes responsabilidade pelo estado de letargia institucional do Grande ABC em 1994. Errou o Fórum da Cidadania ao esquecer, também em sua origem, que não foi apenas a classe política regional que instalou o Grande ABC, ao longo dos anos, no calabouço do individualismo, do personalismo, do coronelismo e do caciquismo, extensão do sistema centralizador que viceja nos rincões nordestinos. Acertou o Fórum da Cidadania ao reunir o que poderia ser chamado de nata das principais instituições da região no primeiro estágio de adensamento representativo. Errou o Fórum da Cidadania ao dar elasticidade demais ao preceito de participação, substituindo a qualidade e o comprometimento pela quantidade de baixo valor agregado e estupidamente divulgada como sinônimo de fortalecimento.

Mais Fórum da Cidadania 

 Acertou o Fórum da Cidadania ao possibilitar que representantes dos mais diferentes partidos políticos tivessem assento em suas assembleias, porque não se constrói democracia com discriminação. Errou o Fórum da Cidadania ao permitir que vários desses representantes escalassem a montanha partidária em elucubrações viciadas, causando prejuízo ao programa de ações. Acertou o Fórum da Cidadania ao procurar ter o respaldo de divulgação do maior veículo de comunicação da região, que, pelas circunstâncias e proximidade de alguns de seus representantes, acabou vinculado diretamente a seu futuro. Errou o Fórum da Cidadania ao acreditar que somente porque tinha o respaldo do maior veículo de comunicação da região (e também da melhor revista regional do País) estaria imune de contratempos e a críticas providenciais, que a maior revista regional do País não se furtou de publicar.

Mais Fórum da Cidadania 

Acertou o Fórum da Cidadania, por meio de um grupo restrito de lideranças estratégicas, ao estimular o lançamento de candidaturas políticas de vários de seus representantes. Errou o Fórum da Cidadania ao não tornar essa estratégia mais transparente e ao não contemplar, no estatuto, a possibilidade de empreendimentos individuais na vida pública. Com essa medida, poderia ter amarrado critérios internos de candidaturas sem provocar divisionismo e desconfiança que contribuíram para a derrocada. Acertou o Fórum da Cidadania ao elencar uma série de temas cruciais para a recomposição social e econômica do Grande ABC, embora tenha se manifestado na origem de forma menos enfática e coerente com relação ao esgarçamento da estrutura industrial da região, base de nosso equilíbrio. Errou o Fórum da Cidadania ao não hierarquizar as medidas a serem executadas, transformando-se em balaio de gato de intenções e um saco vazio de resoluções. Acertou o Fórum da Cidadania ao estimular a participação da sociedade no quadro associativo. Errou o Fórum da Cidadania ao vetar a participação de empresas no quadro associativo. Um verdadeiro contrassenso de uma instituição que permanentemente carecia de recursos financeiros e exibia vistosas pernas de integração, e não de restrição.

Mais Fórum da Cidadania 

 Acertou o Fórum da Cidadania ao pelo menos dar visibilidade a determinados assuntos que incomodam a região, colocando-os na mídia. Errou o Fórum da Cidadania ao imaginar que, ao dar uma vitrine luxuosa, mas geralmente teórica ao temário mais candente sobre os problemas da região, estaria cumprido o seu papel. Acertou o Fórum da Cidadania ao estimular o voto aos candidatos a deputado estadual e deputado federal com história na região. Errou o Fórum da Cidadania ao deixar de monitorar as atividades dos parlamentares eleitos com os votos da região.

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