Economia

Está chegando um presente de
grego do PIB de São Bernardo

  DANIEL LIMA - 14/11/2017

Sai agora em dezembro, antes do Natal, como presente de grego, o PIB dos Municípios Brasileiros, uma das especialidades do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas). O enunciado do título deste artigo não deixa margem a dúvida: a Capital Econômica da região vai contar em termos reais, descontada a inflação, com PIB inferior ao registrado no ano anterior. Os demais municípios locais também perderão, mas bem menos.

É bom lembrar que o PIB dos Municípios que será divulgado no mês que vem se refere a 2015. A indústria automotiva brasileira desabou naquela temporada. E quando a atividade desaba, São Bernardo despenca. 

A divulgação do PIB dos Municípios com dois anos de atraso é positiva, mas também negativa. Explico: 

É negativa porque a próxima safra estatística, relativa a 2017, só será divulgada dentro de dois anos, quando saberemos que a curva descendente que impacta São Bernardo e a região como um todo passou por desaceleração. Talvez até mesmo por recuperação em relação aos 12 meses anteriores.

É positiva porque sossega o facho de proselitismos e triunfalismos de agentes públicos, principalmente, que, faça chuva, faça solo, fazem de tudo para mentir à sociedade.

Queda permanente

Dou destaque a São Bernardo porque sempre dei no passado. E se dei no passado não deveria deixar de dar no presente. Adoro dar bordoadas com fundamentação. E números não deixam espaços a subterfúgios. Principalmente de agentes públicos que enfiam o rabo entre as pernas quando fatos circunstanciais e históricos falam mais alto. Entretanto, por mais que apanhem há sempre quem venda ilusão. E não falta quem as compre em forma de credibilidade ingênua ou como divulgação acumpliciadora. 

No ano passado, quando foi divulgado o PIB dos Municípios de 2014, quando o PIB Nacional cresceu mísero 0,1%, São Bernardo sofreu duro revés: caiu praticamente o dobro do PIB da região em relação a 2013. São Bernardo registrou rebaixamento de produção de riqueza de 8,41%, contra 4,52% do conjunto do Bicho de Sete Cabeças, ou seja, dos municípios da região. 

O PIB de 2013 de São Bernardo registrou R$ 48.789.309 bilhões. No ano seguinte, o total foi de R$ 47.551.620 bilhões. Ou seja: mesmo nominalmente, sem considerar a inflação do período, São Bernardo perdeu força no PIB. Quando se considera a inflação medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preço ao Consumidor Amplo), chega-se à queda de 8,41%. Afinal, os R$ 47.551.620 bilhões de 2013 quando corrigidos pela inflação de 2014 correspondem ao valor real de R$ 51.916.703 bilhões. 

Comprometimento regional 

Para se ter ideia mais precisa do quanto representa para a região o peso da economia de São Bernardo da Doença Holandesa Automotiva basta dizer que o PIB de 2014 sofreu um baque em valores atualizados a dezembro daquele mesmo ano de R$ 4.365.083 bilhões. Nada menos que 76% do total das perdas dos sete municípios naquela temporada, já que o conjunto da região registrou perda monetária de R$ 5.685.748 bilhões. 

O desastre automotivo em 2015, que se repetiu no ano seguinte com mais força ainda, contrata antecipadamente o tom fragilizador da economia de São Bernardo que anunciaremos em dezembro. 

Não adianta espernear. O passado não se altera num golpe de mágica. Com perto de 20% de participação nacional na produção e na venda de veículos de passeio, comerciais e pesados, São Bernardo sofre mais quando o setor automotivo entra em parafuso. A grade de produtos tem preço médio maior que o da concorrência. Carros populares não são boa estratégia nas linhas de produção na região. Os custos trabalhistas, principalmente, desaconselham essa aventura. 

A queda de produção de veículos entre 2014 e 2015, que é o período sobre o qual estamos construindo o PIB de São Bernardo que será divulgado em dezembro, chegou a 22,8%, muito acima dos 15,3% do ano anterior. Saíram das fábricas brasileiras em 2015 o total de 2.429 milhões de veículos. As vendas sofreram menos perda, registrando 26,55, bem acima dos 7,1% de 2014.  Imaginem o quando São Bernardo desabou. A indústria automotiva de São Bernardo é espécie de banda regional. Quando parte dos integrantes sofre diarreia e tem de abandonar o palco, a plateia sofre as consequências. 

Herança maldita 

O prefeito Orlando Morando está entre a cruz e a espada. A retórica de valorização da região e do território em que reina não é a melhor conselheira quando se olha no horizonte. Quero ver como ele vai se virar com a bomba que lhe deixaram, já que só assumiu o cargo em janeiro deste ano. O presente do governo petista de Dilma Rousseff é indigesto. Muito mais indigesto que a perda acumulada do PIB. Quando se entra na seara do PIB per capita, então, o estrago é ainda maior. 

A previsão deste jornalista é de que quando forem contabilizados os seis anos do governo Dilma Rousseff (não considero o período complementar do ano passado como de propriedade de Michel Temer), São Bernardo poderá registrar queda per capita do PIB Municipal de 30%. Não houve erro de digitação. São mesmo 30% de queda distribuída a cada um dos moradores da cidade. 

Tudo porque o crescimento do PIB de São Bernardo de janeiro de 2011 a dezembro de 2014 não passou de 8,72% em termos nominais, que desconsidera a inflação do período. Quando se retrabalham os dados aplicando a inflação de 27,03%, índice acumulado de inflação do IPCA, chega-se à perda por habitante de 14,40%.

Como faltam duas temporadas à atualização dos números – 2015 e 2016 – do período dilmista, período que somado a três trimestres de 2014 registrou a maior recessão econômica da história nacional, teremos tudo para alcançar 30% de mergulho. Os prováveis 30% de acúmulo de perda do PIB per capita de São Bernardo saltarão da soma dos 14,4% já mencionados, relativos aos anos de 2011, 2012, 2013 e 2014, aos números de 2015 e 2016. 

Desastre per capita 

Vou ser ainda mais didático, repetindo parte de análise que fiz ao início deste ano: se o PIB per capita do Brasil registrou perda acumulada de 9,0% naqueles dois anos ainda não apurados em termos municipais, é automático o repasse daquela montanha de prejuízo acrescida de alguns pontos percentuais. Afinal, São Bernardo sofre mais que a média nacional quando o bicho da economia pega para valer. 

Já num artigo de março de 2016 antecipei que o PIB per capita de São Bernardo sofreria duro revés durante o governo Dilma Rousseff. Calculei a encrenca em 20%. Errei. A presidente e a equipe econômica fartaram-se de burradas, ignorando completamente o equilíbrio fiscal. Deu no que deu: um desastre econômico e uma crise política que levou o vice-presidente Michel Temer e seu pessoal ao comando do País. 

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