Imprensa

Quando Jornalismo e Relações
Públicas não passam de sucata

  DANIEL LIMA - 23/11/2017

Jamais imaginei necessário explicar um conceito martelado principalmente em mensagens num aplicativo de celular para uma rede de leitores desta revista digital. Quando afirmo que Jornalismo não é Relações Públicas, só existe um sentido objetivo na definição, sem dar margem, portanto, a subjetividades maliciosas, quando não preconceituosas.

O que quero dizer é que a prática de jornalismo em instância de jornalismo não permite que o jornalista seja outra coisa senão jornalista. Estamos entendidos nessa sucessão de redundâncias propositais ou preciso desenhar?

Jornalistas que atuam em outras atividades jornalísticas, mas que não são jornalistas no sentido tradicional do jornalismo, no sentido de levar informação e análise à sociedade, não podem ser discriminados como não-jornalistas, claro. Mas também nada têm a ver com o derivativo que sugiro, ou seja, de Relações Públicas.

Jornalista de assessoria de comunicação, seja qual for o vínculo empregatício ou de relações empresariais, é outro tipo de jornalista, mas não deixa de ser jornalista. A diferença que o separa de quem pratica jornalismo nos veículos de comunicação convencionais é que geralmente atende às necessidades e demandas do contratante, enquanto o jornalista de trabalho informativo ou crítico, deve se pautar sobretudo pelo compromisso geral com a sociedade.

Professor Raimundo

Parece que esse texto tem vinculação com a obviedade, com a Escolinha do Professor Raimundo, mas não é bem assim. O jornalista de assessoria de Imprensa é um jornalista preocupado com a versão ou com os fatos da organização que o mantêm por laços contratuais. Jornalismo convencional tem a abrangência informativa como compromisso.

Não existe parentesco entre jornalismo de assessoria de Imprensa e a atividade de Relações Públicas. São territórios diferentes. Profissionais de Relações Públicas formalmente em funções de jornalista de assessoria de Imprensa usurpam o direito de atuação de terceiros.

A intermediação entre os dois tipos de jornalismo – o formalmente conhecido e o de assessoria de Imprensa – é muito mais produtiva, respeitosa e tudo o mais do que o que se dá com a utilização de Relações Públicas.

Há determinados códigos de conduta entre profissionais de jornalismo que balizam procedimentos a respeitar. Quando há interferência de Relações Públicas, o terreno se torna minado porque se configuram efeitos contraproducentes denunciadores de um estranho no ninho.

Tenho profundo respeito por todo tipo de atividade exercida por jornalistas e também por profissionais em Relações Públicas, mas cada macaco deve ficar em seu respectivo galho.

Experiência valiosa

Por pouco tempo e faz muito tempo exerci jornalismo de assessoria de Comunicação numa empresa pública. O outro lado da Redação é um mundo à parte do mundo da Redação. O jogo de interesses inverte-se. A importância de transformar um assunto considerado estratégico em pauta jornalística é permanente desafio. Já foi maior, claro, quando os jornais e as revistas estavam abarrotados de profissionais e a concorrência por espaços físicos das páginas era intenso.

Houve um corte generalizado de cabeças nas redações e, embora as páginas também tenham sido reduzidas em quantidade, tornou-se menos desgastante o caminho de sugestão de pauta virar reportagem. Talvez o problema maior seja de interlocução. Redações em constante rodízio não têm a memória e a técnica qualificadas dos assessores de Imprensa geralmente especializados.

Não preciso reiterar respeito aos Relações Públicas em geral. Entretanto, quando se trata de jornalismo, e salvo exceções que confirmam a regra, são os bons profissionais de jornalismo que sabem definir o caminho das pedras do diálogo com os jornalistas do outro lado do campo da comunicação.

Paranapiacaba à venda

Voltando rapidamente à experiência como assessor de Comunicação (no final dos anos 1980 na Emplasa, empresa estatal do governo paulista que trata de planejamento urbano),  lembro bem que cheguei a acreditar que a Vila de Paranapiacaba seria finalmente beneficiada pelo empresariado, que patrocinaria uma grande reforma.

Divulgamos tanto a possibilidade de encontrar uma saída de investimentos que chegamos até o topo da pirâmide da Avenida Paulista, precisamente na sede da Fiesp. Acompanhei o então presidente da Emplasa, Ricardo Lewandovski. Sim, exatamente o já há algum tempo ministro do Supremo Tribunal Federal.

Entretanto, o desfecho não foi nada satisfatório. A gestão pública é cíclica na ocupação de espaços estratégicos. O que o titular de hoje deixa encaminhado o sucessor de amanhã costuma descartar.

Além disso, minha experiência não durou mais que nove meses. Voltei correndo à atividade jornalística tradicional. Algo estava encaminhando sem querer, mas levado pelas circunstâncias, a criação da revista LivreMercado, que me ocupou nas duas décadas seguintes.  De qualquer forma, jamais esqueço aqueles nove meses. Foi um período suficiente para compreender as durezas de batalhas reservadas a um dos ramais do jornalismo.

Invasão das redações

O que lamento mesmo – e daí aquela frase que tantas interpretações demandou, várias das quais sem pé nem cabeça porque de ranço preconceituoso deplorável – é que o jornalismo tradicional se tornou jornalismo de Relações Públicas em muitas redações.

O que é jornalismo de Relações Públicas?  Ora, talvez a própria construção da frase dispense complementação, mas se é para o bem de todos e felicidade geral da categoria, vou dizer: é tudo aquilo que -- por circunstâncias diversas nas quais geralmente o jornalista envolvido é o menos responsável por conta das pressões do mercado de trabalho -- não passa de pres-release, de nota oficial, determinada pela direção da publicação.

Em suma, o jornalismo de Relações Públicas comete duplo abalroamento quando se coloca o interesse dos consumidores de informação em primeiro lugar: amesquinha o conceito de jornalismo e banaliza o sentido de Relações Públicas, abastardando-os, portanto.

Nesse caso, o que temos é a industrialização de um novo conceito, deletério e marginal, que se resumiria no sucateamento da informação.

Separados, Jornalismo e Relações Públicas são atividades sociais que dignificam os praticantes. Misturados, expressam descaminhos da comunicação num País em que a sociedade negligente em larga escala não distingue uma coisa da outra e, por isso, não detecta a mistura delitiva que conspurca o processo informativo.

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