Imprensa

Interesse público prevalece;
vida privada não é jornalismo

  DANIEL LIMA - 04/12/2017

Às vezes me pergunto por que sou uma coisa numa coisa e outra coisa noutra coisa. Por que me meto tanto na vida pública alheia e não quero nem saber da vida privada alheia? Devo confessar que de vez em quando procuro saber da vida alheia quando entendo que, conhecer um pouco além das cortinas que se abrem para o espetáculo, pode delinear o que se passa no próprio espetáculo. Quem é bandido social nos atos de interesse público – e é disso que frequentemente damos conta – invariavelmente tem a vida manchada nos atos privados. 

Entretanto, dou preferência, quando não exclusividade, a apurar informações sem descer à pessoa física. Não me sinto bem vasculhando vida privada. E, da mesma forma, execro quem faz de atividades públicas campo de atuação de interesse público, casos de empresários, políticos e tudo o mais, e recorre à surrada fórmula de procurar abrigo no conceito canhestro de invasão de privacidade quando lambanças saltam dos bastidores para o público em geral. 

É muito fácil refestelar-se na direção de uma entidade de classe e depois, malandramente, arvorar-se ultrajado como chefe de família diante do cometimento de delitos institucionais e corporativos. Essa é uma espécie de foro privilegiado com cobertura de meritíssimos incautos. 

Tenho friozinho na barriga ao pegar o fio da meada de um estrondoso escândalo. Estrondoso no sentido de que não há como disfarçar, porque é batom na cueca. E também porque nesta Província o que mais fazem é abafar os casos. A Operação Lava Jato passou longe daqui e seus filhotes demoram para dar o ar da graça em resolutividades. Há crosta protetiva que assegura aos bandidos sociais completo assanhamento -- mesmo em períodos supostamente de vacas magras delinquenciais.

Legítima defesa 

Estou escrevendo este artigo em legítima defesa profissional e pessoal. Desejo que leitores apressados ou leitores que se acham sabetudos contem com elementos explicativos que os impeçam de equívocos. Pesa a importância de dizer que não sou um profissional de comunicação desumano a devassar a vida de bandidos sociais fora das quatro linhas de jogo em que eles atuam. Sou tão leal como contendor que não admito lançar mão de subterfúgios que firam a ética e a moralidade. Mas também sou incorrigivelmente persistente a ponto de não desistir jamais de ir a fundo nas investigações.

Investigações? Sim, investigações. Não venham com bobageiras de que jornalista não é policial para investigar. Tudo que foge à naturalidade da informação jornalística é investigação. Pode não ser investigação no sentido policial – e não é mesmo – mas é investigação no sentido mais entusiasmado de checar dados com fontes confiáveis. 

Fiz em causa própria – com direito à extensão à classe que represento – uma proposta inédita, extraordinária, de destinar a veículos de comunicação parte do dinheiro recapturado por conta de denúncias desses mesmos veículos de escândalos que afetassem as administrações públicas municipais. 

Rios de dinheiro 

Seria uma moleza faturar uma grana mais que honesta, porque duplamente favorável à sociedade em forma de recuperação orçamentária e vigilância mais intensa nas relações entre poderes privados e públicos. Lamentavelmente, nenhum prefeito topou a parada. E acho que não topará.

Ou seja: jornalismo que fica no ramerame do oficialesco, da informação anódina, muitas vezes enviesadas, quando não fraudulenta, é jornalismo de república bananeira. 

O Brasil esteve durante muito tempo nessa categoria, mas com o surgimento de uma espécie de clube de jornalismo investigativo, tudo começou a mudar. Mas precisa mudar muito mais. A Operação Lava Jato, antecedida pelo Mensalão, é prova disso. Nosso jornalismo é reativo, jamais antecipatório. 

Tenho tanto prazer de saber – e de publicar informações exclusivas ou análises igualmente diferenciadas – quanto horror a futricas familiares e sociais. Daí ter uma vida fora do âmbito familiar praticamente zerada. Muito dificilmente um evento ou qualquer encontro pessoal me retira da companhia de minhas cachorras, de minha novela das nove e meia, do meu futebol, de minhas leituras, de minhas corridas, dos meus filmes na Netflix e de minhas músicas de todos os tempos e ritmos. 

Sossego da rotina 

O interlocutor precisa valer a pena para me tirar do sossego de minha rotina. Chamaria o esticamento de minha jornada profissional de horas extras.  Sim, horas extras. Só as passo com interlocutores selecionados durante o período de expediente. Geralmente em locais insuspeitos. Aviso a minhas fontes que devem tomar todos os cuidados para não serem vistas em minha companhia. Os adversários não perdoariam. 

Depois que inventaram o aplicativo WhatsApp, as incursões ficaram menos intensas. As mensagens facilitam resoluções que antes apenas o tête-à-tête permitia. Mas mesmo assim há sempre possibilidades de encontros pessoais. Há determinadas situações em que o olho no olho é imprescindível. Sobremodo quando está em jogo uma etapa importante de investigações. 

Roendo a corda 

Lembro-me de um dos casos que desvendei. O Ministério Público Estadual de São Bernardo simplesmente fechou os olhos e tapou o nariz, engavetando-o. Foram vários encontros com uma mesma fonte. Havia necessidade de juntar documentos. Quanto mais documentos, melhor. E também era importante conhecer detalhes da operação sob a ótica de um dos prejudicados, subestimado pelos delinquentes engravatados. 

Minha fonte honrou a palavra até o ponto crucial. Depois desapareceu. Outros que se dispuseram a colaborar desapareceram após os primeiros contatos confirmatórios dos fatos. Um dele virou aliado de um dos bandidos sociais. Refestelou-se em nome de um acordo que financiou parte dos recursos à candidatura política. 

Conheci de tudo nessa vida de jornalista investigador. Sei que existe um grupo que me quer morto fisicamente ou no sentido metafórico. Sou uma pedra no sapato deles. Eles me subestimaram. Imaginaram que me calariam pelo suposto medo de medidas subsequentes para abalar meu trabalho. 

Confesso que peguei tanto horror à vida privada de terceiros que não admito quebrar minha rotina de cidadão discreto quando desembarco diariamente no meu endereço domiciliar. Até recentemente sofri um bocado com um bando de moleques. Eles ocupavam a casa vizinha. Eram trabalhadores escravos de uma rede de fast-food ricamente instalada em shoppings. Jovens do Norte e Nordeste do País. 

A romaria barulhenta não tinha hora para começar e muito menos para terminar. Depois de cinco anos me livrei de todos. Mas a Polícia não contribuiu com nada. Sempre lavou as mãos, por mais que a procurasse e explicasse o caso sem me identificar além dos dados documentais. O Ministério Público do Trabalho fez pouco também, mas só o fato de ser acionado mudou a configuração. Seus algozes resolveram tirá-los do chiqueiro em que viviam. 

Força do hábito 

Desde então, minha vida pessoal melhorou um bocado. Tenho direito a dormir quando o corpo avisa que está cansado de ser escravo de uma mente que parece não ter tempo para descansar. Acordo quando o corpo avisa que não suporta vagabundagem. São em média seis horas de intervalo. João Doria descansa metade disso, mas tem ambições que jamais tive. Não tenho jeito de dizer não quando a consciência manda dizer sim e tampouco digo sim quando o arranjo mental determina dizer não. 

Não me suportaria 24 horas por dia agindo como jornalista investigativo, além de analítico. Vivo mesmo 24 horas como jornalista, mas apenas parte disso no roteiro da oficialidade. 

A outra parte é de jornalista que curte TV, música, cinema, futebol sempre tendo o filtro da profissão como referencial. Já ouviram dizer que o hábito faz o monge? Pois é. Jornalista de verdade paga o preço da profissão. 

Vejo futebol, por exemplo, sem abandonar o vício da observação tática. Não me perdoaria jamais se ao final de 90 minutos não entendesse por que meu time ou qualquer outro time ganhou, perdeu ou empatou o jogo. 

Não dependo em larga porção da crônica esportiva porque a crônica esportiva vive em estágio de empobrecimento tão preocupante que o melhor profissional da área nem jornalista no sentido convencional do termo é. O mestre das análises é médico e atende pelo nome de Tostão. Uma meia dúzia completa o time de primeira. Os demais são de mesmices aterradoras. 

Para completar, não confundam este jornalista com a pessoa física. Investigação é comigo mesmo. Futrica é com as candinhas. Tradução: fora do campo de jogo profissional quero mesmo é paz familiar. Um cidadão absolutamente comum, candidato a nada.  Tomara que a casa vazia ocupada até recentemente por aquela molecada não me reserve nenhuma surpresa ocupacional. Avisei a turma de casa para não reclamaram se virar uma escolinha infantil, um despachante ou mesmo um puteiro, como já o foi. Tudo, menos moleques sem hora para dormir e acordar, em revezamento de três turnos de perturbação. 

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