Economia

Região segue a levar surra do
PIB da vizinha Região Oeste

  DANIEL LIMA - 18/12/2017

Conselho aos incautos, aos crédulos, aos otimistas e aos mal informados: não acreditem no conto da Carochinha de que o PIB da Província do Grande ABC é o quarto maior do Brasil. Um rastreamento minucioso que adote os mesmos critérios que medem o tamanho da produção de riquezas na região colocaria os sete municípios locais fora da lista das 10 primeiras regiões brasileiras. O anunciado e repetido quarto lugar é uma balela típica de provincianismo que lustra o caradurismo de enganações.  

Só na Grande São Paulo de 39 municípios estamos em terceiro lugar, atrás da Capital e mais uma vez da Grande Oeste, região formada por Osasco, Barueri e outros cinco municípios. Estamos apanhando sem dó nem piedade também em período de recessão, caso de 2015 (e também 2016 que virá), cujos resultados do PIB (Produto Interno Bruto) foram anunciados quinta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e esmiuçados nesta revista digital. 

Quem faz as contas para fazer de conta que o conto da Carochinha não é obra de ficção leva em conta apenas o que lhe interessa de servilismo ou desinformação. Os sete municípios locais são tratados como região, critério justíssimo. Mas, e a Grande Oeste de Osasco, Barueri e outros municípios? E a Grande Campinas, a Grande São José dos Campos, a Grande Porto Alegre, a Grande Salvador, a Grande Curitiba, a Grande Sorocaba, isso não conta, quando se sabe que a força de atração econômica não se limita mais ao principal município de uma determinada área, mas também ao conjunto de vizinhos que completam o mix de produtos e serviços que garantem produtividade sobretudo ao setor industrial, além de serviços e consumo? 

Três vezes mais 

O trecho do Rodoanel, com 13 intersecções a conectar municípios da Grande Oeste, é o principal diferencial da economia daquela região em relação à Província, contemplada pelo presente de grego do trecho Sul, com apenas três acessos. 

Desde que o Rodoanel Oeste chegou, Osasco e vizinhança dão de goleada na região. Em 2002, quando a obra que tangencia a Região Metropolitana de São Paulo foi entregue, os sete municípios da Província foram engolidos economicamente por Osasco, Barueri e outros cinco municípios. 

Numa comparação limitada aos dois últimos anos, mas que retrata um avanço de mais de uma década da Grande Oeste, a situação é amplamente favorável a quem primeiro contou com obras do Rodoanel. A recessão econômica que atingiu em cheio o País em 2015, depois de o PIB Nacional ter sido praticamente congelado em 2014, com crescimento de apenas 0,5%, a Grande Oeste sofreu revés nesse medidor de criação de riqueza de 4,64%, enquanto a Província caiu 16,02%. Ou seja: o impacto destrutivo da recessão de 2015 foi três vezes maior na região do que na Grande Oeste. 

Dessa forma, enquanto o PIB da Província em 2014 era de nominais R$ 118.248.025 bilhões (os números foram ajustados pelo IBGE, que trata do PIB, em relação ao anunciado, de R$ 120 bilhões) na Grande Oeste atingiram-se nominais R$ 133.171.384 bilhões. A diferença favorável a Grande Oeste, portanto, era de 11,20%. Entretanto, é maior ainda quando se recorre aos números corrigidos pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo). No caso da Província, os mais de R$ 118 bilhões nominais de 2014 virariam R$ 130.864.089 bilhões com a aplicação da inflação de 10,67% de 2015. No caso da Grande Oeste, os R$ 133.171.384 bilhões registrados em 2014 passariam a R$ 147.393.234 bilhões em 2015 com a aplicação da inflação. 

Essas mudanças significam que a Província perdeu 16,02% de PIB no período, enquanto a Grande Oeste sofreu redução de 4,64%. E a vantagem da Grande Oeste sobre a Província passou a 20,37%, resultado dos números efetivos do PIB de 2015 das duas áreas geográficas: R$ 140.555.672 da Grande Oeste e R$ 111.919.471 bilhões da Província. 

Em termos reais, a Grande Oeste perdeu R$ 6.837.562 bilhões de geração de riqueza em 2015 em relação ao ano anterior, enquanto a Província viu esvaírem-se R$ 18.945.618 bilhões, quase três vezes mais. 

PIB per capita

A Grande Oeste é composta de Osasco, Barueri, Carapicuíba, Jandira, Pirapora do Bom Jesus, Santana do Parnaíba e Itapevi. Esses municípios registravam 1.835.803 milhão de moradores em 2015, contra 2.719.571 milhões da Província. Mais PIB e menos população significam que a Grande Oeste conta com PIB per capita melhor que a Província. São R$ 76.563.59 mil por morador, quando se divide o total do PIB pelo número de moradores. Uma queda por habitante de 5,35% entre 2014 e 2015. Na Província, o PIB por habitante em 2015 foi de R$ 41.153,35, com queda de 15,02% quando contraposto ao PIB per capita do ano anterior. Resumo da ópera: o PIB per capita da Grande ABC é 46,25% superior ao da Província.

A conclusão além dos números é que os dois trechos do Rodoanel favoreceram tremendamente os municípios da Grande Oeste, com ligação direta à Baixada Santista e ao Interior do Estado. Também há de se considerar que o modelo econômico da região perdeu a corrida da modernidade. A dependência excessiva da indústria automobilística não é a melhor solução para quem quer resistir às crises cíclicas do País. Tanto é verdade que a Grande Oeste sentiu bem menos os efeitos do primeiro ano de recessão, em 2015, e sentirá semelhantemente menos quando surgirem os números do PIB dos Municípios de 2016, que serão anunciados em dezembro do ano que vem. 

Dias esgotados 

A Grande Oeste é mais diversificada economicamente, com atividades de serviços de valor agregado, indústria de transformação, e comércio. A Província também está encalacrada geograficamente, porque não tem para onde expandir-se. A área de proteção dos mananciais toma mais da metade do território. Além disso, o sindicalismo velho de guerra é um empecilho a investimentos: representa custos trabalhistas e relações corporativas que outras regiões do Estado e do País contornam sem dificuldades. 

A Província dos Sete Anões, outrora Grande ABC, já não está mais com os dias contados. A contagem praticamente se esgotou para quem se iludiu com a perenidade de geração de riqueza da indústria automotiva. A Doença Holandesa Automotiva é espécie de feitiço que virou contra o feiticeiro, mas não falta na praça regional quem ainda pensa com a cabeça no século passado, de economias autárquicas. 

O mundo mudou, as fronteiras se romperam e continuarão a se romper ainda mais com a chegada da chamada indústria 4-D. As cadeias produtivas sem limites geográficos são um novo divisor de águas. Quem achar que poderá escapar incólume vai virar obituário.  

Leia mais matérias desta seção: