Imprensa

Lava Jato ganha fácil de
bandidos sociais. Ganha?

  DANIEL LIMA - 20/12/2017

A resposta depende da matemática pura e simples, contabilizada de maneira convencional, ou requer desdobramento no campo da efetividade funcional. Desde que regionalizamos “bandidos sociais”, utilizamos a expressão em 83 artigos de forma protagonista ou acessória. Já Lava Jato consta de 264 textos, igualmente de forma essencial e suplementar. Então, Lava Jato vence essa disputa? Não é bem assim. 

A operação anticorrupção mais extraordinária já realizada no País, combatida apenas por bandidos sociais inclusive da mídia, ainda está muito distante dos resultados esperados na região. Os filhotes demoram a apresentar resultados, mas aos poucos aparecem. Novos juízes saltam no noticiário e aliviam o peso do pioneiro Sergio Moro, a quem direitistas e esquerdistas fazem esforço descomunal para descontruir a imagem em redes sociais manipuladas sobretudo pelos transgressores. 

Juro que não imaginava que a diferença fosse tanto, mais de três para um favorável à Lava Jato. Tenho sido, portanto, bastante generoso com os bandidos sociais desta Província, porque os menciono com parcimônia. Diria que com parcimônia demais. Como no caso da identificação desta região, à qual passei a adotar Província dos Sete Anões após longo experimento de Província do Grande ABC, deveria mencionar bandidos sociais sempre que me referir a qualquer coisa que lembre direta ou indiretamente as fragilidades das instituições municipais e regionais, tomadas por oportunistas. 

Primeiras matérias em 2014

Coincidentemente, Lava Jato e bandidos sociais frequentam esse ambiente jornalístico desde 2014. Aliás, há apenas um registro de cada expressão naquele ano. A primeira matéria com bandidos sociais foi editada em 24 de junho sob o título “Defenda que não se engane: muitos vagabundos sociais estão à espreita”. Reproduzo apenas alguns parágrafos. Acho que vale a pena redescobrir a origem dessa joia da coroa linguística para escarafunchar nichos que não estão nem aí com a sociedade: 

 A diversidade promove um caldo de cultura e de ações que poderá explicar, no futuro, o sucesso dessa mobilização que desafia o calendário monopolista da Copa do Mundo. Admiro mesmo o olhar positivista de Elísio Peixoto, mas sigo minha intuição, somatório de experiências vividas: os bandidos sociais da praça regional não darão trégua ao movimento assim que suspeitarem que correm riscos, porque eles correm risco sim de perderem espaços abusivamente controlados em detrimento da sociedade. 

Teste de combatividade 

Como se pode observar pelo desfecho daquele movimento, tratou-se de um teste para conhecer até que ponto seria possível chegar a um resultado diferente do que meu lado racional dizia. E dizia que muitos voluntários inicialmente inscritos não prosseguiriam na batalha por razões diversas. Dito e feito. 

Agora, vou reproduzir um trecho da primeira matéria que faz referência à Operação Lava Jato, publicado na edição de cinco de dezembro de 2014 sob o título “Outros clubes podem esconder ações de organizações criminosas?”:

 Vou continuar a escrever “Clube dos Prefeitos” quando me referir ao “Consórcio Intermunicipal de Prefeitos” e também “Clube dos Construtores e Incorporadores” (que também é Clube dos Especuladores Imobiliários) quando me referir à Acigabc, Associação dos Construtores e Incorporadores. Da mesma forma vou escrever mais vezes “Clube dos Pequenos Construtores de Santo André”, quando o assunto for a Associação dos Construtores Imobiliários de Santo André. Não tenho culpa se o chamado “Clube das Empreiteiras” (uma associação informal colhida em flagrantes delitos na Operação Lava Jato) transformou o verbete “clube” em algo pecaminoso. Tiraram “clube” do armário de malandragens em que estava instalado.

A criminalização do uso de Clube dos Construtores pelo meritíssimo de Santo André na queixa-crime movida pelo então presidente da entidade, empresário Milton Bigucci, ultrapassou todos os limites da razoabilidade interpretativa. Jamais fiz qualquer relação entre o Clube das Empreiteiras descoberto pela Operação Lava Jato e o Clube dos Construtores. Meus textos do Clube dos Construtores são anteriores à Operação Lava Jato. 

Até porque, convenhamos, aquele funcionava perfeitamente, a ponto de dominar investimentos em infraestrutura e outros quesitos do Estado brasileiro, enquanto este, então medíocre, mequetrefe e chinfrim, conforme escrevi e também por isso fui criminalizado, não passava de um simulacro dominado por alguns pares de empresários, Milton Bigucci à frente. 

Jamais houve por parte deste jornalista qualquer correlação entre um clube e outro. Até porque, desde que dei a largada no uso da expressão identificadora da entidade regional, o fiz por duas razões centrais. A primeira para facilitar jornalisticamente o entendimento de que se tratava (Acigabc é algo descomunalmente sofrível, coisa do século passado) e a segunda, suplementarmente, para massificar junto à sociedade as ações especulativas perpetradas para vender ilusões no mercado imobiliário. Como o tempo provou e continua a provar. Haja vista que mesmo os empreendimentos de Milton Bigucci, um empresário que conhece bem o terreno onde pisa, seja no campo de batalha, seja no campo da estratégia, escapam à degola do excesso de oferta e escassez de demanda.

Possivelmente a expressão “Lava Jato” chegará ao número 300 antes que “bandidos sociais” chegue ao centésimo. A perspectiva passa por cima do notório esvaziamento da força-tarefa federal que o governo federal de plantão, com apoio de alguns coleguinhas à direita e à esquerda (mas a resistência de tantos outros, que formam a maioria dos críticos do País) faz articulações para estancar o aprofundamento e o espalhamento das operações. 

Chegamos ao ponto do absurdo de se criticar a força-tarefa com frequência perdigueira, enquanto o lado “b” da corrupção que provocou a maior crise financeira deste século se junta discretamente ao lado “a” numa operação de sabotagem só detectada ou admitida por quem não é presa ideológica.

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