Esportes

Região pronta para Série A. Já
imaginaram bolsa de apostas?

  DANIEL LIMA - 15/01/2018

Se houvesse uma bolsa de apostas na Série A do Campeonato Paulista (oficialmente Série A-1, ou Primeira Divisão) e se essa mesma bolsa de apostas comportasse alguns prêmios conjugados, os resultados seriam de difícil previsão. Fora uma evidente barbada, claro: os times favoritos ao título, por exemplo, sempre são os chamados grandes do Estado. Dúvida principal: quem seriam os dois rebaixados entre 16 participantes? 

Santo André e São Caetano estreiam no meio da semana compartilhando expectativa inicial de peso semelhante: não cair para a Série B (A-2) do ano que vem. Essa é a mais importante das quatro alternativas não necessariamente excludentes às equipes da região. O resto será lucro. 

A bolsa de apostas teria poucos vencedores se quatro questões fossem tratadas de forma sistêmica, de cujos resultados saísse a pontuação final aos apostadores: 

 Disputa pelo título da competição. 

 Disputa pela classificação à Série D do Campeonato Brasileiro do ano que vem. 

 Disputa por um dos dois primeiros lugares num dos quatro grupos da fase classificatória. 

 Disputa para fugir do rebaixamento. 

Façanha do título

O Santo André e o São Caetano sabem que ganhar o título é façanha reservada a poucas equipes de porte médio ao longo da história. Tanto que ao São Caetano dourado e o mais surpreendente time dos primeiros anos do novo século no futebol brasileiro se contabiliza uma conquista estadual, em 2004, numa final contra o Paulista de Jundiaí e com o ainda pouco conhecido Muricy Ramalho de treinador. O Santo André chegou perto em 2010 ao decidir com o Santos no Pacaembu. 

São, juntamente com outros casos, exceções à regra geral dos times médios do futebol paulista. Os grandes clubes dominam. Fora algumas surpresas, como a do próprio São Caetano, foram raras as vezes em que, mesmo na fase decisiva, de mata-mata ou de outra fórmula, os médios superaram os grandes. O Ituano ganhou do Santos na final de 2014, 10 anos depois da conquista do São Caetano e quase 30 anos após o Internacional de Limeira superar o Palmeiras na final de 1986. Antes disso, o título do Bragantino em 1989 diante do Novorizontino. O Ituano chegou a ganhar em 2002, mas não houve participação das grandes equipes. A Ponte Preta, equipe média-grande, chegou perto no ano passado e também em outras três finais. O Audax, também, no ano anterior. Perderam, entretanto, para Corinthians e Santos.

Vaga pela Série D do Brasileiro

Chegar à Série D do Campeonato Brasileiro do ano que vem e, com isso, colocar um pé mesmo que inicialmente provisório no circuito nacional, implica superar vários adversários de porte médio que não estão no calendário da CBF naquela temporada, embora estejam neste ano por força regulamentar. Por conta disso, trata-se de disputa paralela que independe do posicionamento das equipes em cada grupo. A contagem de pontos geral é que determina quem passa para o Brasileiro. 

Jogos contra adversários igualmente interessados em sair do casulo estadual valem teoricamente seis pontos. Mereceriam até premiação especial. Programar esses jogos em termos motivacionais seria relevante quando se pensa em retomar a geografia nacional como meta de competitividade, inclusive no plano de um marketing de respostas mais efetivas, dentro e fora de campo. Cada vez mais futebol e televisão se fortalecem como irmãos siameses. Estar fora da telinha é matar a possibilidade de fazer dos negócios do futebol, sobretudo de valorização do principal ativo, os jogadores, permanente impulso a avanços. 

Classificação ao mata-mata

Ficar entre os dois primeiros colocados do grupo (Santo André e São Caetano estão no mesmo espaço, juntamente com São Paulo e Ponte Preta) tem significado especial embora não necessariamente assegure vaga à disputa da Série D do Brasileiro do ano que vem. É uma oportunidade de disputar pelo menos a primeira etapa da fase de mata-mata do Paulista. Enfrentar provavelmente o São Paulo significaria exposição que valorizaria o elenco e a marca da equipe. Superar o São Paulo seria o sonho de consumo. 

A Ponte Preta foi rebaixada à Série B do Campeonato Brasileiro, está menos poderosa como quinta força do futebol paulista, mas goza de estrutura remanescente da principal competição nacional do País. Conta com recursos financeiros muito acima dos demais concorrentes do grupo, fora o São Paulo, claro. Tudo isso não pode ser desconsiderado. Tem mais bala na agulha para reestruturar a equipe. Como, aliás, já está fazendo. É um time com força popular e representatividade que segue um roteiro comum de fazer da Série A do Brasileiro o endereço preferencial de permanência. O efeito bate-e-volta está para a Ponte Preta no Brasileiro da Série A tanto quanto às equipes da região na Série A do Paulista. Superar esse estágio é um grande desafio. 

Fuga do rebaixamento

Fugir do rebaixamento (as duas últimas colocadas na fase de classificação, independente de agrupamento, terão esse destino) deve ser mesmo a maior preocupação. Até que o fantasma do rebaixamento seja exorcizado. A vantagem de não se enfrentarem (por estarem no mesmo grupo, cujos integrantes jogam apenas os adversários dos demais agrupamentos), evitará que São Caetano e Santo André corram risco de o resultado do clássico provocar desequilíbrio emocional nas rodadas seguintes. 

Clássicos são uma injeção de adrenalina que causam estragos aos derrotados. Em muitos casos, também, uma derrota serve, contraditoriamente, para ajustes. Complexo por natureza, o futebol reserva surpresas. No ano passado o Santo André decidiu trocar de técnico e trazer Sérgio Soares para salvar a lavoura depois de perder em casa para o São Bernardo de um Sérgio Vieira que não sustentou o time na Série A. 

A redução do número de participantes aumenta o grau de risco das supostas 11 das 16 equipes de tamanhos semelhantes que iniciarão a disputa igualmente inquietos com os últimos lugares. Com menos equipes e melhor distribuição de dinheiro de patrocinadores coordenados pela Federação Paulista de Futebol, a consequência lógica é que se verificará provável aumento do nível técnico. Ou melhor: um nível técnico entre equipes sem grandes desníveis. Grandes equipes e Ponte Preta fora da lista, claro. 

Bolsa problemática

Deu para entender por que uma bolsa de apostas que leve tudo isso em consideração poderia produzir poucos ganhadores? Apostar num dos favoritos ao título é mais provável de sucesso do que apontar os dois maiores potenciais candidatos ao rebaixamento. Também não seria improvável minimizar o risco de apontar os dois primeiros colocados ao final de cada grupo classificatório, mas os classificáveis à Série D do Brasileiro exigiriam muito mais atenção e sorte. 

A expectativa é que tanto o São Caetano quanto o Santo André não façam da Série A do Campeonato Paulista uma travessia tormentosa de permanente olhar para a parte inferior da classificação. No ano passado a região se viu derrotada com a queda do São Bernardo. No ano anterior caíra o Água Santa de Diadema. O Santo André escapou no ano passado no último jogo, fora de casa, com o Audax, vice-campeão na temporada anterior e rebaixando após esse jogo. Já o São Caetano volta à Série A após duríssimo aprendizado de reformulação completa em quatro temporadas seguidas na Segunda Divisão. 

O equilíbrio de forças entre as equipes de médio porte que disputam a Séria A do Campeonato Paulista explica a dificuldade de apontamentos certeiros de rebaixamentos, entre outras variáveis. Em 2016 o São Bernardo começara empolgando, mesmo sem atuar bem, e só se livrou da queda e melhorou a ponto de disputar o mata-mata com o Palmeiras porque o técnico Sérgio Soares chegou a tempo de reorganizar um time que, limitado a chutões, tornou-se exemplo de valorização da posse de bola e de jogadas de aproximação. 

O Água Santa de Diadema teve em 2016 um começo fulminante, inclusive ao golear o Palmeiras, mas não contava com reposições técnicas e alternativas táticas. Tornara-se, após as primeiras rodadas, um time óbvio. Os adversários o amordaçaram e o atiraram às últimas posições. 

Exposições múltiplas

Esse é um ponto crucial para entender a dinâmica classificatória das equipes médias da Série A Paulista. Na medida em que virtudes e deficiências passam a ser detectadas e escarafunchadas pelos adversários, num jogo de minuciosas observações com uso de ferramentas tecnológicas e analistas táticos e de resultados, tudo pode se alterar. 

Quanto menos criativa uma equipe, mais a possibilidades de perder fôlego se cristalizará. Uma das explicações para o Corinthians ter ido tão mal no segundo turno do último Brasileiro da Série A é essa associação de previsibilidade e limitações técnicas do elenco para reposicionar a engenharia tática. Imaginem então os estragos que impactaram o Água Santa naquela temporada do rebaixamento. Tanto quanto o Audax do ano passado. Exauriu-se a capacidade de organização pautada num jogo coletivo então brilhante e desafiador. Perderam-se vários titulares após o sucesso no ano anterior de visibilidade máxima com a disputa do título com o Santos. 

O mais intrigante sobretudo no batalhão que em primeiro lugar pretende evitar as duas últimas posições ao final da fase classificatória do Campeonato Paulista é que não existe fórmula mágica para a fuga e tampouco para chegar ao mata-mata. Não bastassem as travessuras do futebol, desta feita haverá agravante: a temporada de classificação não chegará a três meses, com dois jogos por semana. Haverá pouco tempo a reparos imediatos. As armas tecnológicas e de observações terão de ser apuradíssimas para evitar o pior. E nesse ponto tudo será ditado pela conexão precisa com o tempo curto da competição. 

Preparações distintas 

São Caetano e Santo André adotaram medidas completamente distintas para disputar os 12 jogos da fase classificatória. Atire a primeira pedra quem garantir que uma proposição é melhor que a outra. O São Caetano mesclou ao time que conquistou a Série B do Paulista e chegou à semifinal da Copa Paulista do ano passado um elenco de reforços apresentados num pacotaço. Contratou jogadores tecnicamente mais apropriados à Série A, sem, entretanto, descartar os melhores das duas competições do ano passado, marcantemente mais físicas. Foram 11 reforços para os três setores. O time pode jogar um futebol de menos brilho, mas efetivo, como também tecnicamente mais apreciável. 

A previsão é que um time mais criativo tomará posse sem, entretanto, reduzir a capacidade de competição de quem chegou ao acesso à Série A e às semifinais da Copa São Paulo. Temperar os dois elencos – de quem já estava e de quem chegou – é o desafio do técnico Luiz Carlos Martins. Poucos treinadores de equipes médias tiveram tantas condições para brilhar. Martins inicia a quarta temporada seguida à frente da equipe. 

Há o risco de o São Caetano deixar de ser o time pouco criativo, mas contundente, (principalmente nas bolas paradas) do ano passado sem chegar ao estágio de qualificação técnico-tática que os reforços sugerem. Mas também pode encaixar uma coisa na outra e se tornar mais forte no conjunto e mais incisivo nas individualidades. Ou seja: o time sem reforços lutaria sobretudo para se manter na competição no ano seguinte; já o reforçado pode sonhar mais alto. Sempre tendo como condicionante somar à união da competitividade do ano passado o ativo de reforços de qualidade. 

Time esquadrinhado 

O Santo André, de menor capacidade financeira, abriu mão do segundo semestre do ano passado. Deixou de participar de competições. Guardou fôlego para a Série A deste ano. Mas teve o cuidado de procurar compensar o desmanche após a participação na Série A Paulista do ano passado com antecipação da formação do elenco deste ano. A contratação do técnico Sérgio Soares, vice-campeão paulista diante do Santos e uma comissão técnica alinhada às suas pregações, poderão ter contornado a retirada da equipe da Copa Paulista. As 19 contratações foram escolhidas a dedo, sempre como resultado da definição de uma lista de três nomes por função tática. 

Sérgio Soares formou o elenco de acordo com o desenho funcional que pretende levar a campo. Tudo rigorosamente esquematizado como quem procura dar forma ao sonho. Um time técnico, com alta mobilidade no meio de campo, saídas rápidas pelas laterais e triangulações ofensivas que juntam velocidade, habilidade e contundência. Foi com essa fórmula, mas com mais tempo de preparação que levou o Santo André à decisão com o Santos em 2010. 

No São Bernardo de 2016, salvo do rebaixamento e conduzido ao mata-mata com o Palmeiras, Sérgio Soares fez uma revolução em duas semanas de treinamentos, quando herdou jogadores que não indicou, lhe entregue num momento de desespero da direção do clube. O calendário mais espaçado permitiu que fizesse uma revolução nos treinamentos e alterasse peças que mudaram completamente a estrutura tática da equipe. Agora o calendário não é mais aliado, mas a organização da equipe desde o final do ano passado pode ter o mesmo efeito. 

Tempo para análise 

Qualquer prognóstico mais aprofundado antes que a bola comece a rolar e antes de pelo menos cinco rodadas tenham sido disputadas seria iniciativa arriscada demais. Tem sido assim ao longo dos anos e torna-se teoricamente pior com menos concorrentes e mais recursos financeiros. A margem de recuperação de tropeços em seguida às primeiras rodadas é mais escassa. Mas como nada no futebol é de valor absoluto, não haveria por que determinar a queda iminente de equipes que ao final de 15 pontos disputados não somarem nada além de algo em torno de 33%, historicamente o divisor de águas entre quem cai e quem se mantém na competição na temporada seguinte. 

É claro que a mídia esportiva vive de construir nuances possíveis. O tempo mostra que são muitos os casos avaliados ao sabor de emoções e especulações, quando não de convicções frouxas, inclusive anedóticas. A chamada quarta força do Corinthians é a mais desmoralizadora da temporada passada. Se isso ocorre entre os grandes do futebol brasileiro, o que esperar de equipes com menos visibilidade como as 11 que teoricamente jogarão sobretudo para fugir do rebaixamento à Série B do Paulista? 

Longa jornada de volta

O São Caetano dá sequência a uma preparação que de fato começou em 2014, quando iniciou a caminhada de volta ainda carregando ônus de uma estrutura funcional comprometida por rebaixamentos seguidos no calendário nacional. Foi um longo processo que quase custou, na primeira temporada, rebaixamento inédito à Terceira Divisão. Em seguida, já com Luiz Carlos Martins, chegou três vezes seguidas entre os primeiros colocados, até que comemorou o título no ano passado. 

Já o Santo André vive de inacreditável força interior que o catapulta a resultados surpreendentes quando tudo parece perdido. Quando subiu de volta à Série A, em 2016, ficou com a última vaga entre os oito classificados, depois de flertar com o rebaixamento. A contratação do técnico Toninho Cecílio promoveu reviravolta no ânimo da equipe e centralizou o esquema tático na força defensiva seguida de contragolpes. Na primeira rodada dos mata-matas eliminou o favorito São Caetano e na última fase comemorou o título contra ao Mirassol no Interior. No ano passado, mal das pernas com Toninho Cecílio, salvou-se com Sérgio Soares no jogo derradeiro em Osasco contando com 10 jogadores em campo. 

Façam suas apostas 

Façam suas apostas senhores. Apostas imaginárias ou em grupos de aplicativos de celular. Quem sabe até mesmo numa casa clandestina -- porque sempre é possível um mercado paralelo no mundo do futebol.  

Ouso dizer que não passa pela minha cabeça ver o São Caetano e o Santo André fora da Série A do ano que vem. Depois de cinco rodadas, vou produzir alguma análise sobre o que poderão ser as sete rodadas seguintes e decisivas. Trata-se, assumo, de risco e tanto. Tudo pode acontecer nas últimas rodadas. Uma mexidinha aqui, outra acolá, e tudo se altera. 

Quem diria que o São Bernardo do técnico Sérgio Vieira cairia no ano passado, depois de seis primeiras rodadas de bom nível? Já sobre a subida do São Caetano, o que tínhamos era mais sólido, mesmo levando-se em conta que a Série B é mais encardida para os times médios do que a Série A, já que todos os concorrentes teriam na largada expectativa de acesso, não de fugir do rebaixamento. Mas nem sempre ou quase sempre cenários que levem em conta o histórico dos concorrentes são confirmados. Não fosse isso, o Guarani, por exemplo, não estaria na disputa da Série B Paulista deste ano, tendo reservada por mérito um dos 20 postos na Série B do Brasileiro, juntamente com a Ponte Preta. 

Uma olhadinha na lista de integrantes da Série B do Paulista, na qual a região terá São Bernardo e Água Santa como representantes, revela o quando é competitiva a parte que mais toca as equipes médias paulistas: a luta por uma vaga na Série A do Estadual. É disso, afinal, de que se trata em primeiro plano a carga de emoções que começam nesta semana. Os times médios sabem que a Série A é uma vitrine bem remunerada que ameniza as dores orçamentárias de uma temporada certa incerta. 

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