Administração Pública

IPTU: redes sociais vencem,
mas se excedem nos festejos

  DANIEL LIMA - 01/02/2018

Entre mortos e feridos no caso do IPTU poucos se salvaram de sequelas éticas e operacionais. Uma avalanche ditada pela bola de neve de redes sociais, com o aparato paralelo de discretos de grandes proprietários de imóveis, mudou neste início de ano o ambiente em Santo André. A empreitada pouca ajuizada que pretende ocupar o Paço Municipal neste domingo tem significado semelhante à de um time campeão do mundo que, três dias depois, aceita disputar um amistoso em Arapiraca. O Paço Municipal de prováveis gatos pingados domingo é o Arapiraca da vitória das redes sociais contra a aprovação do aumento do IPTU. 

A cidadania monetária contra o assalto à mão armada do prefeito Paulinho Serra se agigantou. Mais que isso: fez submergir os responsáveis por omissões, procrastinações, embromações e tudo o mais de instituições tradicionais. 

Salvaram-se os grupos que se uniram em redes sociais. São os mesmos grupos – já parcialmente esvaziados porque não haveria motivo para mobilização como antes -- que pretendem cumprir uma agenda desnecessária neste domingo no Paço Municipal de Santo André. Para que ir ao paço se o paço já recuou e reconhece que a alquimia do IPTU deve ser intensamente debatida?

Marcas desprestigiadas 

É dispensável expor as marcas tradicionais de representações que se afundaram nas águas do IPTU em Santo André. Pensem em todas que existem na praça. Pensou na Acisa? Pensou na OAB? Pensou nas associações diversas de classe? Pensou no Clube dos Construtores? Coloque tudo isso no mesmo recipiente, façam uma maçaroca e terão o resultado. O rei está nu. Muitos confundem tradição e representação com modernidade e representatividade. Não há reportagem pautada sem sensibilidade que resista. Todas essas instituições foram derrotadas juntamente com Paulinho Serra. A diferença é que o prefeito teve a humildade de reconhecer o erro. 

Possivelmente Paulinho Serra jamais imaginou que seria o agente detonar de uma verdade que canso de repetir neste espaço e que já me custou inclusive uma ordem sentencial absurda de prisão: as instituições de Santo André e da região como um todo são agrupamentos de baixa aderência social. Estão deslocadas dos filiados e dos potenciais filiados. Não significam grande coisa se a grande coisa em questão for olhar para o futuro. Tratam-se de clubes de amigos. 

Muitos desses clubes estão na praça para trabalhar nos bastidores com os poderes públicos. O IPTU de Santo André os atropelou. Os conchavos em formato de reação não passaram de perda de tempo. As redes sociais os colocaram no devido lugar. O prefeito Paulinho Serra provavelmente aprendeu uma lição valiosa: não será com esses parceiros que suportará a barra pesada das redes sociais mobilizadas. Mesmo que desorganizadamente e com vieses político-partidários em alguns casos. Faz parte do jogo.

Atropelamento coletivo 

Os grandes proprietários de imóveis de Santo André agiram com ligeireza e eficiência para abastecer as redes sociais de mensagens aglutinadoras. Dispensaram as entidades de classe porque não pertencem a esses clubes, ou se pertencem sabem bem seus limites de atuação.

É claro que também não escapou desse atropelamento coletivo o Diário do Grande ABC e outros veículos de comunicação da região. Todos optaram pelo noticiário discreto, descomprometido com a causa mais que justa. Optaram pela informação rasa, quando subliminarmente apoiadoras da decisão do prefeito Paulinho Serra e dos vereadores. Deixaram de vestir a camisa da indignação. O empobrecimento de Santo André e da região os atinge indistintamente. 

Houve até quem pretendesse desmobilizar os manifestantes das redes sociais com informações que colocaram em dúvida a idoneidade e a ética de um dos eleitos a entornar o caldo do prefeito de Santo André. A vaca do IPTU já estava mais que no brejo da irritação coletiva não se aperceberam disso. 

Domingo catastrófico 

Por mais que se esforce para justificar o recuo providencial, atribuindo aos contatos com a população a decisão anunciada na tarde de terça-feira, o prefeito Paulinho Serra sabe que as informações cada vez mais recalcitrantes e massificadas nas redes sociais prenunciavam um domingo catastrófico no paço à imagem de quem pouco mais de um ano antes conseguira a maior votação eleitoral da história de Santo André. 

As redes sociais inicialmente com resquícios de interesses político-partidários, também foram atropeladas pela indignação dos contribuintes, às quais se juntaram. 

Não me iludo com o dia seguinte do mundo digital e mesmo material da queda da Bastilha do IPTU tucano. Uma aberração administrativa conduziu gente de todas as classes sociais e também de espectros políticos múltiplos a se organizarem em grupos virtuais. Acompanhei-os de perto. Intensamente. Feliz com o brotar de algo denso mesmo que com prazo de validade perecível. Tanto que se esgotou nesse primeiro estágio quando Paulinho Serra teve sensibilidade ou o que seja para entender que fizera tremenda besteira. 

Forçada de barra

Forçar a barra de um domingo praticamente desnecessário no paço é algo como atirar pela janela um bilhete premiado. O capital de cidadania mesmo que restrita ao campo monetário registrado pela sociedade de Santo André não é algo a desperdiçar como alavanca a novas iniciativas, possivelmente menos absorventes. Será muito pouco provável que o potencialmente maior evento popular que a Província do Grande ABC registraria nas últimas décadas (o caso Celso Daniel não conta) seja objeto de uma autofagia determinada pela impetuosidade voluntarista. 

Ao final da noite de anteontem enviei uma mensagem curta e grossa às centenas de integrantes das redes sociais centralizadas no caso do IPTU. Escrevi exatamente o seguinte: 

 Vou escrever e depois dormir. A manifestação de domingo perdeu o sentido em todos os sentidos. O sucesso já garantido aplacará os ânimos e tornará a mobilização frouxa. Joga-se no lixo o abstrato de uma retumbância histórica e se coloca na zona de risco uma efetividade aquém do que a imaginação eternizaria. Ou seja: troca-se o certo pelo arriscado absolutamente sem necessidade. 

Liberdades para valer 

Meu apartidarismo político é propriedade intelectual que me diz respeito. E meu combustível profissional que poucos jornalistas detêm. O partidarismo de militantes de redes sociais contrários ao aumento do IPTU em Santo André é um direito que lhes diz respeito, também. Não meço o tamanho moral, ético e intelectual de ninguém com base na carteirinha partidária, embora tenha por definição mais cuidados com agentes que ultrapassam a linha da moderação e obstruem a capacidade de gerenciamento de opiniões. Não os condeno, mas também nada nos une necessariamente. Exceto causas em comum como o IPTU. 

É com respaldo da liberdade de expressão e da liberdade de opinião quando não com a liberdade de imprensa que vejo com preocupação para o futuro de novas manifestações em Santo André e também na região o esticamento do inconformismo contra os valores inadequados já cancelados do IPTU. A ideia de que a manifestação marcaria o encontro pessoal de várias lideranças que, a partir de então, traçariam novos planos, é frágil. Não vale o custo da miniaturização do movimento em escala de participantes. 

Havia previsão considerada conservadora de que mais de 20 mil contribuintes tomariam de assalto o Paço Municipal neste domingo. Bem informado, o prefeito Paulino Serra agiu rápido. Do contrário, seria a capitulação completa. Não há ambiente motivador à invasão do Paço. Santo André carece de definição de pautas que as instituições tradicionais jamais foram capazes de materializar. Será que as individualidades das redes sociais vão desperdiçar a oportunidade?  

Jogar com o ASA de Arapiraca depois de ganhar o título mundial é o fim da picada. O melhor mesmo, repito, seria refletir, planejar e voltar à luta. Essa pendenga ainda não terminou, embora esse capítulo esteja mais que encerrado.

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